Resenha: O Ceifador, de Neal Shusterman

sexta-feira, julho 14, 2017

Primeiro mandamento: MATARÁS. Em mundo onde a raça humana se tornou imortal, como controlar a taxa de mortalidade? Temos um dilema aqui, não é mesmo? A resposta da sociedade criada por Neal Shusterman é bem óbvia: vamos matar as pessoas. Para isso, surgiu uma ordem de ceifadores, que através de dados estatísticos e muita parcimônia deve selecionar pessoas para morrer de maneira justa e imparcial. Ou era assim que deveria funcionar.



Este livro foi uma cortesia da Seguinte


O livro
Neal nos apresenta imediatamente a dois adolescentes, Citra e Rowan. Os dois estão ligados à figura austera e severa do ceifador Faraday, que esbarra com eles enquanto executa sua função: a de matar. Faraday se baseia em estatísticas da era pré-imortalidade, quando as pessoas morriam de acidentes, morriam em assaltos, ou de doenças ligadas ao estilo de vida. É o ceifador que escolhe o método, explica à pessoa porque ele está sendo levado e o mata. Assim, sem mais nem menos.


Os ceifadores possuem uma certa aura religiosa no livro, mas com o fim da morte e do medo da morte, as religiões acabaram sofrendo um colapso. Os cultos e rituais que existem no livro são cerimoniais, mas não estão ligados à uma divindade específica. Ceifadores também têm um certo ar de celebridades, com figurinhas colecionáveis e tudo mais. A morte realmente foi banida neste mundo. Se você se matar, por exemplo, apenas vai para um centro de revificação e volta novo em folha alguns dias depois.

O ceifador Faraday escolhe Citra e Rowan como seus aprendizes por ter visto neles a humanidade que ele acredita que todo ceifador deve ter. Não querer matar deve ser a primeira qualidade de um mestre da morte como eles. E o treinamento não se resume aos métodos de matar, mas também de luta, conhecer todos os venenos, entender de estatística e conhecer a sociedade pré-imortalidade. Para auxiliá-los, eles têm a Nimbo-Cúmulo, uma mega inteligência artificial que a todos governa e vigia, exceto os ceifadores, que estão fora de seu julgo.

Mas ceifadores como Faraday são cada vez mais raros. Com o ego inflado pelo cargo especial que possuem, as lições de humildade que foram ensinadas aos primeiros ceifadores se perdeu e alguns deles são praticamente superstars. Como o ceifador Goddard e seu séquito de ceifadores, que fazem as chamadas "coletas em massa", como entrar em um avião e dizer que todos ali serão ceifados. Se você tentar fugir é pior, pois a regra diz que toda a família deverá ser morta junto de você. Mesmo assim tem quem tente fugir.

Acredito que as pessoas ainda temem a morte, mas apenas um centésimo do que temiam antigamente. Digo isso porque, com base nas cotas, a chance de uma pessoa ser coletada dentro dos próximos cem anos é de apenas um por cento. Ou seja, a chance de uma criança nascida agora ser coletada entre hoje e seu aniversário de cinco mil anos é de apenas cinquenta por cento.

Do diário de colega da ceifadora Currie

Página 151

Você provavelmente vai se pegar pensando na necessidade de certas crueldades no livro. Havia momentos em que eu achava que o autor tinha ido longe demais, mas vamos entender essa sociedade que vê a morte como um esporte. Sim, um esporte. Um amigo de Rowan acha legal se matar e ver quanto tempo leva para voltar no centro de revificação. Hoje nosso mundo é regido por um medo da morte e da deterioração, medo da violência que pode levar à morte. Temos obras de arte, música, literatura e leis baseadas no princípio de que a vida é curta e deve ser bem vivida, pois daqui nada vamos levar.

Mas se você tem uma sociedade de imortais, qual é o seu objetivo de vida? Se você tem todo o tempo do mundo, o que lhe impulsiona? O que lhe dá paixão? Quem vai viver para sempre pode levar o tempo que for necessário para qualquer coisa. Essa estagnação irrita algumas pessoas, que apenas existem, mas não vivem. Esse é um dos pontos mais importantes abordados por Neal. No começo de cada capítulo, temos um trecho do diário de alguns ceifadores, como a ceifadora Currie, e como ela enxerga a sociedade, como enxerga os próprios ceifadores e a sede de sangue de alguns deles.

Apesar de ter gostado do enredo e dos dilemas morais propostos pelo autor, alguns personagens foram bem trabalhados, outros foram deixados rasos. A própria Nimbo-Cúmulo, por exemplo, foi pouco explorada. Espero que no livro seguinte ele consiga expandir a visão que temos dela. Rowan e Citra, bem, o relacionamento desses dois ficou tão superficial durante a narrativa, que cheguei no final e fiz aquela cara de ué. Neal retratou super bem os ceifadores psicopatas, falou tão bem sobre o dilema moral da morte, para ser tão raso com os protagonistas. Eu esperava bem mais.

Ficção e realidade
O ceifador Faraday diz que para ser um bom ceifador o primeiro requisito é não querer ser um. Se você gosta de matar, perde a humanidade necessária para o cargo. Muitas vezes vemos a morte como uma punição, algo que a pessoa fez por merecer e bem feito!, mas quando o ceifador chega para um garoto do ensino médio, dizendo que ele foi selecionado para a ceifa naquele dia, porque as estatísticas diziam que, na era pré-imortalidade jovens morriam da junção de bebida e direção perigosa, o jogo parece injusto. Ele é morto ali, na sala do diretor, ninguém pode questionar.

O livro nos impõe um pensamento, querendo ou não: o de pensar na morte, que é um dos grandes tabus da nossa sociedade. A forma como a própria mídia trata a morte já mostra que ela vale para uns e não para outros. Enquanto em determinados casos é apenas estatística, em outros é uma grande tragédia. Quem define isso? Em O Ceifador, eles encontraram a maneira de manter o crescimento da população estável, mas para os nossos olhos parece uma barbárie. As mortes banais que temos hoje em cada noticiário também são.

Pontos positivos
Nimbo-Cúmulo
Ceifadora Currie
Dilemas éticos e morais
Pontos negativos

Alguns personagens rasos
Se arrasta em algumas partes

Título: O Ceifador
Título original: Scythe
Saga Scythe
1. O Ceifador
2. Thunderhead
Autor: Neal Shusterman
Tradutor: Guilherme Miranda
Editora: Seguinte
Páginas: 352
Ano de lançamento: 2017
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Enquanto lia, eu pensava que jamais daria uma boa ceifadora. Jamais teria a frieza necessária do ceifador Faraday ou da ceifadora Currie para seguir em frente, matar uma pessoa na frente de todo mundo, depois contatar a família. Este, porém, é um requisito para os aprendizes, não gostar do que faz, ou você corre o risco de ser um assassino. A linha, no entanto, é muito fina para alguns dos ceifadores que gostam de um banho de sangue. Apesar de termos alguns personagens rasos e um final em aberto, até porque tem uma sequência, o livro vai te fazer pensar sobre a moralidade da morte, querendo ou não. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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