Resenha: O Infinito no Meio, de Priscilla Matsumoto

quinta-feira, setembro 21, 2017

Quanta dor você é capaz de suportar? Quanto amor pode caber em você? Será que você poderia se partir caso tivesse dor e amor demais dentro de si? Priscilla nos trouxe um livro que vai torturar o leitor através dos caminhos da dor, da culpa e da violência, tanto física quanto emocional. Ao terminar você ainda vai digerir esses personagens por um bom tempo.



Este livro foi uma cortesia da autora


O livro

Everybody says that time heals everything.
But what of the wretched hollow?
The endless in-between?
Are we just going to wait it out?

Imogen Heap - Wait it Out

Cecília vive há 30 anos em seu apartamento, isolada do mundo lá fora, sem envelhecer um dia, o que ela chama de "infinito no meio". Suas feridas não cicatrizam, a comida não apodrece e ela constantemente recebe visitas de criaturas sobrenaturais. Inclusive o fantasma de seu irmão Vicente. Sua história trágica se desenrola aos poucos, especialmente depois que ela recebe o entregador da farmácia, Nathan. Ele trazia os barbitúricos que Vicente costumava tomar. Nathan tem uma aparência andrógina que atrai Cecília imediatamente. Ele a visita com certa frequência e os dois se tornam amigos improváveis.


O apartamento é uma prisão. Um lugar que é uma simulação da vida real, quase como uma Matrix sobrenatural, onde Cecília revive fatos de sua juventude. Especialmente seu relacionamento com o irmão e o fato de ter sido estuprada por ele. Há algo que enerva toda vez em que Cecília menciona o irmão, pois ela fantasia que eles tiveram um caso de amor. Não só não era amor, algo que ela não enxerga, como é estupro. Ele a abusava, a controlava, ela não consegue mencionar nenhuma amiga próxima, pois vivia para o irmão. Reconhecia que homens podiam sim representar perigo, menos ele.

Vicente me estreitava junto a seu corpo, a mão na minha cintura. Eu tinha catorze anos. Ele, dezessete. Com essa idade, homens já podem ser nocivos. Estou fantasiando. Homens podem ser nocivos com qualquer idade.

Página 26

Por 30 anos ela revive aqueles momentos terríveis da juventude, partida em pedaços pelos eventos, sendo visitada por seres diversos, dormindo na cama do irmão, consumida por uma culpa. Interessante notar que ela é a vítima, mas sente que há uma culpa a carregar. Tal como muitas vítimas de estupro e violência, como se elas fossem as culpadas por isso. Nathan é quem se torna sua ligação com o mundo lá fora do apartamento, tentando lhe provar que a vida não acabou, nem parou, que ela precisa seguir em frente. Celular, notebook, balada, aplicativo, essas coisas são novas para Cecília, ainda amortecida pelo "infinito no meio".

O relacionamento dos dois sobre vários abalos, em especial pela atração que tem por Nathan, às vezes até se sentindo dona dele, e por ainda se consumir pelo passado. Houve momentos em que eu queria queimar aquele apartamento e tentar fazer Cecília acordar para a realidade, sacudindo seus ombros. Porém, é fácil e incômodo fazer paralelos com a vida real e em quantas vezes remoemos eventos e discussões e falas, pensando o que poderíamos ter feito de diferente, paralisadas naquele tempo.

O livro é bem diagramado, encontrei pouquíssimos problemas de revisão e a escrita de Priscilla é intensa, porém rápida, direta, seca quando precisa ser. Algumas descrições, porém, me pareceram muito mecânicas, como a das criaturas sobrenaturais que visitam Cecília. Priscilla também teve sensibilidade em descrever determinadas passagens e deu alfinetadas diretas com relação ao comportamento tóxico de Cecília para com ela mesma. E admito que o final me pegou de surpresa.

Ficção e realidade
É interessante ver como a personagem se partiu na tentativa de entender o que lhe aconteceu. Muitas mulheres em relacionamentos abusivos não percebem que estão em um, às vezes nem quando é tarde demais. Ficam relembrando momentos bem pontuais, em que estavam felizes, ignorando os abusos, a possessão, as agressões, o que leva muitas a voltar para os parceiros. Cecília ignora completamente a força que seu irmão exercia em sua vida, remorando aqueles tempos como se fosse um lindo caso de amor, sem se tocar que ela era estuprada pelo irmão, sem sequer aventar a possibilidade de poder engravidar dele. Inocente e fascinada por Vicente, ela era uma presa fácil.

Priscilla Matsumoto
Priscilla Matsumoto

Às vezes penso que minha personalidade foi destruída em mil pedaços. Sempre que conversava com minha mãe ou conseguia me abrir um pouco com alguma amiga - é claro que nunca sobre Vicente -, cada conselho ou opinião agia como um pequeno martelo golpeando delicadamente alguma parte minha, até soltar uma lasca. Ao fim da conversa, sentia-me partida.

Página 73

Pontos positivos
Personagens bem construídos
Bem escrito
Nathan
Pontos negativos
Erros de revisão
Descrições mecânicas

Título: O Infinito no Meio
Autora: Priscilla Matsumoto
Editora: Draco
Páginas: 144
Ano de lançamento: 2017
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Eu não estava preparada para esse livro quando comecei a leitura. Comecei achando uma coisa e, de repente, ele deu uma guinada, transformando-se em outra totalmente diferente. Lamentei o fato de ser tão curto, pois havia mais espaço para desenvolver outras discussões, com a escrita tão gostosa de Priscilla, com uma construção tão forte de personagens que você odeia amar e ama odiar. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. O tema do livro é muito necessário nestes tempos doidos em que estamos vivendo..aliás, em qualquer tempo! Cecília pode ser uma personagem de qualquer época. Gostei da resenha!

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