Resenha: O menino rei, de Felipe Pan, Olavo Costa e Mariane Gusmão

Quando esse quadrinho foi lançado, em 2022, se comemorou os 100 anos da descoberta da tumba quase intacta do faraó-menino Tutancâmon, da XVIII Dinastia egípcia. Um dos faraós mais conhecidos do mundo, o jovem rei ganhou uma justa homenagem de quadrinistas brasileiros em uma obra que você não pode deixar de ler.

O quadrinho
O reino de Kemet (Egito Antigo) está em convulsão. O faraó Aquenáton reformou a antiga e milenar religião egípcia, renegando os deuses tão amados pelo povo e enaltecendo a figura do deus do disco solar, Aton. As reformas religiosas e políticas não agradaram a muitos membros da realeza e do clero. Até mesmo uma nova capital foi fundada no deserto, hoje conhecida como Amarna. Porém, quando o faraó morre, o destino do reino recai nas mãos de seu único filho homem, Tutancaton (que será posteriormente renomeado para Tutancâmon).

Resenha: O menino rei, de Felipe Pan, Olavo Costa e Mariane Gusmão

Quando fugimos e nossos credos, nos tornamos mais fracos, vulneráveis. Nossos inimigos anseiam por uma hora assim, uma única brecha para concretizarem nossa sina.

Valendo-se da mitologia egípcia, da história e preenchendo os espaços do que ainda não sabemos, os autores criaram uma jornada visual para um período longínquo na história de forma a levar o nome de Tutancâmon às pessoas. Você pode só ter ouvido o nome de passagem ou pode ser uma egiptóloga amadora, o quadrinho vai agradar da mesma maneira mesmo os mais exigentes e, o melhor de tudo, feito inteiramente por autores nacionais.

Mas mesmo tendo espaço para o místico e para a mitologia egípcia, o quadrinho é embasado em muita pesquisa e ao final da leitura encontramos diversas notas explicativas para vários quadros e passagens. Há uma razão de ser para aquela imagem dos deuses e dos templos ou das vestimentas dos personagens. Nada representado nessas páginas é aleatório, o que tornou a leitura rica e proveitosa, além de ser um espetáculo de encher os olhos. Uma coisa é ler sobre a história antiga, a outra é ver deuses saltando das páginas e faraós e rainhas andando e falando, usando roupas de linho e coroas.

Para quem conhece um pouco da história do período, vários nomes serão reconhecidos durante a leitura, como o do general Horemheb, da rainha Ankhesenamon e do vizir Ay. Não sabemos com certeza como aqueles dias após a morte de Aquenáton, mas sabemos que o país enfrentava diversos desafios políticos, além de religiosos e que havia pressão dos sacerdotes para um retorno à antiga religião egípcia. Em vários momentos, é possível sentir a pressão sobre os ombros do faraó menino que tem na esposa e sua irmã uma fonte de força e conforto.

Sabemos que Tutancâmon morreu jovem, mas do que ele morreu, ainda é fruto de muito debate. Diferente de outros faraós que reinaram por décadas como Ramsés II e Pepi I, Tutancâmon reinou por apenas 18 anos em uma das épocas mais turbulentas da história egípcia e só ficou famoso por causa da descoberta de sua tumba quase intacta em 1922, por Howard Carter. Podemos perceber pela mudança de seu nome e de sua esposa, que os deuses antigos retornaram ao panteão oficial, mas é provável que o casal real tenha se mantido fiel ao disco solar Aton até o fim de suas curtas vidas.

A 18ª Dinastia (c. 1550–1292 AEC) foi a primeira e mais poderosa do Novo Reino do Egito, marcando seu auge com faraós como Hatshepsut, Tutmés III, Akhenaton, Nefertiti e Tutancâmon. Começou com o faraó Ahmose expulsando os Hicsos, e terminou com a estabilização trazida pelo general Horemheb, preparando o terreno para a 19ª Dinastia, a mesma de Ramsés II, o Grande.

A edição vem em capa comum, uma pena, e papel encorpado no miolo, com impressão colorida de alta qualidade. Há notas para enriquecer a leitura, além de uma introdução escrita por Christopher Naunton, egiptólogo britânico. Estranhei o fato de terem usado Aten e não Aton ao longo da leitura, o que pode confundir aqueles que não conhecem os dois termos. Não há erros de revisão ou diagramação.

Obra e realidade
A palavra Aton aparece no Antigo Império como um substantivo que significa "disco", referindo-se a qualquer coisa plana e circular; o sol era chamado de "disco do dia", onde se acreditava que o deus Rá residia. Por analogia, o termo "Aton prateado" era às vezes usado para se referir à Lua. Ilustrações em alto e baixo relevo de Aton mostram-no com uma superfície curva.

Aton era o disco solar e originalmente um aspecto de Rá, o deus sol na religião tradicional do antigo Egito. Aton não possui um mito de criação ou família, mas é mencionado no Livro dos Mortos. A primeira referência conhecida a Aton, o disco solar, como uma divindade está na História de Sinuhe, da 12ª Dinastia, na qual o rei falecido é descrito como ascendendo como um deus aos céus e "unindo-se ao disco solar, o corpo divino fundindo-se com seu criador".

Embora Aton fosse adorado durante o reinado de Amenhotep III, ele se tornou a única divindade a receber culto estatal e oficial sob seu sucessor, Aquenáton, embora evidências arqueológicas sugiram que o fechamento dos templos de outros deuses egípcios provavelmente não tenha interrompido o culto doméstico ao panteão tradicional. Provavelmente, a proibição tenha sido mais intensa em Tebas, a cidade sagrada do deus Amon, do que no restante do reino.

Felipe Pan, Olavo Costa e Mariane Gusmão

Felipe Pan é escritor, tradutor e professor de inglês.

Olavo Costa é um ilustrador e quadrinista brasileiro.

Mariane Gusmão é uma ilustradora e colorista brasileira.

PONTOS POSITIVOS
Antigo Egito
Bem escrito
Cores e arte
PONTOS NEGATIVOS

Acaba logo!


Título: O menino rei
Roteiro: Felipe Pan
Arte: Olavo Costa
Cores: Mariane Gusmão
Editora: Nemo
Ano: 2022
Páginas: 160
Onde comprar: na Amazon!

Avaliação do MS?
Que quadrinho incrível! Saber que essas pessoas existiram deixa tudo ainda mais rico. As cores saltam das páginas, os traços fazem os quadros e personagens se moverem ao longo da leitura. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais! 𓂀

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