Leonardo, arte e criatividade

segunda-feira, fevereiro 26, 2018

Quem me acompanha pelas redes sociais, provavelmente, me viu comentando sobre a biografia de Leonardo da Vinci, de Walter Isaacson, que saiu pela editora Intrínseca. É um livro sublime e recomendo muito sua leitura, mesmo pra quem não é muito fã de arte. Se você, simplesmente, é uma pessoa curiosa e inquieta, vai se identificar com ele!




Este texto foi originalmente publicado na newsletter Diário da Capitã, exclusiva para os apoiadores do blog no Padrim! Apoie você também e faça parte da tripulação!

Leonardo era iletrado, não teve educação formal, era filho bastardo e um artista orgulhoso. Não terminava as obras que começava. Deixou para trás uma trilha de esculturas, quadros e painéis para pintar, outros que ele nem mesmo entregou para continuar aprimorando (Mona Lisa, você por aqui??). E era um gênio.

As pessoas criativas - e aí é em qualquer segmento, não precisa ser na pintura ou na escrita - logo se identificam com esse Leonardo bizarro, que parecia deslocado no tempo em que vivia, distante da figura do artista perfeito que estudei no colégio, nas aulas de história da arte. Pessoas muito criativas como Leonardo costumam ser vistas pela sociedade como desajustadas, deslocadas, incapazes de se contentar com o que a vida lhes dava.

Por ser muito ruim de cálculo, Leonardo desenhava. Isso o ajudava a pensar e é por isso que seus cadernos estão obsessivamente recheados de desenhos dos mais variados tipos. Ele desenhava pra entender como a coisa funcionava. Sabe quando a gente começa a fazer desenhos a esmo numa folha, enquanto tá pensando? Agora eleve isso à potência de Leonardo da Vinci.

Um observador nato, Leonardo queria entender como as coisas funcionavam. Ele nem se importava em publicar suas descobertas, ele queria SABER. Tem um meme que roda por aí, com o pôster do Arquivo X, que diz "eu não quero acreditar, eu quero é saber". Leonardo era assim. Ele podia passar horas, dias, semanas, fazendo experimentos de maneira quase maníaca porque a dúvida e a incerteza o consumiam.

Outra coisa interessante: ele era ateu, ainda que não ventilasse isso. Pra ele, a natureza provia tudo o que nos era necessário, não havia a necessidade de uma inteligência por trás disso. E sua intenção era descobrir como a natureza das coisas funcionava. Assim ele desenhava os redemoinhos que a água fazia quando derramada num copo. Você já parou pra observar isso? Ele parou.

Em sua época era uma blasfêmia das grandes dizer que a vida não começava na concepção. Ele também acreditava que não. Ele acreditava que a Terra não era o centro do universo, ele entendia como os fósseis tinham surgido e não acreditava que um grande dilúvio tinha sido o responsável por espalhar os animais por aí! Pense você dizer isso em pleno século XV? Ou quem sabe antecipar em 200 anos as ideias de Isaac Newton?

Havia ciência no que Leonardo fazia, mas havia arte. A maneira sublime com a qual ele desenhava máquinas e círculos e triângulos, a forma filosófica como explicava suas descobertas, mostram a maneira como ele enxergava o mundo.

Há uma determinada passagem que queria trazer pra conversa:

Ao exaltar a interação entre a arte e a ciência, ele teceu um argumento que se tornou crucial para compreender sua genialidade: a verdadeira criatividade envolve a habilidade de combinar observação com imaginação e, desse, modo, borrar os limites entre realidade e fantasia.

Este é basicamente o trabalho de qualquer artista. Um ator, ao se preparar para um papel, precisará fazer um estudo primeiro. Se ele interpretar um médico, terá que conversar com médicos, quem sabe passar uma noite na emergência de um hospital, conhecer os termos comuns. Um escritor, a mesma coisa. Observamos a realidade e ao combinar com a imaginação criamos novos mundos, novas pessoas, às vezes usando velhos artifícios ou se valendo da própria realidade como ponto de partida.

Leonardo buscava conhecimento não pra passar no vestibular, ou pra prova do ENEM, ele buscava conhecimento porque gostava disso. Lembro que quando fazia as aulas adaptativas para o mestrado lá na USP, em uma aula de estratigrafia, o professor soltou uma curiosidade sobre a formação do relevo brasileiro. Essas curiosidades que a gente acha que podem ser interessantes pra um aluno saber e até pra tornar a aula mais leve, sabe? O rapaz atrás de mim cochichou com um colega "mas pra que isso vai me servir?" e começou a rir.

A vontade que eu tive foi a de esganar o sujeito. Fico pensando o tipo de geólogo ele vai ser se não tem sede pelo conhecimento. Nem todo conhecimento precisa ser útil, às vezes você deve persegui-lo pelo simples prazer de perseguir. É aquela coceirinha mental de querer entender e saber como as coisas são. Pelo tanto que Leonardo estudou, consegue imaginar o tamanho das coceiras que ele tinha.

Quando eu estava no 1º ano do ensino médio, a gente estava estudando as grandes civilizações da América Central. E naquela semana eu recebi uma Superinteressante que dizia que a seca extrema, causada pelo desmatamento, teria derrubado a civilização maia. Pra fazer argamassa, era preciso alcançar temperaturas muito altas e pra isso os maias precisavam de combustível - madeira - pra aquecer os fornos. Eles teriam desmatado demais as matas ao redor de seu império, mudando o regime de chuvas da região, que levou a uma sucessão fatal de secas. E levei pra professora de história ler. Ela ficou maravilhada com aquilo e me disse pra nunca perder a sede. Essa sede, a sede de querer saber.

É por isso que eu acho divertido criar páginas na Wikipédia. É gostoso demais conhecer a vida das pessoas, a história dos lugares, pesquisar como criar as hiperligações e colocar as referências pelo HTML. Minha mãe acha que é uma perda de tempo porque eu não ganho nada com isso (financeiramente). Mas eu ganho sim, em conhecimento, que é algo que não se quantifica.

Talento é acertar um alvo que ninguém acerta. Genialidade é acertar um alvo que ninguém vê.

Arthur Schopenhauer

É óbvio que eu gostaria de ser paga pra buscar esse conhecimento. A gente precisa do dinheiro pra pagar contas, comprar brusinha, carregar o bilhete único. E gostaria que os trabalhos intelectuais, como o dos escritores, ilustradores, roteiristas, artistas em geral, fossem bem remunerados. Um texto, uma ilustração, um quadro, uma escultura, não sai do vácuo. Há toda uma bagagem, uma vivência, um estudo por trás do que está ali.

Quando reclamaram para Ludovico Sforza, patrono de Leonardo, que ele ficava enrolando para terminar A Última Ceia - e de fato, tinha dias que ele chegava e dava uma pincelada, olhava o painel e ia embora - Leo se defendeu. Ele disse que um artista precisa de momentos de pausa e procrastinação para que as ideias possam assentar e crescer. Quase como uma massa de pão que precisa crescer antes de ser trabalhada e ir para o forno.

Por isso, se você ilustra, escreve, esculpe, pinta e borda, mas não faz isso todos os dias e está se cobrando, se sentindo uma fraude, não se sinta! Leonardo foi assombrado pela perfeição e deixava uma trilha de obras incompletas, porque não se contentava com o que tinha feito até então. Enquanto sua nova obra não sai, vá fazer outra coisa. Vá ler sobre o ciclo hidrológico. Pegue um livro sobre a história da cozinha, faça crochê, jogue RPG. Você está alimentando seu cérebro de ideias e uma hora, elas vão se juntar e você terá aquele momento decisivo que lhe fará criar coisas fantásticas.


E por último, fica aqui uma anotação de um dos cadernos de Leonardo, que pode ajudar a alimentar sua sede de conhecimento: descobrir como funciona a língua do pica-pau. Boa pesquisa!

Já que você chegou aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





Leia esses também...

2 comentários

  1. Que legal!
    Bem interessante a colocação "combinar observação com imaginação".

    Acho que um problema geral que temos é quando chegamos num bom nível (ex: já sabemos tocar um instrumento musical bem, já sabemos desenhar mais ou menos bem, ou escrever bem) paramos. E criamos sempre com as ferramentas que já aprendemos, paramos de ir além nos estudos.

    Não continuamos a estudar mais e mais e nos aprimorar.

    Acho que até o que define um bom professor é aquele que, além de ensinar o outro, ensina para si mesmo. Sem nunca parar.

    Abs

    ResponderExcluir
  2. "Não terminava as obras que começava" e "por ser muito ruim de cálculo, Leonardo desenhava". Identifiquei-me TOTALMENTE, acho que meu nome é Leonardo! hahahaha

    Adorei a resenha! A criatividade também brota nesta sede de saber que sua professora se referiu (e eu gosto de dar o mesmo conselho aos meus alunos: menos preocupação com fórmulas e métodos para ENEM e avaliações externas e mais foco no aprendizado, no saber), a curiosidade com o que nos cerca - mesmo o mais trivial. Imagino Leonardo observando as pessoas, os objetos, o dia a dia e se perguntando como tudo funciona e o seu propósito.

    Um abraço, capitã!

    ResponderExcluir

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, em caixa alta, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.
O mesmo vale para comentários:
- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.
A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.

Curta no Facebook

Viajantes