Resenha: Todos os Pássaros no Céu, de Charlie Jane Anders

sexta-feira, setembro 15, 2017

O multi premiado livro de Charlie Jane Anders chegou ao Brasil pela Editora Morro Branco! Todos os Pássaros no Céu abocanhou o Nebula, o Locus e foi finalista do prêmio Hugo. É uma jornada de anos de duas pessoas separadas por seus respectivos mundos: a magia e a tecnologia.



Parceria Momentum Saga e
Editora Morro Branco


O livro
Aos seis anos, Patrícia encontrou um pássaro ferido. Sabendo que sua irmã, Roberta, maltratava animais, ela o coloca em seu baldinho na tentativa de ajudá-lo. Qual não é a sua surpresa quando o pássaro fala e ela o entende! O único jeito de ajudá-lo é levá-lo até o Parlamento dos Pássaros, no meio da floresta. Lá, outros pássaros poderiam ajudá-lo. É então que Patrícia é informada: ela é uma bruxa. Os pássaros lhe fazem uma pergunta, mas Patrícia não chega a responder. Ela então acaba castigada pelos pais, que a consideram apenas uma menina pirracenta.


Laurence (ele odeia ser chamado de Lau) é um garoto pequeno para sua idade, ruivinho, amante da ciência e da tecnologia, um garoto gênio que chega a inventar uma máquina do tempo de dois segundos de pulso. Seus pais apenas trabalham, ocupados demais para prestar atenção no filho. Este seria um improvável amigo para Patrícia, mas os dois estranhos acabam se identificando e ficam muito amigos na escola, onde especialmente Patrícia sofre um bullying pesado das colegas. Em alguns momentos me peguei pensando se não aconteceram com a própria Charlie.

Enquanto Patrícia ama a natureza, Laurence odeia. Não entende o que pode ter de tão interessante nela. Ciência e tecnologia, isso sim era belo. É então que ele cria uma inteligência artificial em seu armário, o M3MUD@, e, com a ajuda de Patrícia, começa a enchê-la de informação e interações pessoais.

Sociedade é a escolha entre a liberdade nos termos de outra pessoa e a escravidão nos seus.

Página 142

Infelizmente, a má fama dada a Patrícia pelas colegas maliciosas começa a afetar a imagem de Laurence. Chega um momento que os dois se afastam e ele até é enviado para um acampamento militar para "garotos problemáticos". Patrícia, por sua vez, acaba fugindo da escola, de casa, pensando se era mesmo uma bruxa ou se tudo não passava de coisa da sua cabeça. Até que ela vai para uma escola de magia. E Laurence liberta o M3MUD@ de seu armário. Os dois vão se encontrar apenas muitos anos depois, já adultos, resolvidos (ou não!)

O livro basicamente conta a história de idas e vindas desses dois, tudo envolvido em magia e ciência. Essa é a grande sacada da obra e provavelmente o que a fez ser tão premiada. Charlie juntou dois grandes gêneros da literatura especulativa e sem soar forçado ou falso fez um mundo mágico, avançado e com muita burrice da parte do ser humano, inclusive da parte dos dois protagonistas. Eles estão longe de serem perfeitos, os dois vivem fazendo burrada, especialmente um com o outro, não falam sobre seus sentimentos na hora que precisam falar e quando o destino do planeta está na balança eles precisam colaborar um com o outro para salvar a humanidade.

Charlie descreve ricamente o ambiente para o leitor. Você sente o cheiro da comida, do café, vê as roupas e as expressões faciais dos personagens e vai odiar profundamente alguns deles. É uma jornada pela vida de Patrícia e Laurence que, em um mundo impossível, encontraram um no outro outras possibilidades. A edição da Morro Branco está bem diagramada, mantendo a linda capa original com os pássaros em revoada. Encontrei alguns erros de digitação aqui e ali, como palavras com letras a mais, mas a tradução do Petê Rissatti está ótima.

Senti que do meio para o final o ritmo se perde e Charlie demora para encontrar a narrativa que cativou no começo, como se ela e os personagens se perdessem um pouco. Não sei se foi de propósito, para passar a impressão de estar perdida na vida, assim como os protagonistas ou se foi para encher mais páginas. Assim que a gente sai desse marasmo muitas perguntas começam a ser respondidas.

Ficção e realidade
Uma coisa que fica bem evidente no livro é que de perto ninguém é normal. E não somos mesmo, não é? Você terá suas esquisitices, eu terei as minhas, todo mundo tem. A questão é como convivemos com isso e como elas podem impactar na vida de alguém. O que Charlie fez foi aumentar os níveis das bizarrices pessoais a ponto de colocar o planeta na corda bamba, restando apenas para Patrícia e Laurence a chande de salvá-lo. E se eles não conseguissem? O que seria de nós?

O livro é também uma jornada pelo autoconhecimento. Os protagonistas, assim como todos nós, sentiam-se perdidos na vida, lutando para terem um lugar no mundo, errando mais que acertando. Isso também diz muito sobre todos nós. Do quanto deixamos de falar o que realmente importa, na hora que importa, e então o momento passa e nos calamos. Falar pode salvar o mundo. Se não o mundo inteiro, ao menos o mundo de alguém.

Charlie Jane Anders

- Você nunca aprendeu o segredo - disse Roberta. - De como ser uma louca filha da puta e se dar bem. Todo mundo faz isso. Quê, você acha que são todos normais? Nenhum deles é. São todos mais loucos que você, e me inclua nessa conta. Só sabem fingir. Você poderia, mas escolheu, em vez disso, torturar a todos nós. Está aí a razão de todo mal: não fingir como todo mundo faz.

Página 148

Pontos positivos
Patrícia e Laurence
Bem escrito
Magia e ciência
Pontos negativos
Erros de revisão
Pode ser lento do meio para o final

Título: Todos os Pássaros no Céu
Título original em inglês: All The Birds in The Sky
Autora: Charlie Jane Anders
Tradutor: Petê Rissatti
Editora: Morro Branco
Páginas: 476
Ano de lançamento: 2017
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Todos os Pássaros no Céu é uma aventura rica, uma jornada de duas pessoas que precisam salvar o mundo. Uma jornada pela tecnologia e pela natureza, com ciência e magia, e uma autora que soube falar dos dois lados com muita propriedade. É uma luta para compreender as pessoas, o mundo, a natureza e a tecnologia, antes que seja tarde. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Só o fato de Charlie conseguir dosar magia e ciência no livro já seria o suficiente para despertar a vontade de ler. Sua resenha está ótima!

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