O Predador deve ser um dos filmes de monstros mais famosos e um dos mais queridos da galera da minha geração. Mas por alguma razão, o novo filme da franquia, Predador: Terras Selvagens polarizou uma parte da audiência que parece incapaz de conceber um monstro dotado de sociedade e cultura. Mesmo que esse monstro seja capaz de voo interestelar e camuflagem.

Predador: Terras Selvagens tem uma premissa bastante simples. Expulso do seu clã, um caçador alienígena embarca em uma jornada traiçoeira em busca do adversário supremo em um planeta perigoso. Lá, a natureza é selvagem ao extremo e ele percebe que apenas seu conhecimento e sua força talvez não sejam páreo para enfrentar os desafios da natureza. Mas é então que ele faz uma aliada improvável: Thia (Elle Fanning), uma androide da Weyland-Yutani (sim, ela mesma) largada e parcialmente destruída no planeta. Começa então essa jornada improvável de sobrevivência e cooperação.
Algo bastante importante de se destacar é que, enquanto nos filmes anteriores, o Predador era sempre um coadjuvante sanguinário e quase invencível, aqui ele é o protagonista. No universo expandido de fanfics, quadrinhos e jogos de O Predador, eles são por vezes chamados de Yautja ou de Hish. E Yautja é o termo adotado para descrever os membros de sua espécie. Ou seja, não apenas ele ganha protagonismo, como também ganha uma estrutura social, cultura, conflitos e vulnerabilidades.
O jovem Yautja chamado Dek tenta provar seu valor como guerreiro perante o seu clã. Então, não vemos pobres seres humanos sendo despedaçados pela criatura, temos um jovem tentando sobreviver com base no que aprendeu com outros guerreiros. Isso nos permite ver o Predador como alguém, não uma coisa, um monstro sem cérebro ou inteligência, mas um protagonista cuja jornada vale a pena acompanhar, não um mero antagonista que é mau por natureza.
Vi alguns comentários que criticavam a "humanização" da criatura em Terras Selvagens. Foi a mesma galera que criticou Frankenstein, de del Toro, pelo mesmo motivo. Isso provavelmente aconteceu porque a pessoa conhecia o Frankenstein unicamente por sua adaptação com Boris Karloff, sem jamais ter lido o livro se aprofundado nos dilemas que a criatura vive por sua condição. Del Toro pode ter aprofundado essas questões, mas não exatamente inventou a roda em seu longa.
O Predador, por sua vez, já surgiu como aquela criatura bombada do primeiro filme. Mas pare e pense um instante: como ele chegou ao planeta Terra? Ele é obviamente alienígena, dotado de uma tecnologia avançada, capaz de criar armadilhas e executar lutas sofisticadas. Tudo isso em si já indica uma cultura de algum tipo, uma inteligência bem além da nossa, sem falar na capacidade de voo interestelar. Como esses seres não podem ter cultura e sociedade?
Convenhamos que isso nem mesmo é novidade? Em Alien vs Predador (2004), o Predador sobrevivente coopera com Alexa Woods e depois reconhece seu valor como guerreira por terem sobrevivido a um dos alienígenas mais perigosos do universo. Novamente, isso é sinal de presença de cultura e sociedade. Reclamar disso num novo longa como se ninguém nunca tivesse pensado antes é meio que uma idiotice.
Outra questão que me agradou demais nesse filme: não temos seres humanos em cena. Apenas Yautjas e androides. O enredo é centrado na cultura Yautja e em um planeta alienígena hostil, sem a presença de um único ser humano para contar história. Ele nem sobreviveria, falando a verdade. Mas isso não quer dizer que é difícil se identificar com Dek ou até mesmo com Thia, pois velhos sentimentos universais e bem humanos estão presentes, como o fato de Dek ser marginalizado dentro de sua própria cultura e ele então parte em busca desse reconhecimento. Passamos a ver o universo como um lugar repleto de vida, quase incompreensível e ainda assim bastante familiar em certos aspectos. E claro, vemos a presença do capitalismo predatório em mais um planeta...

Foi muito revigorante ver um filme que não gira mais em torno da carnificina de seres humanos. Todo um leque de novas possibilidades narrativas se abriu para o universo de O Predador, que deixa de ser um slasher de ficção científica para um universo de características intensas, com uma sociedade alienígena muito mais avançada que a nossa. O Predador é uma criatura versátil, podendo atuar em vários ambientes e épocas, como o excelente O Predador: A Caçada nos mostrou.
Espero que novos filmes venham e que eles nos mostrem mais da sociedade Yautja.
Até mais!
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