Resenha: O pardal, de Mary Doria Russell

Esse é daqueles livros que ficam com você depois da leitura. Li em inglês uns anos atrás e fiquei bem feliz de saber que a Morro Branco estava trazendo para o Brasil um dos grandes clássicos da ficção científica. Não vou te dizer que será uma leitura fácil, mas certamente ele merece todos os prêmios que ganhou. A autora discute fé e redenção, exploração espacial e colonialismo com grande habilidade.

O livro
Em 2019, a humanidade finalmente encontra a tão aguardada prova de vida alienígena: no telescópio de Arecibo, em Porto Rico, os instrumentos captam um canto deslumbrante vindo de um planeta que mais tarde será chamado de Rakhat. Enquanto diplomatas da ONU se perdem em intermináveis debates sobre uma possível missão de primeiro contato, suas implicações e toda a tecnologia e dinheiro envolvidos, a Companhia de Jesus discretamente reúne uma expedição científica com oito integrantes. O que os jesuítas descobrem em Rakhat é um mundo tão inimaginável que os levará a repensar, de forma profunda, o que realmente significa ser “humano”.

Resenha: O pardal, de Mary Doria Russell

Os cientistas jesuítas foram aprender, não fazer proselitismo. Eles foram para que pudessem vir a conhecer e amar os outros filhos de Deus.

Começamos o livro sabendo que a missão foi um retumbante fracasso. Das oito pessoas enviadas ao sistema solar ao lado, somente o padre e linguista Emílio Sandoz retornou. Estava quase morto, mutilado, doente e incomunicável. Por si só, esse começo já nos choca, mas também nos instiga a continuar a leitura para saber que fim levou a missão e seus outros tripulantes. A Companhia de Jesus não se pronuncia a respeito e cobriu o caso de segredos, tendo que tirar Emilio de Roma e levá-lo para um lugar secreto a fim de impedir o assédio da imprensa.

Emílio Sandoz é um homem extraordinário e um grande personagem. Muito humano, mais do que gostaríamos de admitir, praticamente um santo em vida e celibatário convicto. Ele passa por uma experiência transformadora, daquelas capaz de assegurar a fé, porém ela logo se transforma em algo devastador, que o leva a questionar a própria existência de Deus. Poucas coisas são tão trágicas quanto uma pessoa dedicada a Deus, à sua fé, à sua missão, ver tudo isso ruir e passar a questionar tudo o que aprendeu e com o qual vivia sem percalços.

Sandoz foi escolhido para a missão por sua capacidade impressionante de aprender novos idiomas. Além dele, um grupo de padres e pessoas comuns são escolhidos, cada um tendo seu momento de aparecer na narrativa, são escolhidos de acordo com suas habilidades para a viagem até Alfa Centauro. Admito que o começo do livro pode ser um pouco devagar e isso pode acabar desencorajando as pessoas de continuar a leitura, mas acredite, quando ela engrena, você não consegue mais parar e logo estará varando a noite agarrada ao livro, porque você precisa saber o que aconteceu com eles.

Mesmo que Emílio seja o protagonista, cada um dos personagens secundários tem seu próprio momento de brilhar. O começo do livro meio que serve para que a equipe toda se conheça e passe a trabalhar junta antes de embarcar no asteroide utilizado como nave para transportá-los até Rakhat. Mas intercalada com essa narrativa, capítulo sim, capítulo não, temos uma visão do presente, no futuro entre 2059-2060, quando Sandoz retornou, e no passado, quando a equipe está se conhecendo e se preparando, e depois quando já estão em solo alienígena.

Desde o começo da leitura, há uma atmosfera de mistério em torno dos acontecimentos e, embora Russell nos ofereça pistas aqui e ali, o que realmente queremos é descobrir a verdade através de Emílio. Ler esses trechos é quase doloroso, porque o personagem de Sandoz é tão bem construído que sua angústia parece totalmente real. Ele é um padre que perdeu a fé em Deus, enfrenta uma depressão profunda e convive diariamente com dores físicas intensas. E nós, leitores, precisamos desesperadamente entender o porquê!

Essa não era a primeira vez que os jesuítas encontravam uma cultura alienígena, não era a primeira missão a fracassar e Sandoz não era o primeiro padre a se desonrar.

A missão a Rakhat começa bem antes, com Emílio rodando o mundo em missão. Ele então conhece a médica Anne Edwards e seu marido, George, que o levam a conhecer Jimmy Quinn, astrofísico que trabalha em Arecibo. Junto a esse grupo tão diferente está Sofia Mendes, uma sefardita, especialista em inteligência artificial extremamente inteligente que tem uma inegável atração por Emílio. Aliás, essa é uma tensão que permeia boa parte do romance, com Emílio e Sofia se mantendo distantes, cada um com sua vocação.

Gostei muito do fato de o contato alienígena ser feito através da música e não através da matemática, como muitos outros contatos da literatura e do cinema. A música também é dotada de estrutura, de parâmetros semelhantes à matemática, mas aquele canto alienígena guardava algo de divino em sua composição, algo que atraiu os jesuítas para financiar a jornada. Russell não se demora muito nas dificuldades da missão ou nos pormenores da ciência envolvida, mas a pincelada que ela dá parece convincente o suficiente.

O Pardal é, em geral, classificado como uma obra de ficção científica religiosa e, de certo modo, o é. Mas os elementos religiosos aparecem de forma sutil, ou ficam restritos aos personagens que de fato têm fé, que são padres, que fizeram seus votos, o que garante ao livro um equilíbrio notável. Anne Edwards, por exemplo, não consegue compreender como alguém pode acreditar em Deus diante de tanta crueldade, e considera o celibato de Emilio um desperdício. Seria fácil dizer que o conflito entre seus votos a Deus e seus sentimentos por Sofia é o ponto mais interessante da história, mas há tantas outras camadas acontecendo ao mesmo tempo que esse dilema acaba ficando em segundo plano. Emilio, é claro, enfrenta essa luta interna mas, para ele, faz parte do caminho que escolheu. E sua complexidade vai muito além da decisão de não ter relações sexuais.

É por isso que, quando chegamos ao final das entrevistas que Sandoz dá ao Padre Geral da Companhia de Jesus, ficamos tão arrasadas e destruídas quanto Emílio. Por isso eu reitero que é preciso cuidado ao ler O Pardal, porque ele pode ser bastante brutal. Muito do que acontece aos missionários se deve à dificuldade de se compreender uma cultura diferente da sua. Seja aqui na Terra, seja em Rakhat. Sabemos bem o que os jesuítas fizeram por aqui, então dá para ter uma noção de como a compreensão dessa nova cultura se tornou comprometida diante dos desafios encontrados.

A missão, pensou, provavelmente falhou devido a uma série de decisões lógicas, razoáveis e consideradas com cuidado, e cada uma devia ter parecido ser boa ideia na época. Como a maioria dos desastres colossais.

Aliada à excelente tradução da obra por Fábio Fernandes, o livro é uma grande adição à sua biblioteca. É daqueles livros que ficam com a gente bem depois de terminada a leitura e ele não tem grandes problemas de revisão ou diagramação.

Obra e realidade
Russell teve a inspiração para a história em 1992, durante as comemorações dos 500 anos da chegada de Colombo às Américas. Ela se perguntou como seria se, nos dias de hoje, uma equipe de cientistas jesuítas enfrentasse uma situação de primeiro contato. Como já não existem novos povos a serem encontrados na Terra, a autora decidiu levá-los para outro sistema estelar. Assim como os jesuítas de 500 anos atrás encararam enormes desafios, será que seus sucessores modernos também passariam por provações semelhantes? O que acontece com Sandoz e sua equipe parece responder bem a essa pergunta, mostrando que até mesmo os mais preparados podem ser levados ao limite.

O título do romance sintetiza de forma brilhante a trajetória de Sandoz e o dilema da perda da fé. Ele foi retirado do evangelho de Mateus 10:29: Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Contudo, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do Pai de vocês. A mensagem é clara: nada acontece na Terra sem o conhecimento de Deus. Mas e fora dela? A criação é a mesma? Se tudo se dá sob o olhar divino, então as tragédias também fariam parte de sua obra? Anne, em certo momento, discute isso com Sandoz, questionando se apenas as coisas boas vêm de Deus enquanto as ruins seriam responsabilidade apenas dos homens. Mas será que Ele não carrega também parte dessa culpa?

Mary Doria Russell

Mary Doria Russell é uma premiada escritora norte-americana. Paleoantropóloga de formação, é professora da Universidade do Michigan. Os direitos do livro foram vendidos inicialmente para a Warner Bros.. Hoje uma minissérie baseada no livro está em desenvolvimento pelo canal FX.

PONTOS POSITIVOS
Anne e George
Bem escrito
Discussão sobre religião e fé
PONTOS NEGATIVOS
Gatilho para estupro e violência
Começa devagar

Título: O pardal
Título original: The Sparrow
1. O pardal
2. Children of God
Autora: Mary Doria Russell
Tradutor: Fábio Fernandes
Editora: Morro Branco
Páginas: 480
Ano de lançamento: 2025
Onde comprar: na Amazon!

Avaliação do MS?
Começar a (re)leitura não foi fácil. Chegar ao final foi ainda mais difícil conforme o mistério sobre a missão jesuíta é elucidado e os acontecimentos que aconteceram ao padre Emílio Sandoz se tornam conhecidos. Eu já sabia de tudo e sofri do mesmo jeito. Ainda assim, acredito ter sido um dos melhores livros de ficção científica que já li e fico muito feliz que tenha enfim chegado para nós em português. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais! ✝️

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