5 estereótipos muçulmanos e árabes comuns na TV e no cinema

segunda-feira, junho 25, 2018

Dos filmes de Rodolfo Valentino nos anos 1920 aos dias atuais os povos árabes e, posteriormente, os muçulmanos, são repetidamente estereotipados na televisão e no cinema. Especialmente em filmes em que se tenha terrorismo, dificilmente se terá uma análise série sobre os grupos, sobre as causas e consequências. É bem provável que tenhamos apenas personagens rasos, unidimensionais, sem expressar a complexidade que uma pessoa carrega, colocados lá apenas como antagonistas desequilibrados.

O estereótipo é sempre uma caricatura, uma construção incompleta. E embora muita gente ache que não tem nada de errado com uma visão estereotipada, ela geralmente não percebe o dano porque não é com ela.




Nem todo árabe é muçulmano, nem todo muçulmano é árabe
Tenho que começar com essa diferenciação. Isso aqui é extremamente importante. Eu não sei se a pessoa não prestou atenção nas aulas de história, se faltou nelas ou se é só uma desonesta mesmo, mas um pouquinho de pesquisa já demonstraria que nem todo árabe é necessariamente muçulmano. E nem todo muçulmano é árabe, como a Indonésia pode provar.

Árabe se refere ao povo, às origens, à etnia e o muçulmano se refere àquele indivíduo que segue o Islã. Associar uma coisa com a outra já é um estereótipo terrível.

Vilões ou terroristas
Esse aqui é, certamente, o mais comum e o responsável por criar no imaginário popular a visão de que todo árabe e/ou muçulmano é uma pessoa má, terrorista, com ódio mortal do Ocidente. Estes personagens dificilmente possuem uma personalidade complexa, eles são planos, vazios de significado, estão lá apenas para serem mortos pelos heróis, geralmente brancos. Basta ver a diferença na hora de nomear um terrorista na imprensa quando acontece algum atentado ou tiroteio em escola: se o acusado for não-branco, é um terrorista; se for branco, é só alguém mentalmente desequilibrado.

Vários grupos que representam a população árabe muçulmana assinaram manifestos e fizeram protestos quando o filme True Lies estreou em 1994. Isso porque o grupo terrorista do filme era além de muito mal roteirizado, tinha um líder antiamericano, com poucas motivações e um desejo incontrolável de detonar uma bomba atômica em território norte-americano. Eram um reforço cruel e desumano ao estereótipo que o Ocidente tem de árabes e muçulmanos.

Povos do deserto ou bilionários do petróleo
Esta talvez seja a representação mais batida e ultrapassada de todas. Aliás ainda é algo que muita gente imediatamente associa ao se falar de povos árabes. Sim, camelos e grandes desertos são encontrados em muitos lugares do Oriente Médio; sim, existem povos nômades que vagam pelas imensas extensões de areia; sim, existem muitos sheiks bilionários no Oriente Médio, mas essa imagem está cristalizada no inconsciente coletivo do Ocidente, tal como o samurai está associado ao povo japonês.

Se o Qatar e as cidades dos Emirados Árabes Unidos mais nos mostram é que estes países não são apenas feitos de petróleo, camelos e areia. Tampouco de terroristas. A complexidade é muito maior do que o estereótipo apresenta.

Mulheres oprimidas ou sexualizadas
Compare a Jasmine de Aladin com a Branca de Neve e veja qual delas é sexualizada. Jasmine tem pele exposta, usa um top decotado, barriga de fora... Se a mulher não aparece como uma sensual princesa ou dançarina do ventre de olhos delineados de preto, então ela só pode ser uma mulher oprimida pela família, pelo marido, obrigada a viver na opressão, tendo que ocultar o corpo e os cabelos.

Na verdade, a odalisca sensual e a mulher de véu, hijab ou burka são faces de uma mesma moeda: se ela não for exótica e sexualmente disponível, então vamos retirar tudo o que a torna atraente para os homens e torná-la um símbolo de opressão. Essa mulher não tem a chance de decidir sobre seu destino. Tente pensar em quantos filmes ou séries de TV uma mulher árabe ou muçulmana aparece como par romântico, ou como protagonista de sua própria história sem cair nos estereótipos acima e você terá problemas para achar uma boa representação.

Povos bárbaros
Esse aqui, segundo o professor de política do Oriente Médio, da Universidade Harvard, Charles E. Butterworth, vem desde As Cruzadas. O Ocidente os via como um povo selvagem, bárbaro, que tomou Jerusalém e que deveriam ser expulsos da cidade sagrada. E nem o filme Aladin escapou de representar os árabes de maneira selvagem, como a na própria música de abertura:

Oh I come from a land, from a faraway place. Where the caravan camels roam. Where they cut off your ear. If they don't like your face. It's barbaric, but hey, it's home.

Oh eu venho de uma terra, de um lugar distante. Onde os camelos das caravanas vagam. Onde eles cortam sua orelha. Se eles não gostam da sua cara. É selvagem, mas ei, é nosso lar.

Grupos que representavam povos árabes e muçulmanos se revoltaram com a música e com razão e a Disney alterou a versão quando lançou o VHS e o DVD do filme, mas o estrago já estava feito. Muito se discute também como que Shakespeare representava os "mouros", designação em que árabes, muçulmanos, marroquinos, negros e indianos acabavam entrando.

Alguém pode ter a cara de pau de tentar argumentar sobre qual é o problema de um ator árabe interpretar algum papel desses. Muito simples: o problema é interpretar APENAS papéis assim. Se filmes com protagonistas brancos são representados nas mais variadas formas, profissões, relacionamentos e situações, para determinados grupos ainda se restringem o número de papéis, tal qual uma c e r t a novela que se passa na Bahia - o estado mais negro do Brasil - e os protagonistas são todos brancos.

Desde o TED de Chimamanda sobre os perigos da história única que os riscos de você representar pessoas e culturas de maneira unidimensional passou a ser levado mais a sério ou a aparecer com mais frequência em discussões sobre entretenimento. E há espaço na indústria para que as pessoas possam ser bem representadas. É preciso querer e investir.

Até mais.

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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