Resenha: Falsa testemunha, de Karin Slaughter

Este foi um dos livros mais fortes que já li. E olha que, vindo de Karin Slaughter, você pode esperar uma escrita visceral e potente, daquelas que chocam, mas ao mesmo tempo nos fazem querer continuar a leitura. Já adianto o seguinte: se você não curte thrillers de investigação, enredos com violência, principalmente contra a mulher, então talvez deva ficar longe dos livros de Slaughter. O que posso dizer é que as mulheres sempre são as protagonistas e elas sempre têm um desfecho.

O livro
Leigh Collier é uma advogada criminal com um ótimo emprego. Tem uma filha adolescente que está naquela fase de odiar a mãe e até mesmo sua separação foi amigável, apesar de seu marido ainda amar a esposa e sentir falta dela. O que poucas pessoas sabem é que a vida de Leigh é repleta de segredos, de traições e de muita violência. Sua fachada de mulher corporativa esconde uma vida dura que vamos conectando a um evento perturbador em seu passado que abre o livro.

Resenha: Falsa testemunha, de Karin Slaughter

— Se você quer medir a altura de uma montanha, a parte mais difícil não é achar o cume, é descobrir onde começa o pé (...).

Sua vida vira do avesso quando ela é chamada em um final de semana até a sede da empresa em que trabalha. Sua função é defender um homem rico, bonito, atraente, chamado Andrew Tenant, de uma acusação de estupro. Herdeiro de uma rede de concessionárias bastante conhecida em Atlanta, o caso pode mudar a vida de Leigh. Mas este é um livro de Karin Slaughter, e nada é tão simples assim em seus enredos. Acontece que Tenant a conhece e não foi uma coincidência Leigh ter sido escolhida para representá-lo. Eles já se conhecem e Tenant sabe exatamente o que aconteceu 20 anos atrás (o evento que abre o livro). A única pessoa que pode ajudá-la é também a última para quem ela gostaria de pedir ajuda: sua irmã, Callie, uma garota viciada em heroína e em analgésicos.

Eu já sabia que a escrita de Slaughter era brutal, não pelas cenas de violência, mas pela sinceridade de sua escrita. Ela não vai esconder os detalhes horríveis de você, mas ela vai te dar um desfecho que vai compensar passar por tudo aquilo. Vai por mim! Odiar Andrew Tenant é só o começo. Em algum momento, as protagonistas vão te fazer odiar todo mundo, inclusive elas, mas você vai ao menos entender por que elas são daquele jeito. Callie, principalmente, é uma garota que sofreu todo tipo de violência na vida e tentou racionalizar isso. Infelizmente, na tentativa de se anestesiar, ela se entregou às drogas e quase morreu, principalmente depois que pegou Covid.

Para os escritores que estavam enclausurados em casa, sempre vai existir aquele livro que foi escrito durante o período da pandemia e para Slaughter, é esse aqui. Os personagens são obrigados a usar máscaras, passar álcool em gel nas mãos, manter o distanciamento, enquanto o enredo se desenrola pelo já conhecido cenário preferido da autora, que é a cidade de Atlanta. Mas o interessante é que a Covid deixou sequelas na personagem de saúde mais frágil e Callie nunca se recuperou das sequelas da doença. Ela tem pouco fôlego para correr ou para subir uma escada, por exemplo, e isso também impacta na sua jornada.

Andrew é aquele homem repugnante que a gente já viu por aí milhares de vezes, que acredita que seu dinheiro será o suficiente para livrá-lo da cadeia. Aí você começa a ler e a ver o comportamento desse sujeito e pensa: peraí, ele é mesmo culpado ou não? É sobre isso que o livro fala? Na verdade, o livro não se concentra tanto em desvendar segredos ou mistérios, em resolver um crime de estupro, ou mesmo no que acontecerá no final, e sim na natureza humana, no comportamento das pessoas e nos relacionamentos. Há um forte sentimento de luto e culpa à medida que Slaughter nos leva para dentro da mente das duas irmãs e descobrimos mais sobre a infância delas e o relacionamento que têm com a mãe e entre si. A chegada de Tenant na vida das suas é apenas uma consequência dessa relação entre as duas.

Gostei muito que Slaughter tenha resolvido algumas coisas bem rápido. Sabemos "quem" sabe sobre as ações das duas garotas no passado. E logo descobrimos "como" elas sabem. Felizmente, esses pontos não foram prolongados demais, eles não tomam muito tempo na narrativa. Agora, o que de fato me pegou de jeito na leitura é que, embora sejamos mantidos em suspense sobre o que vai acontecer no presente, o livro examina como os eventos do passado impactam o desenrolar dos acontecimentos. Slaughter teve muita habilidade em navegar através do trauma e da dor ao nos entregar um enredo que não choca por chocar, nos choca por conta da inevitabilidade de tudo aquilo.

(...) não importava o que acontecesse com as mulheres, os homens sempre, sempre defendiam uns aos outros.

Slaughter conduz a narrativa com maestria e mantém as reviravoltas e cenas chocantes constantes, levando-nos, por fim, a uma direção que eu não esperava. É emocionante, inspirador e, por vezes, devastador. O final me pegou de surpresa, mas aí lembrei que Slaughter não tem dó de ninguém. Fiquei com aquele nó na garganta quando cheguei ao final porque é difícil não se compadecer das protagonistas depois de tudo o que elas passaram. Além da mãe narcisista, muitos dos homens que elas conheceram também fora intragáveis. Então é bem interessante ver como a autora toca em pontos tão sensíveis e subestimados das vidas das mulheres, algo que muitos thrillers de investigação podem deixar de fora.

O livro está muito bem traduzido por Laura Folgueira e não encontrei muitos erros de revisão ou tradução.

Obra e realidade
Uma das críticas que já li sobre o trabalho da autora é que ela sempre coloca mulheres como vítimas. E os crimes costumam ser escabrosos. Ela mesma já discutiu a respeito em outros livros, sobre como acha importante mostrar a realidade da violência contra a mulher em seus livros. Mas acho que o mais importante é mostrar agentes da lei ou até mesmo parentes conseguindo resolver esses casos, buscando justiça, prendendo ou matando os responsáveis. São mulheres que foram vítimas e depois se tornam as agentes em busca de justiça, seja por elas ou por outros.

É possível escrever sobre crimes que não envolvam mulheres? Sim, mas também é um fato de que ainda somos grandes vítimas da violência. No final de 2025, acompanhamos as notícias de mulheres mortas por ex-companheiros, arrastadas por carros, espancadas, porque deram um basta numa relação, porque disseram não. Como a arte vai ignorar o que ainda acontece nas cidades e nas casas todos os dias?

Karin Slaughter

Karin Slaughter é uma escritora de literatura policial norte-americana.

PONTOS POSITIVOS
Leigh e Callie
Bem escrito
Ritmo intenso
PONTOS NEGATIVOS
É sangrento
Violência contra mulher

Título: Falsa testemunha
Título original em inglês: False Witness
Autora: Karin Slaughter
Tradutora: Laura Folgueira
Editora: HarperCollins
Páginas: 432
Ano de lançamento: 2021
Onde comprar: na Amazon!

Avaliação do MS?
Foi uma leitura intensa e por vezes perturbadora. Volta e meia eu tinha que respirar fundo pra poder continuar a leitura porque era uma cena difícil. Mesmo com a violência e sua escrita por vezes brutal, é difícil não querer continuar a ler seus livros. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais!

Já que você chegou aqui...

Comentários

Form for Contact Page (Do not remove)