Resenha: Vikings - a história definitiva dos povos do norte, de Neil Price

O imaginário coletivo sobre os vikings os mostra como guerreiros implacáveis e cruéis, tatuados, munidos de espada, escudo e cotas de malha e capacetes com chifres. Algumas coisas estão tão cristalizadas na mente do público, que elas adotam como verdade histórica, como os sepultamentos no mar, algo inventado pela indústria do entretenimento. A verdade, como nos mostra este livro, é bem mais fascinante...

O livro
A Era Viking viu uma expansão sem precedentes dos povos escandinavos. Como comerciantes e invasores, exploradores e colonos, eles foram da Europa para a América do Norte e Ásia. Eram os maiores e mais temidos guerreiros do mundo. Mas tem um problema. Muito do que sabemos sobre eles vieram dos povos que eles conquistaram. E mesmo aqueles que negociavam com os vikings, em geral, não sabiam com quem estavam lidando. O rei Alfred, o Grande, depois deu uma sangrenta batalha contra os vikings no final do século IX, recebeu em sua corte um mercador norueguês não combatente e encheu o sujeito de perguntas sobre quem eram eles, de onde vinham, como viviam?

Resenha: Vikings - a história definitiva dos povos do norte, de Neil Price

Nunca houve qualquer coisa parecida com uma linha "nórdica pura", e é provável que os povos daquele tempo ficassem perplexos com a mera sugestão dessa ideia.

Eles tiveram sua história contada de forma distorcida por escritores medievais, historiadores vitorianos e até pelos nazistas, que tentaram se apropriar de uma herança “branca” e escravocrata. Muito mais que bárbaros, eram curiosos e criativos e tiveram uma enorme importância na tecnologia marítima e na construção de cidades. Neil Price nos conta aqui, diante de evidências arqueológicas e novas descobertas, como esses povos nórdicos viam a si mesmos. Ao invés de contar uma história do ponto de vista de um observador externo, ele quer contar a história por dentro. E ele é bastante sincero sobre aquilo que ainda não se sabe.

O período em geral usado pelos historiadores para a Era Viking é de 793 a 1066 EC. Esses marcos finais indicam, respectivamente, o ataque viking ao Mosteiro de Lindisfarne, que deu início às incursões vikings na Inglaterra, e a derrota e morte do rei viking Harald Sigurdsson Hardrada na Batalha de Stamford Bridge. Mas para Price, esses dois marcos são muito rígidos para se delimitar o que se convencionou chamar de Era Viking. Por exemplo, a antiga religião nórdica persistiu em alguns lugares muito depois da adoção oficial do cristianismo pela Islândia, no ano 1000.

As causas e origens da Era Viking ainda são relativamente obscuras e pouco compreendidas. Price tenta navegar pelos diversos fluxos culturais e sociais que começaram a convergir nas últimas décadas do século VIII, rastreando-as até sua origem. Ao buscar as origens mais profundas da Era Viking, ele conecta com destreza diferentes épocas e lugares, remontando até a queda do Império Romano do Ocidente. O que se segue nos capítulos subsequentes é a progressão dos saques às invasões, conquistas e assentamentos, no contexto dos piratas e das extensas redes comerciais que se desbravavam pelo mundo.

A ascensão dos povos vikings foi facilitada pelo declínio do Império Carolíngio nos últimos anos de Carlos Magno e após sua morte. Também foi possibilitada por um desastre climático que pode ter reduzido a população da Escandinávia em 50% por volta de 547. Novas elites tornaram-se reis locais na Escandinávia após violentas batalhas. Essas elites reivindicavam descendência genealógica de Odin, Freya e outros deuses nórdicos. Para demonstrar seu sucesso, construíram salões elaborados cercados por importantes vilarejos, que se tornaram ricas fontes de dados arqueológicos. Por exemplo, Uppsala (que significa "salões superiores") continha informações históricas valiosas, incluindo túmulos.

Price dedica toda a primeira parte livro à religião, sociedade e cultura dos escandinavos medievais, a fim de nos fornecer uma lente através da qual possam interpretar a história política dos vikings. Quase tudo o que sabemos sobre esses tópicos provém de sagas da Alta Idade Média, escritas não no coração pagão da Escandinávia, mas em sua colônia na Islândia, após a conversão ao cristianismo. Isso traz suas próprias limitações, é claro e embora ele tente fazer algumas conjecturas a esse respeito, o conhecimento concreto está além do nosso alcance. Uma pena.

O autor se preocupa em não criar uma visão romântica desses povos. Ele aponta claramente os aspectos mais desagradáveis, como a dependência da escravidão. Ainda que muitas vezes eles tratassem mulheres com brutalidade, em especial aquelas de povos conquistados, as mulheres vikings tinham proeminência na sociedade. Há também evidências de que gênero fluído e homossexualidade eram tolerados e não combatidos. Mas o autor deixa claro que a sociedade era patriarcal, ainda que não tão inflexível.

Tem muita coisa nesse livro que eu desconhecia completamente. Nunca tinha me dado conta da extensão da ocupação escandinava da França e certamente não de suas façanhas na Espanha, embora soubesse que a Normandia tinha alguma ligação com elas (dê uma olhada na bandeira da Normandia se você conhece as dos países nórdicos). Os vikings influenciaram as regiões que visitaram, mas também foram influenciados pelas instituições dessas regiões. Um exemplo disso é o do rei da Dinamarca, Harald Bluetooth, que por volta de 960 EC, foi batizado no cristianismo.

Nunca devemos ignorar ou suprimir as realidades brutais por trás dos clichês – a carnificina das invasões, a escravidão, a misoginia –, mas os vikings eram muito mais que isso. Eles mudaram seu próprio mundo, mas por sua vez também permitiram ser alterados; verdade seja dita, receberam de braços abertos as conexões com outros povos, lugares e culturas.

Para além dos estereótipos, a Era Viking foi sim uma época de terrível violência e de estruturas igualmente terríveis da opressão patriarcal institucionalizada. Mas, ao mesmo tempo, foi uma era de considerável tolerância de ideias radicais e religiões estrangeiras, de inovação social e multiculturalismo. Houve florescimento das artes, fundação de novas cidades e assentamentos e interações culturais. O autor espera que as pessoas lembrem-se disso, ao invés de se apoiarem na violência e na opressão. Ao final do livro, chegamos à Islândia, Groenlândia e ao litoral norte-americano, sem mencionar Constantinopla, Rússia e o Oriente Médio.

A tradução ficou na mãe de Renato Marques de Oliveira e está ótima. O livro conta com mapas e imagens em preto e branco e coloridas, contando ainda com uma extensa bibliografia e sugestões de leitura no final.

Obra e realidade
Escavado pela primeira vez na década de 1960, L'Anse aux Meadows é um sítio arqueológico que preserva os vestígios de um assentamento nórdico datado de aproximadamente mil anos atrás. O local fica próximo à cidade de St. Anthony, na ponta mais ao norte da ilha de Terra Nova, na província canadense de Terra Nova e Labrador. Com estimativas por datação por carbono situadas entre os anos 990 e 1050 d.C. (com média em 1014) e datação por anéis de árvores indicando o ano de 1021, L'Anse aux Meadows é o único sítio comprovado de contato transoceânico pré-colombiano entre europeus e as Américas fora da Groenlândia. Evidências arqueológicas indicam que o assentamento pode ter funcionado como uma base para a exploração nórdica da América do Norte, incluindo regiões situadas mais ao sul.

O declínio do assentamento teve início no século XIV e os assentamentos começaram a ser abandonados perto de 1350. O mais provável é que no século XV já não havia assentamentos viquingues no continente americano, apesar de não existir uma data certa, precisa para esse acontecimento.

Neil Price

Neil Price é um arqueólogo inglês especializado na história dos vikings. Já escreveu diversos livros sobre o tema.

PONTOS POSITIVOS
História Viking
Bem escrito
Fontes e ilustrações
PONTOS NEGATIVOS

Preço


Título: Vikings - a história definitiva dos povos do norte
Título original em inglês: Children of Ash and Elm: a history of the Vikings
Autor: Neil Price
Tradutor: Renato Marques de Oliveira
Editora: Planeta (selo Crítica)
Páginas: 640
Ano de lançamento: 2021
Onde comprar: na Amazon!

Avaliação do MS?
Este livro é mais uma obra incrível publicada pela editora Planeta e pelo selo Crítica. Contando com as últimas evidências arqueológicas, o autor nos forneceu um novo panorama da história viking, fugindo dos principais estereótipos a eles relacionados. É daqueles livros preciosos da estante para se consultar de tempos em tempos. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais! ⚔️

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