Resenha: O poder da espada, de Joe Abercrombie

Em 2026, a editora Aleph resgatou uma das grandes sagas da fantasia, fora do mercado brasileiro há anos: a trilogia A primeira lei, de Joe Abercrombie, publicada originalmente pela Arqueiro. Conhecido como o rei da grimdark fantasy, Abercrombie criou um universo complexo, com personagens moralmente ambíguos, com uma ameaça surgindo no horizonte capaz de mudar o mapa deste mundo antigo, perfeito para os fãs de Game of Thrones.

O livro
É até difícil resumir esse livro sem saber se será um spoiler ou não. Aqui acompanhamos as vidas de vários personagens diferentes. O primeiro dele é Logen Nove Dedos, um dos personagens mais interessantes do livro, um guerreiro desgarrado que quase morreu em um ataque e acaba sobrevivendo, contra todas as probabilidades. Logen é um homem cansado da guerra, da briga, e sente que não tem bem um propósito na vida. Eis então que ele é encontrado por um aprendiz de mago, que lhe diz que o Primeiro Mago Bayaz está à sua procura.

Resenha: O poder da espada, de Joe Abercrombie

É preciso aprender a amar as coisas simples da vida, como botas secas. É preciso amar as coisas simples quando não se tem nada além delas.

Enquanto isso, na capital real, conhecemos um dos personagens mais medonhos e bem construídos do livro, o inquisidor Sand dan Glokta. Uma vez ele fora um grande soldado, mas depois de ser preso e torturado, o que saiu da cela foi um homem quebrado e mutilado, alguém que é pago pela coroa para torturar e conseguir confissões pra lá de controversas. Cada cena com esse cara era de me contorcer ao longo da leitura, porque tudo o que ele faz é calculado, até mesmo andar e se sentar numa cadeira, já que o corpo não responde muito bem. Quem sofre de dor crônica vai entender bem como ele se sente...

O terceiro protagonista é o babaca Jezal dan Luthar, um jovem e rico nobre da União e capitão do Regimento Real. Por vir de família rica, ele é pomposo, arrogante, metido a besta, que se acha melhor do que seu capitão, o major West, só por vir de família nobre, que bebe demais e farreia mais ainda. Aliás, é uma discussão recorrente no livro essa diferença entre nobres e plebeus. Não importa se West é um excelente soldado, disciplinado, forte e valente; o fato de ele vir de uma família não nobre é como um rótulo que impede os outros soldados de levá-lo a sério.

Tenho que admitir que demorei bastante pra terminar essa leitura. Ela só foi empolgar mesmo bem depois da metade. A narrativa oscila entre Logen, Glokta e Jezal por um bom tempo e isso meio que enche o saco, porque fiquei com a impressão de que o enredo principal, a tal guerra que começa a surgir aos poucos, estava sendo negligenciado Abercrombie nos faz conhecer cada um desses personagens em detalhes, tanto que tive que persistir para continuar, pois minha intenção era largar. Mas aí entrou uma personagem, Ferro Maljinn, vinda de terras ermas, fora da União, que deu uma agitada nas coisas.

Até a entrada dessa personagem, praticamente não há mulheres no livro, se descontarmos a irmã de West, que está lá só para ser um interesse romântico. E isso me incomodou muito, o que era outro motivo que teria me feito largar a leitura. A União é um lugar onde as pessoas têm seus lugares bem determinados desde o nascimento e para as mulheres, não é diferente. Quando Ferro aparece, ela está fugindo, pois sua cabeça está a prêmio. Ela não quer voltar para uma vida de escravidão, mas reluta em acompanhar um homem estranho que a salvou no deserto. Ferro é desconfiada, ágil, muito rápida, violenta, e uma das melhores personagens do livro. Pena que demora tanto a aparecer.

Fica tudo parecendo muito solto e acho que este livro é uma grande e longa introdução para o próximo volume, Antes da forca. Pois a tal guerra contra os povos do norte começa a se desenhar, com alguns conflitos acontecendo. No final, as tropas começam a ser despachadas, mas o autor tem um destino diferente para os protagonistas. Lembra do Primeiro Mago Bayaz, lá do começo? Ele parece despretensioso quando chega, em nada lembrando um grande mago. Então, quando ele volta para a União após um longo exílio, todo mundo fica desconfiado, pois ele não pode ser Bayaz, cuja estátua está presente no centro da cidade, tendo sumido centenas de anos atrás. Todo mundo acha que ele é um charlatão e até eu fiquei desconfiada.

Tinha aprendido, muito tempo antes, que os melhores guerreiros só servem para uma coisa: guerrear. Para praticamente todo o resto, sobretudo esperar, são completamente inúteis.

A tradução é de Alves Calado e está ótima. A revisão e a diagramação também, já que praticamente não há erros ao longo da leitura. Apenas senti falta de um mapa, ele teria sido muito útil para seguir os passos dos personagens. Destaque para a capa, ilustrada por Wagner Willian.

Obra e realidade
Uma das grandes inspirações para a trilogia é As Crônicas de Gelo e Fogo, de George RR Martin. O primeiro livro, A Guerra dos Tronos, foi lançado em 1996 e foi um fator determinante para muitas vozes da fantasia na década seguinte. Abercrombie também se inspirou na Guerra Civil norte-americana e na Renascença para compor sua trilogia, com personagens que não fossem idealizados, sem uma clara dicotomia entre bem e mal, mas com personagens moralmente ambíguos, que habitassem uma zona cinzenta.

As obras também são apoiadas no realismo, pelo menos em grande parte. A magia até existe, mas sua função é bem menor, mais pontual, pois o que importa são os conflitos, os personagens, suas ações e personalidades.

Joe Abercrombie

Joe Abercrombie é um escritor inglês de fantasia.

PONTOS POSITIVOS
Jorgen, Ferro e Bayaz
Mundo complexo e em guerra
Mistério sobre magia
PONTOS NEGATIVOS
Violência
Poucas protagonistas femininas
Final em aberto


Título: O poder da espada
Título original em inglês: The Blade Itself
Trilogia A Primeira Lei
1. O poder da espada
2. Antes da forca
3. O duelo dos reis
Autor: Joe Abercrombie
Tradutor: Alves Calado
Editora: Aleph
Páginas: 416
Ano de lançamento: 2024
Onde comprar: box na Amazon ou o livro individual!

Avaliação do MS?
Foi uma leitura OK. Acredito que vai mesmo se desenvolver no segundo volume. Fiquei pensando se deveria pegar o próximo livro, mas do jeito como as coisas terminaram, é claro que vou ter que pegar pra ler. No mais, vai agradar a quem curte uma fantasia política na mesma pegada dos livros de George RR Martin. Três aliens para o livro.


Até mais!

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