Esse livro me enganou, porém, por minha própria incapacidade de ler toda a sinopse. Ela começa falando sobre um crime, então peguei pra ler achando que fosse um thriller de investigação, gênero que gosto muito. Mas não era! E nem por isso foi uma leitura ruim. Acabei me vendo entretida e querendo logo chegar ao final.
O livro
Mallory Ward é uma assistente social solitária que sente que seu trabalho em Boston é importante, mas também desvalorizado. Ela sente que é sua missão ajudar jovens em condições de vulnerabilidade, mas essa crença muda radicalmente quando uma das jovens que ela acompanhava é assassinada. Mallory se sente perdida, frustrada e estava mais que disposta a contribuir para pegar o assassino, mas sua chefe tem outra ideia: mandá-la para umas merecidas férias para poder espairecer, ou ela ficaria focada no crime e se esqueceria de todo o resto.
Pessoas que mentem sempre têm alguma desculpa. Alegam estar protegendo outra pessoa quando, na verdade, estão só se protegendo.
Devo dizer que Mallory foi uma personagem intragável na maior parte da leitura. Ela tem uma dificuldade imensa de se relacionar com as pessoas porque foi deixada pelo noivo, Aiden. Ela estava grávida, de casamento marcado, mas a perda do bebê destruiu todos os seus planos. Pra piorar, Aiden embarcou para a Europa, onde estabeleceu uma bem-sucedida carreira na música. Então, sua incapacidade de se relacionar com as pessoas, até mesmo com a própria mãe, vem dessa grande decepção. Por isso, ela não fica nem um pouco contente por ter que retornar para a casa onde cresceu, na na costa de Rhode Island.
Sua mãe, Helen, é um tipo de terapeuta e enfermeira que cuida de pacientes terminais e sempre priorizou o trabalho, pois precisava botar um teto sobre sua cabeça e comida na mesa. Mas a dedicação intensa ao trabalho também maculou sua relação com Mallory. Assim, elas estão sem se ver há pelo menos quatro anos quando Mallory chega de surpresa na casa da mãe, que fica feliz em vê-la, obviamente, mas que não sabe o que aconteceu para forçar sua vinda. Nesse começo do livro, todos os diálogos entre elas são tensos, carregados, como se uma não soubesse como falar com a outra.
Apenas a tensão entre mãe e filha já gerariam muitas questões e discussões por parte da autora. Tem as questões da maternidade e de como todas nós guardamos segredos e somos seres complexos e dotados de uma gama bem variada de emoções e sensações. Os conflitos estão todos lá, mas o livro carrega muito mais do que isso. Como se as coisas já não estivessem complicadas o suficiente, Mallory ainda precisa lidar com uma surpresa nada agradável: Aiden, seu ex, também está de volta à cidade depois de sofrer um acidente misterioso que ninguém sabe especificar como foi.
Determinada a manter distância, ela passa os primeiros dias ruminando a própria raiva, da mãe, da antiga vizinha (que também é mãe de Aiden) e, sobretudo, de si mesma, já que carrega a culpa pela morte da garota (sendo que não foi culpa dela de qualquer maneira). Então Mallory, sua mãe, Aiden e a mãe dele são as quatro personagens que guiarão a narrativa e vou te contar, eu esperava só um dramalhão de uma moça de coração partido, mas a autora me surpreendeu. Porque entrelaçada à história de Mallory está também a de sua mãe. Entre os capítulos, estão passagens de seu diário, que vão culminar revelando um grande segredo de família. E bota segredo nisso! Dá pra sacar alguma coisa ao longo da leitura, mas não tudo.
Ela sempre pensou em se abrir com a filha, mas o medo falou mais alto. Acredite, o segredo poderia fazer Mallory dar as costas e ir embora pra nunca mais voltar. Mas naquele momento, com a sensação de que Mallory talvez tenha uma nova chance se tentar viver de outra forma, Helen começa a se perguntar se não chegou a hora de contar a verdade. Mallory, por outro lado, só quer evitar mais dor e faz de tudo para manter Aiden longe de seu caminho, aguardando o momento em que poderá voltar para Boston. Nada, em sua cabeça, é capaz de mantê-la ali. Tinha momentos ao longo da leitura que eu queria sacudir essa guria pra ela acordar pra vida.
Mães não devem ter passado. Para nossos filhos, somos lousas em branco, esperando pacientemente que eles surjam para que nossas vidas possam finalmente começar. Em suas mentes, não guardamos segredos, não temos sonhos, não cometemos pecados. Mas poucas de nós chegamos à maternidade sem as marcas da vida.
O livro está bem traduzido por Lina Machado. A revisão deixou passar alguns errinhos de revisão, mas eles não prejudicam a leitura.
Obra e realidade
O trabalho que a mãe de Mallory fornece poderia ser chamado de cuidados paliativos. Os cuidados paliativos são uma abordagem interdisciplinar de saúde que melhora a qualidade de vida de pacientes e seus familiares diante de doenças graves, crônicas ou que ameaçam a vida. Focam no alívio de dores e outros sintomas físicos, psicológicos, sociais, até espirituais, promovendo conforto e dignidade. Essa abordagem valoriza a autonomia do paciente, não apressa nem adia a morte, e deve ser iniciada precocemente junto aos tratamentos curativos.Helen deixa isso claro ao conversar com um paciente novo. Ela não está lá pra curar ninguém, mas pra oferecer conforto e alívio. Ela não faz uso de medicações ou drogas, mas sim de chás, xaropes e óleos naturais de maneira a aliviar os sintomas. Talvez essa abordagem mais natural de Helen é que tenha confundido Mallory e a levou a ter uma visão distorcida do trabalho da mãe.

Barbara Davis é uma escritora norte-americana, finalista do Goodreads Choice Awards 2023.
PONTOS POSITIVOS
Personagens irritantes
Bem escrito
Segredos de família
PONTOS NEGATIVOS
Pode ser meio lento em algumas partes
Personagens irritantes
Bem escrito
Segredos de família
PONTOS NEGATIVOS
Pode ser meio lento em algumas partes
Avaliação do MS?
Não sabia bem o que esperar quando comecei essa leitura e depois me vi incapaz de parar de virar as páginas até chegar ao final. Mallory pode ser uma mala, é verdade, mas dá pra entender porque ela é assim. É daquelas leituras que ficam com a gente um bom tempo, que mostram o frágil fio que une as relações humanas. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!
Até mais!
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