Resenha: Cleópatra, de Arlete Salvador

Uma das minhas grandes paixões na vida é o Antigo Egito e é um tipo de conteúdo que consumo muito e com muito prazer, tanto quanto consumo ficção científica e Star Trek. Minha primeira opção de curso, na verdade, nunca foi a Geografia, mas sim História, porque eu queria ser egiptóloga! Assim, mais que natural, que a biografia de Cleópatra tenha me interessado logo de cara. A famosa rainha egípcia, a última antes que o Egito se tornasse uma província romana, foi difamada por seus inimigos e é bem provável que tudo o que você aprendeu sobre ela esteja errado.



Parceria Momentum Saga e
Editora Contexto



O livro
Logo que a gente começou a ter TV a cabo em casa, lá nos anos 1990 d.C., o canal Discovery era o meu preferido por causa dos documentários de civilizações antigas. E ele fez a chamada Semana Egípcia. Era uma semana dos sonhos, até preparei a fitinha VHS pra gravar e tudo. Os programas falavam não apenas dos períodos da história egípcia como de grandes personalidades como Hatshepsut, Ramsés, o Grande, Tutancâmon e Cleópatra.

Resenha: Cleópatra, de Arlete Salvador

E este programa sobre Cleópatra foi o primeiro que me falou "olha, amiga, o que você aprendeu sobre ela tá errado, viu?". O apresentador contava como ela foi vítima de uma campanha romana de difamação e essa imagem foi perpetuada pela arte, por filmes e se cristalizou no imaginário popular. A rainha lasciva, torturadora, interesseira, cuja beleza lendária enfeitiçou os mais poderosos homens de sua época.

Plutarco, por sua vez, disse que se Cleópatra entrasse numa sala, ela não chamaria a atenção dos convidados por sua beleza. O que a fazia se destacar era sua erudição, sua inteligência e audácia, o fato de ser a única entre os Ptolomeus a falar o idioma egípcio. Cleópatra era uma nobre e foi educada como tal, herdou o trono e a responsabilidade de manter o país independente, mas frente ao poder de Roma, ela precisou ousar e forjar alianças.

Além das circunstâncias da morte, outra característica de Cleópatra desafia a imaginação dos fãs amadores e pesquisadores profissionais - sua aparência física. A rainha conquistou dois dos homens mais poderosos da Antiguidade - Júlio César e Marco Antônio - e enganou o primeiro imperador romano, Otávio, suicidando-se debaixo das barbas de seus guardas. Que poderes teria ela para tanto? Fosse homem, seu sucesso seria explicado pela astúcia militar e inteligência política. Como se trata de uma mulher, acredita-se que, para conquistar homens como Júlio César e Marco Antônio, Cleópatra só pode ter sido uma mulher belíssima.

Página 30

Apesar de não ter nada no livro de Arlete que eu já não soubesse ou tivesse lido em outros lugares, o livro também trabalha a questão do mito e de como ele ainda persiste, mesmo com os fatos indicando que ela não era a femme fatale que o senso comum ainda reforça. Ninguém estranharia um homem se relacionando com mulheres de influência para conquistar o que quisesse, mas vindo de uma mulher, uma que Roma odiava e que vinha de uma civilização que contrariava vários valores romanos, não foi difícil para o mito se construir.

E é isso que precisamos pensar quando falamos de Cleópatra. É mais uma mulher vítima de misoginia e machismo, um mito que dura mais de 2 mil anos. Veja até onde vai o recalque de um homem, não é mesmo? Cleópatra não poderia ser inteligente e astuta, ela só podia ser bela e sensual para atrair a atenção de dois homens poderosos e incitar a ira no resto do mundo. O fato de quebrar uma tradição de rainhas castas e submissas e de ser uma mulher poderosa que negociou com Roma o destino de sua nação já foi combustível para inflamar a opinião pública da época contra ela.

O livro é bem didático, não se aprofundando muito nos assuntos ou na história, mas por ser um livro introdutório, é um ótimo ponto de partida para os interessados em Antiguidade e em personalidades históricas. Arlete fala da complicada família ptolomaica, da famosa Batalha do Ácio, os relacionamentos com Júlio César e Marco Antônio e começa com a icônica morte pela picada da serpente. Será que foi assim mesmo? Ou foi tudo romantizado depois?

Mais do que tudo, o livro é uma introdução à desconstrução do mito da rainha e uma forma de botar você para pensar como a campanha de Otávio e do cinema foi bem sucedida. A autora aborda no final a construção dessa imagem da rainha, especialmente pelo cinema e o icônico filme de 1963, com Elizabeth Taylor no papel.

Visualmente, o livro está bem bonito. Apesar de curtinho, ele está recheado de imagens, ainda que em preto e branco, de obras de arte e filmes relacionados à Cleópatra e com imagens de hieróglifos e deuses egípcios entre as páginas. Encontrei alguns problemas de revisão, como letras ou palavras sobrando ou faltando, e em um quadro informativo, o texto diz que Zeus era o deus grego guardião dos mares, sendo que era Poseidon.

Cleópatra tornou-se um mito por ter sido uma personagem diferente dos padrões de sua época - e da nossa história também. Ela nunca foi nem a rainha, nem a mulher, nem a mãe que se esperava. Por isso, desperta sentimentos contraditórios até hoje. É admirada e rejeitada ao mesmo tempo. Dois mil anos depois de sua morte, Cleópatra ainda é uma mulher fascinante.

Página 155


Obra e realidade
No livro Minha história das mulheres, a autora, Michelle Perrot disse: é preciso ser piedosa ou escandalosa para existir. O livro trata da inexistência de documentos que relatem a história das mulheres e que para você ser mencionada, ainda que como nota de rodapé da história oficial, é preciso chocar ou ser santa. Cleópatra, para os romanos, chocava; para os egípcios, era uma deusa. O fato de sabermos tão pouco sobre ela e de boatos terem tomado o lugar da história original é um indicativo dessa ausência de documentação. E que para uma mulher se destacar apenas sua beleza pode justificar seu sucesso.

Depois mil anos depois, pouca coisa mudou a respeito.

Arlete Salvador

Arlete Salvador é jornalista especializada em política e mestra em Relações Internacionais pela Universidade de Birmingham, na Inglaterra. Durante 20 anos de carreira, trabalhou em grandes órgãos de imprensa do país, como a revista Veja e os jornais O Estado de S. Paulo e Correio Braziliense.


Pontos positivos
Bem escrito
Cleópatra
Leitura flui fácil
Pontos negativos

Introdutório
Erros de revisão

Título: Cleópatra
Autora: Arlete Salvador
Editora: Contexto
Páginas: 160
Ano de lançamento: 2011
Onde comprar: na Amazon


Avaliação do MS?
Foi uma leitura refrescante, pois já fazia algum tempo que eu tinha lido algo sobre a rainha, desde que lia trilogia escrita por Margaret George (amo essa trilogia). É um bom livro para curiosos e interessados em Antiguidade e que vai ajudar a desfazer muitos mitos danosos sobre ela. Quatro aliens para o livro e uma forte indicação para você ler também!


Até mais! ☥

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