Não, não vamos minerar asteroides

A ficção científica já mostrou esse cenário várias vezes e há planos de médio e longo prazo para a exploração dos minérios em asteroides próximos à Terra, quem sabe até mesmo no cinturão além de Marte. Mas não é assim tão simples e usar a ficção científica como guia para o futuro é uma cilada. É bem provável que a gente nunca minere asteroides. E se fizer não vai valer à pena.

Não, não vamos minerar asteroides




Você já deve ter visto esse sonho de minerar asteroides por aí, seja em jogos, filmes, séries de TV ou até mesmo projetos audaciosos de empresas que pretendem se lançar ao espaço para minerar asteroides. A desculpa é de que estamos ficando sem esses minérios na Terra e, assim, deveríamos buscar na fonte mais próxima de nós. Acontece que não é bem assim. Eventualmente no futuro nós podemos ter desabastecimento de algum elemento, mas as pessoas esquecem, até convenientemente, que a Terra é muito grande. Podem existir reservas que nem mesmo foram descobertas. E quando o gargalo chegar, espero que tenhamos descoberto novas tecnologias e maneiras de reciclar e reduzir ao máximo o desperdício.

Mas se vamos um dia podemos ficar sem recursos, por que não nos lançar ao espaço? A ficção científica tem um grande problema ao retratar a Terra e o espaço. Ela faz parecer que é tudo perto, logo ali, a um salto ou dobra de distância. O cinturão de asteroides além de Marte é quase vazio. É isso aí. A maioria dos corpos ali existentes são muito pequenos, medindo alguns metros de diâmetro. Enquanto isso, a distância média entre estes pequenos asteroides é de quase um milhão de quilômetros. Em outras palavras, a separação média entre dois pequenos asteroides é mais que o dobro da distância entre a Terra e a Lua. Quanto combustível (e dinheiro) seriam necessários para cobrir tais distâncias imensas para colher alguns gramas cúbicos de minérios?

Vamos supor que um bilionário egocêntrico qualquer cubra esse valor. Como saber quais asteroides minerar? Como levar os especialistas para o espaço? Como medir as jazidas? A maioria dos asteroides é composta por materiais que não têm valor comercial. Quantos testes seriam necessários para encontrar um asteroide bom o suficiente para justificar a mineração sobre ele?

Extrapolando bastante e supondo que temos o dinheiro e temos um asteroide repleto de riquezas, pousar em um é bastante complicado. Sua gravidade é tão fraca que qualquer nave poderia ricochetear sobre sua superfície. Um geólogo talvez conseguisse colher amostras da superfície, mas como ele colocaria uma equipe com equipamentos pesados para trabalhar em microgravidade?

Alguém pode dizer "então vamos pescar um asteroide menor!". Caímos de novo no problema da gravidade, que seria ainda menor e na menor quantidade de qualquer minério que ele pudesse ter. São gastos gigantescos de energia, combustível, água, ar, pressão, comida para as equipes... Há também o grande risco de desestabilizar o equilíbrio do cinturão e acabar gerando uma reação em cadeia que pode ser catastrófica. Alguém se lembra do que aconteceu com os dinossauros?

Mas OK, vamos supor que deu tudo certo e que essa bilionária empresa hipotética conseguiu trazer minérios do cinturão de asteroides para a Terra para empregar na fabricação de eletrônicos, de que nossa sociedade tanto depende. Você teria condições de pagar por um celular com minérios vindos de um asteroide? Pense a respeito. Pense no custo do envio da nave, no custo da mineração, do envio de volta, na manipulação, na fabricação, na compra... Todos esses custos serão repassados para o consumidor final, VOCÊ. Quem teria condições de pagar por um notebook com terras raras vindas de um asteroide? Eu não teria.

Aí alguém pode argumentar: mas nós vamos ficar sem minérios um dia, como a sociedade vai se manter sem eles?? No começo do século XIX, alguns intelectuais começaram a se preocupar com a escassez de carvalho, a madeira preferida para a construção de navios. O carvalho é uma árvore de vida longa, que produz troncos altos e longos, ideais para a construção de pranchas e mastros. Conforme o comércio marítimo florescia, algumas pessoas começaram a se preocupar de que a sociedade acabaria ficando sem essas árvores.

Além disso, o carvalho demora muito para atingir o tamanho necessário para a manufatura de navios de larga escala. Plantar novas mudas de carvalho não ajudaria a resolver o problema, já que a árvore só se tornaria madura o suficiente em cem anos ou mais a ponto de favorecer a construção naval. Significa que o comércio marítimo faliu e destruiu a economia? Não!

O que aconteceu foi que as máquinas a vapor ficaram cada vez mais refinadas ao ponto de poderem ser instaladas dentro dos cascos dos navios. Sem a necessidade de se utilizar do vento em alto mar, os longos mastros de carvalho não eram mais necessários. Os cascos passaram a ser feitos de aço e no fim a temida escassez de carvalho acabou não acontecendo porque a inovação trouxe novos materiais e tecnologias para a construção naval.

O petróleo substituiu o carvão, fontes renováveis eventualmente substituirão o petróleo e o mesmo acontecerá com minérios que hoje são extremamente necessários. A inovação é uma roda que não para de girar e todos dias leva a grandes descobertas. Podemos continuar imaginando enredos no cinturão e intrépidos seres humanos minerando riquezas na ficção científica, mas na realidade isso não será necessário. E pode causar mais problemas do que benefícios.

Até mais! 🌳


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