Resenha: The Hate U Give, de Angie Thomas

sexta-feira, maio 05, 2017

Este é, provavelmente, um dos mais importantes livros lançados na década para o público jovem. Tem protagonistas adolescentes, seus conflitos com os pais, a questão da sexualidade, mas suas vidas giram em torno da violência policial, do racismo, da discriminação e de como um jovem perdeu a vida por causa da ação de um policial branco. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.



O livro
Starr Amara é uma adolescente negra, que mora em um bairro perigoso, mas estuda em um colégio de elite, longe de casa e com sua maioria de alunos brancos. Starr vive dividida entre esses mundos. Narrando o livro, vemos e ouvimos tudo o que ela pensa e faz, como precisa se comportar de uma maneira na escola e se comportar de outra com os amigos negros do bairro. Na escola, ela é tida como "cool" só por ser negra, mas precisa embranquecer seu discurso e suas atitudes para não cair no estereótipo da "mina negra barraqueira". Viver dividida assim é muito cansativo, desgastante. Às vezes ela acha que não vai aguentar.


Depois de uma briga em uma festa, Starr pega carona com um grande amigo de infância, Khalil e quando estão a caminho de casa, um carro de polícia para o veículo e pede os documentos. Starr e todos os seus colegas negros já tiveram aquela conversa com os pais, que a garotada branca nunca teve: a de como se comportar se forem parados pela polícia, de não encarar o policial, não fazer gestos bruscos, não falar alto ou xingar, estar com todos os documentos a mão. O policial desconfia de Khalil, o manda sair do veículo, revista o garoto várias vezes e o manda ficar quieto, enquanto vai até seu carro, confirmar identidade e propriedade do carro. Quando Khalil vai até sua janela para falar com Starr, o policial atira três vezes. Starr sai do carro para socorrer o amigo, a arma apontada para ela, enquanto assiste Khalil morrer.

O policial era branco. Khalil era negro. E Starr viu que seu amigo nada vez para tomar três tiros pelas costas. Anestesiada pela dor e pela perda, Starr tenta conviver consigo mesma, com a mídia demonizando seu amigo e com os colegas brancos. Ela sabe que se contar que viu Khalil ser morto, os colegas vão agir de maneira diferente com ela. Enquanto isso, a família lhe dá apoio. Todos são muito unidos e os pais são rigorosos com a educação dos três filhos. Seu pai é um ex-presidiário e ex-membro de gangue, dono de uma loja de conveniência e sua mãe é enfermeira. Seus pais sempre valorizaram a educação e ensinaram aos filhos sobre Malcom X, Os Panteras Negras e Martin Luther King, sobre ter orgulho de quem são e que suas ações podem mudar o mundo.

O título do livro vem do movimento social Thug Life, liderado por Tupac Shakur, com o intuito de diminuir as mortes banais e a violência nas áreas pobres dos Estados Unidos. O movimento instruía aos "thugs" ou "bandidos" sobre o que poderia e o que não poderia ser feito nas comunidades, como evitar mortes banais e não vender drogas às crianças. Isso reduziu as mortes e a violência nos bairros pobres, mas também atraiu o ódio do governo e da opinião pública. A frase de protesto do movimento é "The Hate U Gave Lil’ Infants Fucks Everyone" ou "O ódio que você passa para as crianças fode todo mundo". Pode reparar na capa e ver que The Hate U Give forma a palavra Thug na vertical.

A escrita de Angie é gostosa, flui muito rápido. E a melhor notícia é que a Galera Record já está com o lançamento programado para este ano e o livro se encontra na pré-venda pela Amazon. Então, se você não lê inglês, espere só mais um pouquinho, pois em breve ele estará disponível.

Ficção e realidade
Rolou muita identificação com Starr, mas em outros momentos eu sentia meu privilégio branco tacado na cara. Adolescência é uma época de descobertas, de medos, ansiedades, de viver intensamente cada momento, que parece que vai durar para sempre. Mas eu nunca precisei de uma conversa sobre como agir caso a polícia me desse uma geral. Nunca vi meus amigos serem baleados e mortos pela polícia. E apesar de já ter tido que mudar meu modo de falar e de ser, nunca foi por causa da minha pele. Esse é um daqueles livros especiais que terá dois efeitos na galera branca: muita gente vai enxergar seus privilégios, mas muita gente também vai achar que é tudo um exagero.

Angie deve estar muito presente na personalidade de Starr e sua vida. São situações que a comunidade negra vem tratando há muito tempo, mas os brancos, em geral, apenas tapam os ouvidos, alegando que é tudo mimimi. Democracia racial não existe, nem aqui, nem no país de origem do livro. E a trajetória de Starr escancara o racismo para que a gente tente entender de uma vez que as coisas não estão legais. Que não é OK um policial atirar em alguém desarmado e que nada fez de errado, não importa sua ficha corrida.

Angie Thomas
Angie Thomas

Pontos positivos
Protagonista feminina
Escancara o racismo e os privilégios brancos
Pontos negativos
Não tem em português (ainda!)
Final em aberto

Título: The Hate U Give
Título no Brasil: O Ódio que Você Semeia
Autora: Angie Thomas
Editora: Balzer + Bray
Páginas: 464
Ano de lançamento: 2017
Onde comprar: na Amazon, em inglês ou na pré-venda em português

Avaliação do MS?
Tem tanta coisa neste livro para se falar, tanta... Eu não conseguiria fazer isso em uma resenha, apenas posso pedir que leia este livro. Releia de vez em quando. Poucas coisas foram tão maravilhosas quanto esta leitura e fico muito feliz de saber que ele em breve estará em português, pois aqui, mais do que nunca, essa leitura é necessária. Starr, Angie, vocês me ensinaram MUITO. Cinco aliens para The Hate U Give e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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