Quando esse quadrinho foi lançado, em 2022, se comemorou os 100 anos da descoberta da tumba quase intacta do faraó-menino Tutancâmon, da XVIII Dinastia egípcia. Um dos faraós mais conhecidos do mundo, o jovem rei ganhou uma justa homenagem de quadrinistas brasileiros em uma obra que você não pode deixar de ler.
O quadrinho
O reino de Kemet (Egito Antigo) está em convulsão. O faraó Aquenáton reformou a antiga e milenar religião egípcia, renegando os deuses tão amados pelo povo e enaltecendo a figura do deus do disco solar, Aton. As reformas religiosas e políticas não agradaram a muitos membros da realeza e do clero. Até mesmo uma nova capital foi fundada no deserto, hoje conhecida como Amarna. Porém, quando o faraó morre, o destino do reino recai nas mãos de seu único filho homem, Tutancaton (que será posteriormente renomeado para Tutancâmon).
Quando fugimos e nossos credos, nos tornamos mais fracos, vulneráveis. Nossos inimigos anseiam por uma hora assim, uma única brecha para concretizarem nossa sina.
Valendo-se da mitologia egípcia, da história e preenchendo os espaços do que ainda não sabemos, os autores criaram uma jornada visual para um período longínquo na história de forma a levar o nome de Tutancâmon às pessoas. Você pode só ter ouvido o nome de passagem ou pode ser uma egiptóloga amadora, o quadrinho vai agradar da mesma maneira mesmo os mais exigentes e, o melhor de tudo, feito inteiramente por autores nacionais.
Mas mesmo tendo espaço para o místico e para a mitologia egípcia, o quadrinho é embasado em muita pesquisa e ao final da leitura encontramos diversas notas explicativas para vários quadros e passagens. Há uma razão de ser para aquela imagem dos deuses e dos templos ou das vestimentas dos personagens. Nada representado nessas páginas é aleatório, o que tornou a leitura rica e proveitosa, além de ser um espetáculo de encher os olhos. Uma coisa é ler sobre a história antiga, a outra é ver deuses saltando das páginas e faraós e rainhas andando e falando, usando roupas de linho e coroas.
Para quem conhece um pouco da história do período, vários nomes serão reconhecidos durante a leitura, como o do general Horemheb, da rainha Ankhesenamon e do vizir Ay. Não sabemos com certeza como aqueles dias após a morte de Aquenáton, mas sabemos que o país enfrentava diversos desafios políticos, além de religiosos e que havia pressão dos sacerdotes para um retorno à antiga religião egípcia. Em vários momentos, é possível sentir a pressão sobre os ombros do faraó menino que tem na esposa e sua irmã uma fonte de força e conforto.
Sabemos que Tutancâmon morreu jovem, mas do que ele morreu, ainda é fruto de muito debate. Diferente de outros faraós que reinaram por décadas como Ramsés II e Pepi I, Tutancâmon reinou por apenas 18 anos em uma das épocas mais turbulentas da história egípcia e só ficou famoso por causa da descoberta de sua tumba quase intacta em 1922, por Howard Carter. Podemos perceber pela mudança de seu nome e de sua esposa, que os deuses antigos retornaram ao panteão oficial, mas é provável que o casal real tenha se mantido fiel ao disco solar Aton até o fim de suas curtas vidas.
A 18ª Dinastia (c. 1550–1292 AEC) foi a primeira e mais poderosa do Novo Reino do Egito, marcando seu auge com faraós como Hatshepsut, Tutmés III, Akhenaton, Nefertiti e Tutancâmon. Começou com o faraó Ahmose expulsando os Hicsos, e terminou com a estabilização trazida pelo general Horemheb, preparando o terreno para a 19ª Dinastia, a mesma de Ramsés II, o Grande.
A edição vem em capa comum, uma pena, e papel encorpado no miolo, com impressão colorida de alta qualidade. Há notas para enriquecer a leitura, além de uma introdução escrita por Christopher Naunton, egiptólogo britânico. Estranhei o fato de terem usado Aten e não Aton ao longo da leitura, o que pode confundir aqueles que não conhecem os dois termos. Não há erros de revisão ou diagramação.
Obra e realidade
A palavra Aton aparece no Antigo Império como um substantivo que significa "disco", referindo-se a qualquer coisa plana e circular; o sol era chamado de "disco do dia", onde se acreditava que o deus Rá residia. Por analogia, o termo "Aton prateado" era às vezes usado para se referir à Lua. Ilustrações em alto e baixo relevo de Aton mostram-no com uma superfície curva.Aton era o disco solar e originalmente um aspecto de Rá, o deus sol na religião tradicional do antigo Egito. Aton não possui um mito de criação ou família, mas é mencionado no Livro dos Mortos. A primeira referência conhecida a Aton, o disco solar, como uma divindade está na História de Sinuhe, da 12ª Dinastia, na qual o rei falecido é descrito como ascendendo como um deus aos céus e "unindo-se ao disco solar, o corpo divino fundindo-se com seu criador".
Embora Aton fosse adorado durante o reinado de Amenhotep III, ele se tornou a única divindade a receber culto estatal e oficial sob seu sucessor, Aquenáton, embora evidências arqueológicas sugiram que o fechamento dos templos de outros deuses egípcios provavelmente não tenha interrompido o culto doméstico ao panteão tradicional. Provavelmente, a proibição tenha sido mais intensa em Tebas, a cidade sagrada do deus Amon, do que no restante do reino.

Felipe Pan é escritor, tradutor e professor de inglês.
Olavo Costa é um ilustrador e quadrinista brasileiro.
Mariane Gusmão é uma ilustradora e colorista brasileira.
PONTOS POSITIVOS
Antigo Egito
Bem escrito
Cores e arte
PONTOS NEGATIVOS
Acaba logo!
Antigo Egito
Bem escrito
Cores e arte
PONTOS NEGATIVOS
Acaba logo!
Avaliação do MS?
Que quadrinho incrível! Saber que essas pessoas existiram deixa tudo ainda mais rico. As cores saltam das páginas, os traços fazem os quadros e personagens se moverem ao longo da leitura. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!
Até mais! 𓂀
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