Estou lendo os livros de Karin Slaughter desde o ano passado e me sinto impossibilitada de parar. Não vou dizer que é fácil ler seus livros, pois em muitos deles, a autora trata de temas pesados, como exploração sexual, abuso e estupro. Mas o que me conforta é que as mulheres são protagonistas de suas histórias, são elas que investigam e punem. Aqui temos o primeiro livro de uma nova série da autora, chamada North Falls.
O livro
North Falls é uma cidade pequena onde todos se conhecem… ou, pelo menos, é o que achavam. Na celebração de 4 de Julho, Dia da Independência dos Estados Unidos, a policial Emmy Clifton está tensa. Conhecemos Emmy quando ela é uma jovem policial que luta para criar um marido fracassado e um filho pequeno. Ela está tendo uma noite ruim quando a enteada adolescente de sua melhor amiga tenta conversar com ela, mas depois se arrepende quando a garota desaparece junto com uma amiga. As bicicletas das duas jovens são encontradas, junto de muito sangue e poucas pistas.
Quando você não sabe nada, é fácil acabar se convencendo de que sabe alguma coisa.
A amizade de Emmy nunca se recupera e ela se sente culpada por não ter dado mais atenção à menina antes que ela desaparecesse. Fica claro que as duas jovens estavam envolvidas em algo sombrio, mas ao menos a cidade tem algum consolo no fato de terem prendido e condenado o assassino. Até que ele é libertado após doze anos na prisão, quando uma nova testemunha aparece e sacode o caso e a cidade de North Falls. Ele não fica muito tempo em liberdade, porém, antes que outra garota desapareça e todo o drama de anos antes recomeça.
A força deste livro, bem como em outras obras da autora, reside em suas personagens. Não apenas Emmy é uma grande protagonista, como seu pai (o chefe de polícia) e seu filho (que também se torna policial), e também seus parentes e familiares. Quando a história se passa nos dias atuais, Slaughter também apresenta uma agente do FBI, Jude, renomada por caçar predadores de crianças, que demonstra um interesse inesperado no desaparecimento mais recente, chegando à cidade para ajudar a encontrar a adolescente desaparecida. E entrelaçado ao mais novo desaparecimento, estão os dilemas pessoais e familiares.
O que também me agradou foi o fato de termos uma investigação de alto nível, com uma análise metódica de pistas e evidências, como também a presença do elemento psicológico, que é onde Jude entra em cena e, pela primeira vez, Emmy começa a se preocupar que ela e seu pai tenham conduzido a investigação original de forma errada e prendido o homem errado. Isso significa que Emmy e sua equipe são forçados a revisitar os assassinatos originais e reviver aqueles dias. E então Slaughter leva a história ainda mais longe quando Emmy precisa considerar a possibilidade de que alguém tenha deliberadamente levado a polícia na direção errada e esteja tentando fazer o mesmo novamente.
Essa paranoia de Emmy nos acompanha em boa parte da leitura. Eu também comecei a acreditar que ela prendera o homem errado, ainda que esse homem seja deplorável e um grande babaca. Aliás, acho brilhante a forma como a autora cria seus personagens. As duas jovens que desapareceram 12 anos antes tinham vários defeitos, mas em nenhum momento elas são consideradas culpadas. Elas foram vítimas de alguém e havia duas famílias destroçadas em busca de respostas. É nisso que as forças policiais precisam se concentrar se quiserem encontrar a nova jovem desaparecida. Eles vão conseguir? Ou vão chegar tarde demais?
Quem se concentra nas árvores não vê a floresta.
À medida que Emmy começa a desvendar os segredos dos moradores de North Falls, fica cada vez mais claro que todos têm segredos e ninguém é confiável. Suas investigações, que abrangem um longo período, desde os desaparecimentos iniciais até um julgamento e um novo caso, começam a abalar os relacionamentos na cidade e em sua vida pessoal. É interessante notar o peso que uma investigação pode ter nos policiais envolvidos. Eles também têm sentimentos, frustrações e muitas emoções com as quais lidar, sejam as deles, sejam dos familiares das vítimas.
Slaughter não poupa detalhes em sua escrita, e algumas das reviravoltas neste livro foram bem chocantes. Eu não estava preparada para algumas delas! Entretanto, tudo é muito bem entrelaçado e a narrativa é sempre crível. Me peguei constantemente tentando adivinhar quem era o culpado, e sempre errava, pois há tanta coisa acontecendo, e as verdadeiras pistas estão escondidas em meio a uma pilha de pistas falsas. Quando você acha que o assassino verdadeiro foi pego, surpresa!, não foi. Então quem é fã do gênero encontrou um livro que vai te prender até altas horas da noite lendo.
A tradução foi de Marina Della Valle e está muito boa, mas a revisão às vezes deixa a desejar. Como Slaughter é publicada no Brasil por duas editoras diferentes, existem diferenças em nomenclaturas e siglas que deveriam ser um padrão entre as duas. Mas OK, dá pra seguir a leitura.
Obra e realidade
Uma das críticas que já li sobre o trabalho da autora é que ela sempre coloca mulheres como vítimas. E os crimes costumam ser escabrosos. Ela mesma já discutiu a respeito em outros livros, sobre como acha importante mostrar a realidade da violência contra a mulher em seus livros. Mas acho que o mais importante é mostrar agentes da lei ou até mesmo parentes conseguindo resolver esses casos, buscando justiça, prendendo ou matando os responsáveis.É possível escrever sobre crimes que não envolvam mulheres? Sim, mas também é um fato de que ainda somos grandes vítimas da violência. No final de 2025, acompanhamos as notícias de mulheres mortas por ex-companheiros, arrastadas por carros, espancadas, porque deram um basta numa relação, porque disseram não. Como a arte vai ignorar o que ainda acontece nas cidades e nas casas todos os dias?

Karin Slaughter é uma escritora de literatura policial norte-americana.
PONTOS POSITIVOS
Emmy Clifton
Bem escrito
Ritmo intenso
PONTOS NEGATIVOS
É sangrento
Violência contra mulher
Dá uma enrolada lá pelo meio
Emmy Clifton
Bem escrito
Ritmo intenso
PONTOS NEGATIVOS
É sangrento
Violência contra mulher
Dá uma enrolada lá pelo meio
Avaliação do MS?
Foi uma leitura intensa e por vezes perturbadora. Volta e meia eu tinha que respirar fundo pra poder continuar a leitura porque era uma cena difícil. Ainda assim, foi uma ótima leitura e espero ler mais livros da autora. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!
Até mais!
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