Aprendendo a lidar com a crítica

lidando com as críticas enquanto escritor



Um dos maiores medos que afligem aqueles que escrevem (e todo artista em geral) é o medo da crítica. Somos atormentadas por vários medos, na verdade: o medo de escrever, o medo da página em branco, o medo de publicar, de não publicar, de editar, de reescrever, o medo do leitor, o medo do fracasso, o medo do sucesso. Cansa sentir medo o tempo todo. Cansa ser atormentado pelo medo de não conseguir ser bom o suficiente.

O medo mais frequente que eu vejo, em especial na galera mais nova, prestes a colocar seus livros no mundo, é o medo da crítica. Como lidar com as percepções dos leitores, como lidar com os apontamentos feitos na sua obra, tão suada de escrever e publicar. Sei muito bem o que é isso; sofri por anos, incapaz de deixar as pessoas a lerem o que eu escrevia, arquivos e mais arquivos demonstrando meu fracasso em ser lida. O medo de não ser boa e de descobrirem a grande fraude que sou. O blog me ajudou a superar esse medo, já que eu era lida de qualquer forma pela galera que me segue. Que diferença faria ler um post ou um conto, ou uma novela?

Mas antes de tudo entenda que crítica é diferente de ódio gratuito. Todo escritor já teve que lidar com doidos que apareceram para xingar, dizer que seu trabalho é uma bosta, que você não vale o ar que respira. Esse ódio indiscriminado não é um termômetro do teu trabalho. Isso na verdade fala muito mais a respeito da pessoa que o profere do que de você. Há também os leitores que vão ler sem prestar muita atenção, não lerão introdução ou notas do autor, ou qualquer outra peça importante do livro e depois dirão que o livro é ruim. Aconteceu comigo, num livro em que eu deixo claro que a história é composta por contos publicados anos antes. A reclamação da pessoa foi que o livro parecia uma reunião de contos.

Uma segunda coisa que é necessário entender: seu livro nunca vai ser 100% inclusivo. Nunca vai ser perfeito. Nunca vai poder contemplar toda a diversidade da experiência humana. Não importa o que você está escrevendo, você escreve para um nicho específico. Pessoas de fora desse nicho podem ler e gostar do livro pela experiência de conhecer outras vivências e tem aqueles que vão reclamar que não se sentiram contemplados. Essas pessoas dirão que gostaram ou não do livro. Essas pessoas podem rir de passagens dramáticas, podem dizer que você não devia ter matado tal personagem, elas vão interpretar o que você escreveu de maneiras diferentes. E isso não é uma crítica.

A crítica a que eu me refiro é aquela em que a pessoa aponta pontos negativos e positivos, pontos que podem ser melhorados, como o tema foi tratado, se a escrita é boa e condizente com a trama, etc.. Em Deixe as estrelas falarem muitas pessoas apontaram que o livro acaba rápido e que alguns personagens foram mal trabalhados. Isso é uma crítica e uma que gostei muito, pois me ajudou a construir melhor as personagens de Por uma vida menos ordinária, que é a nova aventura da tripulação do cargueiro Amaterasu.

As críticas fazem parte do jogo. A partir do momento que você faz qualquer coisa, da forma como você organiza os copos no armário ao livro que você enfim publicou, tudo é passível de crítica. Mas devemos saber separar o que é crítica, do que é dica, do que é implicância ou apenas ódio puro. Aquele que diz que não tem medo da crítica, muito provavelmente, não liga tanto assim para o seu trabalho, achando que ele não é passível de ser criticado. Pessoas assim não vão distinguir o que é construtivo do que não é.

Mas se você se preocupa de verdade com o que faz, vai querer ouvir os apontamentos dos outros. Seu agente, seu editor, seu leitor beta tem coisas a te dizer que vão te ajudar a melhorar e a crescer na escrita. Evite fazer você mesma sua própria crítica, porque nós temos a tendência a ver o que há de pior no nosso trabalho, de achar que não somos boas o bastante. Essa voz precisa ficar em silêncio para que aquela você que diz que você tem plenas condições de fazer algo possa ser ouvida.

Porque no fim das contas, não importa o que você faça, nem como, nem para qual público, NUNCA será 100% aceito e ainda vai ter gente dando voz ao ódio e à insensatez. Você não tem controle sobre os outros. Cada um tem uma vivência e uma forma de pensar que derivam da forma como foram criados e como vivem; você não tem controle sobre isso. E a partir do momento que você percebe que não tem controle sobre isso, consegue focar no que é importante para você crescer. Sei que é um exercício complicado deixar de ouvir a voz negativa para dar ouvidos à voz que lhe dá forças, mas é preciso fazer isso para não mais temer a folha em branco na tela. Foque naquilo que pode te ajudar a construir uma arte melhor.

Até mais!❃

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