O que me chamou a atenção deste livro na sinopse foi o fato de a protagonista fazer uma viagem no tempo. Ainda que a viagem em si nunca seja explicada e nenhum aparato esteja envolvido, acho que o livro pode agradar aos fãs do gênero. Também vai agradar aquelas leitoras que curtem um drama familiar e uma mãe que tenta entender seus erros do passado para poder salvar seu filho no presente.
O livro
Jen está postada diante da janela, de olho na rua. São quase duas da manhã na véspera do dia das Bruxas e seu filho, Todd, ainda não chegou em casa, ultrapassando e muito o limite de horário que a mãe estabelecera. Ela não vai dormir enquanto o jovem não chegar; por isso, fica ali, observando as sombras das árvores e as luzes apagadas dos vizinhos. Até que Todd desponta ao longe na rua escura. Seu alívio, por sua vez, dura pouco. O pânico toma conta quando ela testemunha o filho esfaqueando um completo estranho.
Talvez a coisa mais estranha de voltar no tempo sejam as mudanças pelas quais as próprias pessoas passam.
Nem Jen, nem o marido, conhecem a vítima e ficam atordoados com aquele ato violento de um jovem que nunca demonstrou nenhuma inclinação para o crime. E o fato de Todd não se esforçar em nada para se justificar ou se defender a deixa em pânico. O casal volta pra casa em meio ao desespero e à angústia. Cansada e com a adrenalina voltando aos níveis normais, Jen pega no sono. Mas ao acordar descobre que é o dia anterior. O crime horrível de seu filho ainda não aconteceu. E Jen entende que esta pode ser uma chance para quela salve Todd do que está para acontecer.
Quantas vezes a gente se pegou pensando em voltar no tempo e corrigir uma burrada, retirar algo que você disse num impulso, rever alguém e impedir que essa pessoa vá embora? Bem, com Jen é o que acontece. Não sabemos o que causou a viagem no tempo. Poderia ser o desespero de querer mudar o que estava acontecendo e salvar seu filho? A sugestão foi tão forte que ela dobrou o espaço-tempo e começou a voltar um dia de cada vez?
Quando Jen entende que ela está acordando sempre um dia antes, começa a perceber as trivialidades diárias que tinham passado despercebidas. E que nestes momentos infinitos e breves do dia, ela está perdendo pistas importantes para o comportamento de Todd. Ela passou tanto tempo preocupada com sua carreira, com o escritório de advocacia que agora é obrigada a tocar sozinha após a morte do pai, que percebe ter perdido informações que poderiam ter ajudado no futuro. É o olhar enviesado entre pai e filho, um cochicho longe da mãe, as estranhas saídas à noite do marido.
Conforme Jen volta um dia de cada vez no tempo, ela anseia pelo dia em que poderá acordar no dia correto, mas cada novo amanhecer é uma decepção. Ela até pensa que se não dormir, nada vai acontecer. Mas não adianta. Ela sempre acorda um dia antes. Como é Jen que narra, estamos o tempo todo em sua cabeça, seguindo seus passos e pensamentos. Me afeiçoei a ela muito rápido e pensava em como me sentiria ao voltar para os dias anteriores de minha vida. Ela é forte, é inteligente, percebe que vinha cometendo erros e quer consertá-los. Quem não ansiaria por essa chance?
Ao mesmo tempo em que acompanhamos Jen, acompanhamos um policial, chamado Ryan, desde o seu primeiro dia de trabalho até o momento em que ele se enrola em uma investigação. O que antes era um drama familiar começa a ganhar contornos mais sombrios, envolvendo até o sequestro de uma bebê. Admito que me vi meio perdida quando começava a ler os capítulos de Ryan e sua rotina na polícia, mas eu garanto a você, as coisas vão se conectar no final! Vai na fé!
Só porque o crime ainda não aconteceu, não significa que crime nenhum tenha acontecido.
Viajar no tempo dessa forma deve ser extremamente frustrante. As coisas que você anota desaparecem no dia seguinte porque você ainda não as escreveu. Conversas cruciais são esquecidas porque você nem sequer as teve. Por mais irritante que isso seja para Jen, tornou a leitura fabulosa. Quanto mais eu lia, mais eu gostava da Jen. Uma pessoa genuína com um coração de ouro e desejos sinceros. A autora escreve sobre a visão de Jen sobre a maternidade e tudo o que ela vivenciou com Todd com tanta clareza que, no final de um determinado capítulo, eu estava com lágrimas nos olhos. Mesmo não sendo mãe, Jen me emocionou.
Conforme os dias voltam, vemos uma Jen se desconstruindo aos poucos, afinal, estamos voltando no tempo. E vemos os vários papéis que Jen precisou desempenhar ao longo da vida: uma mãe dedicada, uma esposa amorosa, uma namorada apaixonada, uma filha altruísta e uma advogada excepcional. Foi uma maneira genial de mostrar a construção de identidades ao longo da vida, pois chega um momento em que Jen não volta um dia de cada vez, mas sim anos. Descrevendo assim, dá a impressão de que nada vai se resolver, mas vai! A autora não deixará pontas soltas e vai entregar um final surpreendente.
O livro está bem traduzido por Juliana Romeiro e não encontrei problemas de revisão ou tradução.
Obra e realidade
Esse livro me lembrou de Em algum lugar do passado, de Robert Matheson (livro que deu origem ao filme de mesmo nome). No livro de Matheson, o protagonista viaja no tempo sem qualquer aparato tecnológico. Ele se vale da intensa sugestão mental que o faz atravessar o véu entre presente e passado, mas também precisa estar bem ancorado no passado, sem qualquer artefato de seu próprio tempo, ou ele acabará retornando. A diferença aqui é que ele tem controle sobre a viagem, enquanto Jen não tem. Ela só pode voltar para seu próprio tempo quando conseguir reunir as pistas que precisa para salvar o filho.
Gillian McAllister é uma escritora britânica, formada em direito.
PONTOS POSITIVOS
Jen
Bem escrito
Viagem no tempo
PONTOS NEGATIVOS
Pode ser meio lento em algumas partes
Jen
Bem escrito
Viagem no tempo
PONTOS NEGATIVOS
Pode ser meio lento em algumas partes
Avaliação do MS?
Não sabia bem o que esperar quando comecei essa leitura e me vi incapaz de parar de virar as páginas até chegar ao final. Jen é uma grande protagonista e me vi rapidamente envolvida em sua vida e nos seus dilemas conforme voltava no tempo. É daquelas leituras que ficam com a gente um bom tempo. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!
Até mais!
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