5 incríveis passeios geológicos para você fazer no estado de São Paulo

quinta-feira, maio 03, 2018

Fiz uma thread mais cedo no Twitter dando várias dicas de passeios para se fazer no estado de São Paulo e na capital que envolvam nosso patrimônio geológico e paleontológico. Poucas pessoas têm acesso a esses lugares porque são pouco divulgados. Eu mesma visitei todos eles apenas porque fazia parte dos trabalhos de campo da faculdade. É uma pena que escolas públicas e particulares não façam essas visitas, porque parte de história do planeta e do nosso território estão registradas neles.




O Brasil é um país com uma rica história geológica e paleontológica que, infelizmente, está longe da população. Em um país que investe pouco em ciência e duvida até que a Terra seja redonda, não é de se estranhar que as pessoas desconheçam parques, atrações e tenham pouco gosto pela ciência e pela exploração. Assim, separei cinco destinos para você visitar se for de São Paulo ou se estiver de passagem.

Estromatólitos no shopping
Nos shoppings Eldorado e Ibirapuera, na capital paulista, fósseis viraram piso. E são alguns dos fósseis mais antigos do nosso território. O mármore que hoje pavimenta os corredores dos centros de compras estão marcados com a presença de estromatólitos, que são rochas onde cianobactérias agregaram sedimento em mares rasos e quentes. Estromatólito vem do grego e quer dizer "tapete de pedra", pois as bactérias usavam o substrato sob a água para se multiplicar, deixando um tipo de tapete de muco que agregava os sedimentos na água, afundando quanto as bactérias morriam. Novas gerações cresciam em cima e ao longo de milhões de anos formavam grandes porções de rocha. Na Lagoa Salgada, no Rio de Janeiro, o processo ainda ocorre.

Estromatólitos do Shopping Eldorado. Foto de Sallun Filho - 2012

Os shoppings possuem sinalização para você encontrar as marcas pelo mármore. Estes estromatólitos têm cerca de 2 bilhões de anos de idade, então preste atenção por onde andar.


Parque Geológico do Varvito - Itu
Situado em Itu, cerca de 100km da capital, é o que restou de um lago glacial. Sedimentos finos como silte e areia eram depositadas no fundo do lago, seguido por sedimentos mais escuros, de argila. Ambientes de baixa energia como este deixam camadas bem uniformes de sedimentos que depois se tornam rocha bruta. O varvito é um registro importante da grande glaciação que aconteceu há cerca de 360 milhões e 270 milhões de anos, quando toda a porção centro sul do Gondwana (que fazia parte da Pangeia), ficou coberta por grossas camadas de gelo. Nos paredões de rocha você pode ver alguns seixos rolados que escorregaram para o fundo o lado junto dos sedimentos.

Paredão de varvito com um seixo rolado no meio. Foto de André Bonacin

O parque foi fundado em 1995 e fica aberto de terça à domingo, das 8 às 16:30. A entrada gratuita e você pode passear pelos paredões de rochas e visitar as exposições permanentes.


Parque da Rocha Moutonnée - Salto
Do ladinho de Itu, tem outro parque bem legal para se visitar. A rocha Moutonnée foi criada por abrasão glacial, quando uma superfície rochosa sofre erosão devido à passagem de uma geleira. A rocha em si é de granito rosa e é uma testemunha da intensa glaciação que ocorreu no interior do Gondwana, cerca de 300 milhões de anos atrás. Conforme a geleira se movimentava sobre a superfície, carregando sedimentos e rochas, ela lixava as rochas que estavam abaixo, carregando-as por quilômetros.

A Rocha Moutonnée. Fonte: Wikipedia

Moutonnée vem da palavra em francês "mouton", que significa "carneiro", pois seu descobridor achava que ela se parecia com um carneiro deitado no chão. O parque funciona de terça-feira a domingo das 8:30h às 16:30h e a entrada é gratuita. Pela extrema importância para a história geológica do país e do estado de São Paulo, o parque foi tombado em 1990.


Formação Botucatu - Botucatu
Este aqui você vai ter que ver da estrada, pois não há exatamente um parque, já que o arenito está por toda a parte. Se você for no sentido Botucatu, vai notar que existem paredões de rocha clara em algum lado, às vezes nos dois lados da estrada. Esse arenito é muito utilizado na construção civil, em especial em áreas externas. Ele é o que restou de um grande deserto, com dunas eólicas, que cobriram boa parte do território durante os períodos Triássico, Jurássico e início do Cretáceo.

Mirante Pedra do Índio entre Pardinho, Bofete e Botucatu. Fonte: Davi H.

Essa formação foi extremamente importante para a formação do Aquífero Guarani, que abastece várias cidades do interior com água. Seguindo rumo a Botucatu pela estrada, quando o terreno começar a subir, você estará no paleodeserto Botucatu. É possível fazer trilhas a pé pelas cuestas nos municípios de Pardinho, Bofete e Botucatu.


PETAR - entre Apiaí e Iporanga
Se você sonha em entrar em cavernas, então aqui é o seu lugar. O PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira) é a maior porção de Mata Atlântica preservada do Brasil, com mais de 300 cavernas, muitas delas abertas à visitação como a Caverna do Diabo e a Caverna da Água Suja. Criado por um decreto em 1958 pelo governo do estado, tem cerca de 35 mil hectares de Mata Atlântica preservada e tornou-se no final da década de 90 um dos locais mais procurados para a prática de esportes de aventura com espeleo, rapel e cascading.

Caverna do Diabo - PETAR. Fonte: LaViagem

Com sítios arqueológicos, paleontológicos, geológicos, há comunidades quilombolas e tradicionais, trilhas de cachoeiras e visitação de cavernas. Até os Bombeiros treinam resgate nas cavernas do parque. Antes de visitá-lo, você deve ter local para se hospedar e há várias pousadas próximas aos núcleos de visitação. O ingresso custa 13 reais por pessoa, mas maiores de 60 anos e menores de 12 anos têm entrada gratuita. Estudantes com comprovação pagam meia. Não se aceitam cartões ou cheques, apenas dinheiro nas dependências do parque. O pernoite no camping é de 18 reais por pessoa.


Outras dicas importantes
Algumas pessoas não têm costume de fazer passeios por trilhas ou parques, fazem de qualquer jeito e depois se machucam. Então, atenção:

  • Use roupas leves, então nada de jeans ou qualquer tecido que possa causar assaduras ou bolhas;
  • Nada de chinelos, use tênis ou botas próprias para terrenos difíceis e caminhadas;
  • Use protetor solar e repelente, especialmente no PETAR;
  • Produza o mínimo de impacto em locais de mata e reservas, lembre-se sempre: você é a visitante, os animais e comunidades tradicionais é quem moram lá;
  • Leve água e comida leve para consumir nas trilhas;
  • Siga as instruções dos guias ao visitar parques e museus;
  • Nas cavernas, NUNCA tire o capacete e siga rigorosamente as instruções dos guias;

Existem museus pela capital, mas quis listar locais ainda menos conhecidos do público. Aproveite! E me conte se visitar algum destes lugares!

Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 Comentário

  1. Adorei o post capitã, é incrível esses locais, principalmente o PETAR, quero visita-lo ainda este ano hehe. Seus post são tão Excelentes.

    PS: Capitã você poderia falar mais sobre sua profissão? como foi sua formação em geografia, e como foi para paleontologia. <3

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