Resenha: Antes da forca, de Joe Abercrombie

Passar o primeiro livro dessa trilogia, O poder da espada, foi uma luta. Era arrastado, sem nexo entre os eventos, Achei que nunca acabaria, mas finalmente cheguei neste segundo volume, onde as coisas dão uma boa melhorada. Embarcamos em uma jornada por um mundo cruel e violento, com personagens ambíguos e volúveis.

Pode haver spoilers do livro anterior!

Este livro foi uma cortesia da Editora Aleph

O livro
Começamos a jornada exatamente de onde o primeiro volume parou. A maioria dos personagens está espalhada pelos confins do mundo. A narrativa se divide em três principais pontos de vista: o coronel West se junta a um grupo de desertores nórdicos e ao Exército da União para enfrentar o assim nomeado rei Bethod e seu exército invasor de nórdicos. Do outro lado do mundo, Bayaz e sua companhia (que inclui Logen Nove Dedos, Luthar dan Jezal e Ferro Maljinn) viajam até a Orla do Mundo para encontrar um artefato do Criador que os ajudará a derrotar uma ameaça iminente. Enquanto isso, o superior Glokta luta para defender a cidade meridional de Dagoska de inimigos internos e externos.

Resenha: Antes da forca, de Joe Abercrombie

Já deveria saber. Só os amigos ficam para trás. Os inimigos estão sempre nos calcanhares da gente.

Trocando em miúdos, eu já descrevi o livro inteiro apenas no parágrafo anterior. Aliás, ouso dizer que, se você não gostou do primeiro livro por causa do enredo mediano e não se apegou aos personagens, pode parar de ler esta resenha aqui, pois o segundo não melhora. O que me segurou mesmo foram seus personagens que, por mais odiosos que sejam em alguns momentos, são cativantes e seguram bem o enredo. Somente personagens bem escritos podem segurar um enredo onde nada se resolve.

Temos grandes batalhas acontecendo, muita violência e combates sangrentos nos lugares mais ermos do mundo, mas é a força de seus personagens que define seu bom andamento. O que me incomodou um pouco é que, fora do círculo principal de protagonistas, os personagens secundários acabam sendo bastante dimensionais, como a família real da União e o odioso príncipe Ladisla. Talvez a ideia de Abercrombie fosse mostrar a incompetência e a devassidão moral daqueles que estão no poder, porque certamente tem muita coisa errada nessa União.

Glokta, o inquisidor de sua majestade, tem um senso de humor ácido, mas também é incrivelmente inteligente e usa isso a seu favor o tempo todo. Vemos muitas passagens pelas páginas com seus pensamentos mais profundos e suas ironias e sarcasmos, o que alivia toda a violência a qual ele está acostumado. No entanto, há momentos de fraqueza e pensamentos que revelam sua tristeza e o desejo de não se tornar ou de ser visto apenas como um aleijado. Aliás, é a figura dele que vemos na capa, enquanto ele tenta defender Dagoska de um cerco mortal. Ele precisa navegar entre política externa, diplomacia e violência, ainda que misture tudo isso às vezes.

Logen Nove Dedos é retratado externamente como um bruto estúpido, um dos guerreiros mais perigosos e temidos que já existiram. No entanto, todos que o conhecem se tornam seus amigos, apreciam sua companhia e muitas vezes ficam surpresos com seu senso de humor e perspicácia. Mas ele tem um outro lado, chamado de Nove Sangrento, do qual não consegue se livrar. Por várias vezes, ao longo da leitura, me peguei pensando em Logen como um berserker, pois ao se ver em uma situação de extremo perigo, sua consciência se apaga e ele se transforma em um alter ego sádico e divino conhecido como o Nove Sangrento. Nesse estado, ele não sente dor, se cura rapidamente e massacra indiscriminadamente tanto inimigos quanto amigos. Uma pena Abercrombie nunca explique isso.

Quanto a Jezal, ele passa de um jovem guerreiro idiota e ingênuo, que pensa que vencer um torneio de espadas em sua cidade natal, farrear e beber é suficiente para uma vida bem vivida, a compreender o que realmente significa tentar sobreviver na natureza selvagem ao lado de figuras como Logen e Ferro. É interessante acompanhar sua redenção, pois no primeiro volume, você odeia o sujeito com todas as suas forças, já que ele olha as pessoas de cima, com soberba e arrogância, e depois entende como sua vida era vazia.

Não existia isso de sorte ou azar. Eram palavras que os idiotas usavam para explicar as consequências da imprudência, do egoísmo e da estupidez. Frequentemente azar significava planos malfeitos.

A jornada do coronel West pelas ermas terras geladas do norte também foi bem interessante de acompanhar, enquanto ele segue um grupo de nórdicos renegados, que resolveu se juntar aos soldados da União para derrotar Bethod. Sabe aquela máxima: o inimigo do meu inimigo é meu amigo? É bem isso. West é rígido, seguindo uma disciplina interior própria para não acabar indulgente e violento como seu próprio pai. Mas até ele é capaz de atos de violência nessas ermos gelados e isso ocupa sua mente.

Li em algumas resenhas que o final do livro incomodou porque não tem uma resolução. Por ser um segundo livro de uma trilogia, não imaginei que haveria uma. A forma como o autor terminou a jornada dos personagens me prendeu para o próximo volume. Mas não dá para ler uma obra dessas sem ser pela força de seus personagens, assim como lemos nos livros de As crônicas de gelo e fogo. Só espero que, no terceiro livro, tenhamos alguma resolução para todos os conflitos levantados aqui.

Senti muita falta de um mapa, algo que reclamei no livro anterior, e que teria sido muito útil para seguir os passos dos personagens e conhecer melhor a geografia e a geopolítica dos reinos. Em nenhum dos livros da trilogia há um mapa para nos guiar pelos vários locais onde as jornadas dos personagens se passam. Também é um enredo com pouquíssimas mulheres protagonistas. Posso citar a irmã do coronel West, Ardee, e Ferro Maljinn como as principais, em um caldeirão cheio de protagonistas masculinos.

A tradução é de Alves Calado e está ótima. A revisão e a diagramação também, já que praticamente não há erros ao longo da leitura. Destaque para a capa, ilustrada por Wagner Willian.

Obra e realidade
Uma das grandes inspirações para a trilogia é As Crônicas de Gelo e Fogo, de George RR Martin. O primeiro livro, A Guerra dos Tronos, foi lançado em 1996 e foi um fator determinante para muitas vozes da fantasia na década seguinte. Abercrombie também se inspirou na Guerra Civil norte-americana e na Renascença para compor sua trilogia, com personagens que não fossem idealizados, sem uma clara dicotomia entre bem e mal, mas com personagens moralmente ambíguos, que habitassem uma zona cinzenta.

As obras também são apoiadas no realismo, pelo menos em grande parte. A magia até existe, mas sua função é bem menor, mais pontual, pois o que importa são os conflitos, os personagens, suas ações e personalidades.

Joe Abercrombie

Joe Abercrombie é um escritor inglês de fantasia.

PONTOS POSITIVOS
Jorgen, Ferro e Bayaz
Mundo complexo e em guerra
Mistério sobre magia
PONTOS NEGATIVOS
Violência
Poucas protagonistas femininas
Não tem mapa!


Título: Antes da forca
Título original em inglês: Before They Are Hanged
Trilogia A Primeira Lei
1. O poder da espada
2. Antes da forca
3. O duelo dos reis
Autor: Joe Abercrombie
Tradutor: Alves Calado
Editora: Aleph
Páginas: 416
Ano de lançamento: 2024
Onde comprar: box na Amazon ou o livro individual!

Avaliação do MS?
Fiquei surpresa de ter gostado tanto dessa leitura, já que a anterior foi bem mediana Viajando pelos quatro cantos do mundo, seus personagens nos seguram até a última página, e estou bem ansiosa para ler o próximo. Quatro aliens para o livro e uma forte indicação para você ler também!

Muito bom!

Até mais! ⚔️

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