A complexa maternidade de A Chegada

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

A Chegada (2016) já se tornou um de meus filmes favoritos para a vida desde que o assisti pela primeira vez. Já falei sobre ele aqui várias vezes, porque sempre tem algo a se pensar, sempre tem algo a avaliar e a ponderar sobre suas mensagens. Em um momento tão polarizado como o nosso, o filme nos traz um ensinamento muito importante: que devemos ter paciência quando falamos com o outro. Mas há mais a respeito do filme que precisa ser discutido, que é sua maternidade.




Vou precisar falar do enredo para tratar do assunto, então se você não quiser spoilers, melhor não ler!

Quando começamos a assistir A Chegada, vemos a relação da Dra. Louise Banks (Amy Addams) com sua filha, que é mostrada em várias épocas de vida, como bebê, adolescente, depois como criança. E vemos que uma doença acaba levando a filha de Louise, que caminha sozinha pelo corredor do hospital. Só que nós não sabemos que aquilo ainda não aconteceu. Somente quando ela começa a trabalhar para o governo na tentativa de se comunicar com os alienígenas é que começamos a entender o que está acontecendo.

Entre as diversas mensagens deixadas pelo filme, uma das mais importantes é sobre a maternidade. Se você soubesse que sua filha ou filho terá apenas um dia ou um ano de vida, ainda assim teria esse bebê?

A questão da escolha
A decisão de ser mãe deve ser algo que compete única e exclusivamente à mulher. É o direito ao corpo e de exercer sua liberdade reprodutiva. Mas quem também arca com a decisão pela maternidade é a criança, o ser humano ali gerado. Os responsáveis vão decidir como esses primeiros anos de vida serão, mas uma vez que ela cresça, sua vida passa a ser independente.

A questão que o filme trata precisa ser vista ao contrário. Se sabemos que a maternidade deve ser escolha da mulher, existe algum momento em que ter um bebê é errado? Se você soubesse de antemão, por exemplo, o que vai acontecer se tiver filhos, ainda assim você teria?

Uma das consequências de aprender o idioma dos heptapodes é que a Dra. Banks passa a ver o tempo da mesma forma que eles. Aprendemos com ela ao longo do filme que o tempo é fluído, não é linear e que, no futuro, os humanos ajudarão os heptapodes. Ao ver o tempo dessa maneira, ela vê sua filha, seu futuro marido, o cientista Ian Donnelly (Jeremy Renner) com quem ela trabalha na conversação com os aliens, e o que acontecerá com ela, levada por uma doença incurável.


Não sabemos se a doença de Hannah foi causada pela exposição de seus pais aos heptapodes. Também não sabemos como o tempo é ordenado na cabeça de Louise e se é consciente a forma como ela os vivencia. O que sabemos é que quem pergunta a Louise sobre ter uma criança é Ian. Ele gostaria de começar uma família e Louise concorda. Depois que a bebê nasce, Louise acaba lhe contando o que acontecerá com Hannah no futuro e Ian as abandona. Ele nem está presente na doença ou na morte da filha.

Responsabilidades
Outra questão a se considerar é sobre a responsabilidade dos homens sobre seus descendentes. A decisão de Ian de abandonar a família me pareceu absolutamente egoísta e ainda assim extremamente real. Não precisamos ir longe para ver casos semelhantes, como os pais que abandonaram bebês que nasceram com microcefalia e ainda culparam suas companheiras pela situação das crianças. Pais abandonam seus filhos por motivos muito menores que uma doença e a sociedade acaba desculpando esses homens.

No entanto, a sociedade não demoraria em apontar o dedo para Louise se soubesse sobre o seu segredo ou se ela desse as costas à família e fosse embora. Se ela decidisse não ter filhos, ela seria apontada como egoísta, que não quer "satisfazer" seu marido, tão ansioso para constituir uma família. Mas por decidir ter, sabendo do que sabia sobre a saúde de Hannah, é provável que a acusassem de ser egoísta do mesmo jeito.

Vemos pela relação das duas que Louise tenta aproveitar cada momento com Hannah. Ela é amorosa, atenciosa, vemos o amor de uma mãe com sua filha. Podemos pensar sobre sua decisão de contar a Ian o que aconteceria com Hannah como sendo um equívoco. Talvez ele devesse guardar o segredo para si a fim de poder manter a unidade da família. Não sabemos o que aconteceu para Louise contar a ele, mas a decisão de Ian de partir certamente demonstra que ele não amava tanto a família assim.

Nós sabemos que nosso destino é a morte. Nem por isso a humanidade para de ter filhos. Mas é certo trazer alguém para o mundo apenas para sofrer? Se soubéssemos antecipadamente que o nosso filho teria um momento especialmente difícil, uma vida curta e um final ruim, seria melhor parar antes de começar? E se você souber, mas seu parceiro não? Talvez Louise deveria ter dito a Ian antes que ela engravidasse, como ela previu a vida de Hannah? Eles poderiam ter tomado essa decisão juntos? Talvez fosse errado deixá-lo estar ligado à sua filha, apenas para dizer-lhe que logo a perderia, porém não podemos esquecer que Louise também estava ligada à criança. Então, novamente, talvez essas escolhas não fossem escolhas. Talvez tudo estivesse definido de antemão, e Louise estava desamparada para mudá-los.


Não há respostas fáceis para as perguntas de A Chegada. As questões sobre maternidade tratadas no filme não são algo para o qual a sociedade está disposta a responder. O caráter divino que a maternidade ainda carrega em alguns segmentos dificulta a decisão da mulher, sua liberdade de escolha, a liberdade sobre seu corpo e sua vida. Para muitos, uma mulher deixa de ser um indivíduo humano para se tornar um bem coletivo, como se seu corpo e sua vida não mais lhe pertencessem.

Alguns críticos apontaram que o filme é "pró-vida" e muitas correntes que defendem que a vida começa na concepção alegam que o filme apresenta uma defesa de sua causa e uma visão "cristã" da concepção. Já eu acredito que o filme trata principalmente sobre escolhas. E as questões que ele deixa sobre maternidade e escolha são mais complexas do que simplesmente decidir levar uma gestação a diante. Tente fazer essa pergunta a alguém que teve um filho - se ela soubesse que seu filho terá um momento de grande dor e sofrimento, se ainda assim ela o teria - e assim será possível compreender a complexidade da questão.

Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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3 comentários

  1. Maravilhoso texto! Vou compartilhar já! =)

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  2. Não tenho certeza se ela poderia evitar a gravidez. Quando o filme acabou, lembrei-me daquelas tragédias gregas, como Édipo Rei, onde conhecer o futuro não implica em poder evitá-lo.

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