Resenha: De Bizâncio para o mundo, de Colin Wells

Quando eu estava na escola, as aulas de história não se demoraram muito sobre o império bizantino. Basta dizer que o professor mencionou sua existência e foi isso aí. Então quando topei com este livro, fiquei logo interessada. O livro não aborda a história do império em si, mas sim sua influência nas nações ao redor e em como isso revolucionou a cultura e a sociedade.

O livro
O Império Bizantino representou o ápice cultural do mundo entre os séculos XIII e XV, principalmente nas artes, ciências e filosofia. Frequentemente negligenciado pelos estudiosos da história ocidental, Bizâncio foi o sucessor fundamental dos impérios grego e romano, e, assim, tornou-se uma ponte medieval notável e essencial entre os mundos antigo e moderno.

Resenha: De Bizâncio para o mundo, de Colin Wells

Livros são como rios que banham a terra inteira, são fontes de sabedoria. Os livros têm uma profundidade incomensurável; por meio deles nos consolamos na tristeza.

Sem o vigor intelectual de Bizâncio, muitas obras majestosas de Heródoto, Platão, Aristóteles, Sófocles, Ésquilo e muitos outros teriam permanecido sepultadas no passado remoto. Em vez disso, Bizâncio preservou essas importantes chaves para as civilizações antigas e as compartilhou com os humanistas do Renascimento italiano e os filósofos da Era de Ouro do Islã. Além disso, o legado religioso de Bizâncio foi profundo. Missionários bizantinos "converteram búlgaros, sérvios e russos ao cristianismo ortodoxo, o que levou à criação do alfabeto ortodoxo russo e a uma forma popular de cristianismo", bem como a uma nova arquitetura "e a uma das maiores tradições artísticas do mundo". E quando a cidade de Bizâncio caiu sob o domínio dos turcos otomanos, sendo renomeada Constantinopla, seus cidadãos se dispersaram pela Europa, deixando um rastro de perda cultural incalculável.

Com pouco mais de 300 páginas e uma narrativa ágil e agradável, o livro se concentra na influência do Império Bizantino e de seu conhecimento e erudição sobre o pensamento filosófico grego no Ocidente, nos árabes e no mundo eslavo. Começamos a leitura com uma introdução sobre os principais personagens dessa longa tradição erudita, bem como uma cronologia dos quatro mundos que o autor discute e mapas, o que é bem importante para um livro com este tema.

O livro é estruturado em três partes principais. A primeira é sobre relação entre Bizâncio e o Ocidente. Ele menciona brevemente sua fundação como colônia grega e escolha de Constantino para ser sua Nova Roma; depois sua separação com o restante da Europa no começo da Idade Média. Nesta parte fica bem evidente que sem a presença de Bizâncio, seus emigrados, emissários e estudiosos, a Renascença italiana talvez nunca tivesse existido. O ensino de grego a uma pequena elite humanista da Itália levou ao que conhecemos agora como Renascimento e a toda a bagagem cultural que veio com ele.

Na segunda parte, o autor discute a relação entre a cultura bizantina e o mundo árabe com capítulos que abordam os esforços dos árabes para estabelecer uma nova Bizâncio, a casa da sabedoria através da tradução e o Iluminismo árabe. O autor menciona com certa melancolia que sem os trabalhos de autores clássicos resguardados por Bizâncio, a cultura árabe jamais teria florescido e se tornado um ponto de iluminação intelectual durante as trevas da Idade Média. Infelizmente, o mundo árabe também se esforçou, segundo o autor, em apagar tal influência bizantina ao longo dos séculos seguintes.

A terceira e última parte fala sobre a relação entre o Império Bizantino e o mundo eslavo e como várias nações da Europa Oriental devem parte de sua cultura, religião, filosofia e até o idioma à influência de Bizâncio e o trabalho de São Cirilo, diácono em Constantinopla. O capítulo sobre a ascensão de Kiev é um dos mais interessantes do livro, bem como sobre a era de ouro do Rus de Kiev. A chegada do cristianismo ortodoxo moldou sua cultura, política e identidade. As interações iniciais incluíram conflitos militares e importantes relações comerciais. A adoção do cristianismo trouxe uma ampla influência cultural bizantina, com a introdução do alfabeto cirílico, a arquitetura de igrejas (como a Catedral de Santa Sofia de Kiev) e a arte religiosa em mosaicos e ícones, que se tornaram marcas da civilização eslava oriental.

O último capítulo foi um dos mais interessantes, pois fala sobre Moscou como a "Terceira Roma". Conceito teológico-político russo que surgiu após a queda de Constantinopla (a Segunda Roma) em 1453, ele afirma que Moscou, por ser o centro da Ortodoxia Oriental após o cisma com Roma e com o casamento de Ivan III com uma herdeira bizantina, se tornaria a nova capital do mundo cristão ortodoxo, a última e definitiva (uma "quarta não virá"), com a missão de preservar a verdadeira fé e o legado imperial bizantino, influenciando a identidade e a política russa por séculos.

Por vezes a narrativa pode parecer enciclopédica e até pesada devido a tantos nomes, fatos e datas, mas no geral a leitura percorreu sem muitos percalços. Por ser um livro relativamente curto (nem 350 páginas), me impressionei com seu rico conteúdo. Eu facilmente leria mais uns quatro volumes escritos pelo autor. É uma obra que cativa não apenas o público especializado, como também o público leigo como eu, que teve apenas uma pincelada sobre a história bizantina na escola e deseja aprender mais a respeito.

O livro foi traduzido por Pedro Jorgensen e está bem revisado e diagramado. Encontrei poucos problemas e eles não atrapalham a leitura.

Obra e realidade
As origens de Bizâncio estão envoltas em lendas. Segundo a tradição, Bizas, da cidade de Mégara (uma cidade-estado próxima a Atenas) fundou a cidade quando navegou para nordeste através do Mar Egeu. A data normalmente citada é de 667 AEC, com base em Heródoto, que afirma que a cidade foi fundada 17 anos após Calcedônia. Eusébio, que escreveu quase 800 anos depois, data a fundação de Calcedônia em 685/4 AEC, mas também data a fundação de Bizâncio em 656 AEC. (ou alguns anos antes, dependendo da edição). A datação de Heródoto foi posteriormente favorecida por Constantino, o Grande, que celebrou o milésimo aniversário de Bizâncio entre os anos 333 e 334.

Bizâncio era uma cidade comercial devido à sua localização na única entrada do Mar Negro. Mais tarde, Bizâncio conquistou Calcedônia, cidade do outro lado do Bósforo, no lado asiático.

Colin Wells

Colin Wells é um historiador e escritor norte-americano, especializado em línguas clássicas.

PONTOS POSITIVOS
Bizâncio
Bem escrito
Fontes e mapas
PONTOS NEGATIVOS

Acaba logo!


Título: De Bizâncio para o mundo
Título original em inglês: Sailing from Byzantium: How a Lost Empire Shaped the World
Autor: Colin Wells
Tradutor: Pedro Jorgensen
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 320
Ano de lançamento: 2019
Onde comprar: na Amazon!

Avaliação do MS?
Foi uma leitura intensa e bastante proveitosa! Volta e meia Colin Wells nos lota de informações, mas conforme avançamos na leitura, elas fazem sentido. Terminei a leitura querendo saber mais sobre Bizâncio e acho que você também se sentiria assim. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais!

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