Resenha: Interferências, de Connie Willis

Desde que a Suma publicou O Livro do Juízo Final, virei fã incondicional de Connie Willis, uma das mais importantes escritoras de ficção científica. Interferências é uma fábula moderna que toca em vários pontos super atuais como amor nos tempos de internet, invasão de privacidade, redes sociais e relacionamento abusivo.



Parceria Momentum Saga e
Editora Suma


O livro
Começamos o livro em meio à uma fofoca. Briddey, executiva de uma empresa de celulares, que namora o cobiçado Trent, também da empresa, foi convidada pelo namorado para passar por um procedimento cirúrgico chamado EED. Ele aumenta a empatia do casal, tornando-os capazes de sentir as emoções do outro. Vivendo em pura sintonia, o casal viverá feliz para sempre, certo?


E a especulação dos colegas de trabalho é gritante. Briddey acha que consegue chegar à sua sala sem ser parada no corredor, mas é inútil. Toda a empresa está sabendo, de olho nas notificações das redes sociais. O casal é invejado e idealizado por todo mundo. E como se não bastasse a fofocaiada dentro da empresa, ainda há a família irlandesa de Briddey, absolutamente unida e invasiva. Briddey se ressente da forma como sua afetada tia Oona se intromete na vida de todo mundo.

Foi interessante Connie se valer das redes sociais e da internet para discutir a relação dos tempos modernos. Hoje com todo o alcance das redes sociais, é possível estar conectada com namorados, maridos, companheiros quase que imediatamente. E se essa conexão não bastar? E se você precisar estar em constante contato com as emoções do outro? Podemos mentir nas redes sociais, mas não com relação às emoções. É aí que entra o EED.

Quando a família louca de Briddey descobre, sua irmã Mary Clare - completamente alucinada para controlar a filha de 8 anos, que acha que ela é capaz de se associar a terroristas pela internet - imediatamente protesta:

(...) Aceitar ser lobotomizada só para agradar um homem! Que tipo de mensagem você está passando para sua sobrinha?

Página 38

É um colega de Briddey que tenta alertá-la para não fazer o procedimento. C.B. é um rapaz esquisitão que trabalha no porão da empresa. Muito inteligente, especialista em tecnologia, mas não muito dado a interações sociais, ele não tem uma grande fama junto aos colegas. Briddey não ouve nenhum dos conselhos de quem quer que seja. E vai muito alegre e contente (e escondida), fazer o procedimento com um médico badalado e especialista. Qual não é sua surpresa quando Briddey começa a ouvir a voz de C.B. em sua cabeça e não de seu queridinho Trent?

Começa aí uma espiral de situações absolutamente surreais para Briddey e C.B. O tal namorado fofo vai se mostrando um tremendo otário controlador, como quando ele reclama do vestido que Briddey está usando para ir ao teatro. Connie dosou muito a mão nas ações abusivas de Trent, mas elas estão lá, bem sutis, como muitos relacionamentos iniciais costumam ser.

Houve momentos em que eu quiser sacudir Briddey para ver se ela acordava daquele sonho que ela acreditava que seria sua vida com Trent. Ela está tão iludida pelo perfeito Trent que muitas vezes não percebe o que está sendo esfregado na cara. Obviamente que, quando você ouve a voz de alguém na sua cabeça, vai agir como Briddey: achando que há uma escuta, um microfone no aposento, que alguém te colocou em uma pegadinha, que você está imaginando coisas ou até mesmo que está louca. C.B. parece agir da maneira certa e não se ressente de todas as patadas de Briddey, nervosa por não conseguir se conectar com Trent.

Connie é brilhantemente detalhista sem ser chata. A narrativa não fica maçante conforme ela narra os detalhes de uma cena ou de um evento. Senti isso desde O Livro do Juízo Final. Ela também vai nos conduzindo por um caminho e quando você acha que chegou lá, nos faz virar para outro lado imediatamente. Acompanhar a jornada insana de Briddey e C.B. foi muito interessante. Connie soube criticar a paranoia das redes sociais de maneira muito leve e direta, acessível para qualquer leitor mais atento.

A edição da Suma está muito bonita. Uma capa macia, com os dois personagens principais na cama. O livro é grande, mas não é pesado de segurar para ler. Percebi alguns problemas de tradução pela obra. Termos que foram mantidos no inglês aparecem traduzidos mais para frente e depois voltam ao idioma original em seguida. Como não faz sentido para a narrativa a manutenção em inglês, não entendo porque não traduziram tudo.

Ficção e realidade
Não duvido que se uma cirurgia como o EED fosse possível, uma fila de casais desesperados para se conectar se formaria logo em seguida na porta da clínica. É quase como se pessoa precisasse de 100% de certeza de que a pessoa a ama e só assim se sentirá segura e feliz. Um EED é uma evolução da senha compartilhada do celular com o parceiro. Senha das redes sociais, senha dos emails, os casais parece que precisam de controle absoluto sobre o outro e só assim pode se sentir verdadeira e unicamente amado. Spoiler alert: não.


Amar requer confiança e respeitar a privacidade do outro. Se o outro não te respeita, querendo investigar suas redes sociais, querendo ler seus emails e mensagens, controlando com quem você fala e deixa de falar, sua roupa, cabelo e maquiagem, querendo aumentar a empatia com um buraco no crânio, não há como essa relação continuar, certo? Interferências toca justamente nesse ponto, da confiança e da destruição dela.

Após anos ouvindo os segredos mais íntimos das pessoas, você forma uma opinião tão ruim a respeito delas que não quer se associar aos outros.

Página 263

Pontos positivos
Briddey e sua família
Personagens bem descritos
Questionamentos sobre internet e redes sociais
Pontos negativos

Problemas de tradução
Precisa ser melhor revisado

Título: Interferências
Título original em inglês: Crosstalk
Autora: Connie Willis
Tradutora: Viviane Diniz Lopes
Editora: Suma
Ano: 2018
Páginas: 464
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Avaliação do MS?
Um romance de ficção científica leve, mas com mensagens super importantes para este mundo que vive de likes e fotos. Com passagens engraçadas e surreais, o livro é uma delícia de ser lido. Briddey e C.B. formam uma dupla improvável enquanto tentam lidar com a estranha conexão que formam e acabam caindo em uma rede de mentiras e manipulação. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais!

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1 Comentário

  1. Gosto muito de livros com esses temas, não conhecia a autora, vou procurar agora mesmo, obrigado.

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