Resenha: Casos de Família, de Ilana Casoy

quarta-feira, maio 03, 2017

Ilana Casoy, conhecida por seus livros sobre serial killers ganhou uma edição caprichada da Editora DarkSide, reunindo dois famosos casos policiais que estremeceram a mídia e a sociedade brasileiras: o assassinato do casal Richthofen a mando da própria filha do casal e a morte de Isabella Nardoni pelas mãos do pai e da madrasta.



Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide


O livro
Casos de Família são dois livros em um só. Os arquivos do caso Richthofen já tinham sido lançados como O Quinto Mandamento, mas não com todos os detalhes que temos nesta edição. Ilana nos conta sobre os procedimentos referentes à investigação, necropsia, como se trata uma cena do crime, como é feita a verificação dos álibis e a linha do tempo, como começaram a suspeitar de Suzanne e do namorado. Tudo é detalhado, você sabe de cada passo dado na investigação, sem nenhum detalhe ficar de fora, incluindo os relatórios da necropsia de Manfred e Marisia e as fotos da reconstituição.


A polícia começou a suspeitar que aquele crime estava estranho logo que informaram à Suzanne que os pais estavam mortos. Ela não chorou, não se descabelou, nem gritou. Apenas perguntou se estava tudo em ordem, porque havia dinheiro e joias na residência. Os próprios policiais na cena ficaram espantados com a reação da filha do casal.

(...) Suzanne von Richthofen não perguntou quem estaria cuidando do velório, do enterro, da liberação dos corpos de seus pais. Suas dúvidas se concentravam em saber se poderia vender imediatamente os carros da família e se naquele fim de semana, feriado de Finados, ela, Daniel e Andreas poderiam viajar para Boiçucanga, litoral norte de São Paulo.

Página 62

Quando os investigadores começaram a cavar mais a fundo, logo notaram que inexplicavelmente o irmão de Daniel tinha comprado uma moto cara e à vista e que o horário do álibi deles não batia com os depoimentos. Os pais de Suzanne não queriam que ela namorasse Daniel, que consideravam uma pessoa indigna de sua casa e de sua filha e a proibiram de ver o rapaz, algo que ela continuava fazendo em segredo. Sem saber ao certo de quem foi a ideia, um mês antes as armas do crime já estavam prontas e o crime foi executado. Para a surpresa dos investigadores, Suzanne estava bastante confiante de que nada daria errado, que eles nunca seriam descobertos.

O livro se chamava O Quinto Mandamento, porque é justamente aquele que diz que devemos honrar pai e mãe. Então, uma filha que mate os pais está em desacordo não apenas com um mandamento bíblico, mas com todo um inconsciente coletivo que nos diz que é dever de cada filho honrar nossos pais. Além das fotos e relatórios do legista, há também as anotações a mão de Ilana, com uma legenda embaixo para quem não conseguir entender a letra.

A segunda parte mexe com outro inconsciente coletivo, o de respeito e amor pelos filhos. Isabella foi atirada da janela do apartamento pelo próprio pai, depois de sofrer agressões e esganadura dentro de casa. O casal até hoje nega qualquer envolvimento, alegando que havia uma terceira pessoa na residência e tentando empurrar a culpa até mesmo para o porteiro do prédio.

A diferença da narrativa entre uma parte e outra pode incomodar em um primeiro momento, pois enquanto Ilana acompanha o caso Richthofen desde a chegada da polícia na casa até a prisão dos envolvidos, aqui no caso Nardoni ela pega apenas o julgamento. Então, ela não acompanhou a investigação em si. Depois de ler todos os volumes do caso - que são públicos - ela se pôs a narrar o que acontecia no tribunal e como foram as atuações de defesa e acusação. O juridiquês dos advogados também pode incomodar, especialmente se a gente está acostumado com os julgamentos de Lei e Ordem.

Aqui estão incluídos os laudos periciais, de necropsia, do local do crime, fotos do local do crime e da perícia feita para demonstrar como Alexandre passou Isabella pela janela e a soltou. É bem difícil ler isso, sabendo que foi o próprio pai quem soltou os bracinhos de Isabella. No final, mais anotações manuais de Ilana, com legendas para entender os garranchos.

O livro é um show à parte, pois ele parece mesmo um daqueles arquivos da polícia, em preto e branco, com duas fitinhas marcadoras de páginas para você não se perder. Parece mesmo que você está tirando o arquivo da prateleira surrada da polícia, inclusive com aquelas etiquetas plastificadas. Capa dura, ótima diagramação e informações essenciais para entendermos como funciona a polícia civil e as investigações no país.

Obra e realidade
Uma coisa de extrema importância que Ilana ressalta aqui é o quanto esses crimes acontecem na periferia, com gente pobre e não recebem nem metade da intensa cobertura da mídia sobre os dois casos. Ambos foram com gente em bairros de classe média alta, onde supostamente não deveria haver conflitos ou disputas, certo? Mas e na calada da noite, quantas Isabellas e quantos casais são assassinados sem que a mídia fale a respeito, sem que a sociedade saiba ou se sabe faz pouco caso, por que é com gente pobre?

Crimes de família não são tão raros quanto se pensa. Além do horror de uma pessoa ser assassinada em meio àqueles a quem se ama e em quem se confia, a "terça parte dessas tragédias familiares envolve uma mulher como autora do crime, e elas são maioria quando se trata de filhos assassinados (55%). Os números chegam a ser freudianos quando apontam a realidade de que pais matam, na maioria das vezes, as filhas e as mães, os filhos. Assim se dá também quando observamos filhos que assassinas os próprios pais: filhas matam, na maioria das vezes, o pai, e os filhos, a mãe".

Página 285

Pontos positivos
Histórias de crimes reais
Dados técnicos e laudos
Abordagem científica
Pontos negativos

Pode ser forte para pessoas sensíveis

Título: Casos de Família
Autora: Ilana Casoy
Editora: DarkSide
Páginas: 528
Ano de lançamento: 2016
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Sabe aquele livro escrito para tentar fazer como que a gente entenda um pouco sobre a maldade humana? Então, é esse. Ilana não tem floreios na hora de dizer as coisas, nem em expôr suas opiniões a respeito dos crimes e de seus executores. Com uma abordagem ao mesmo tempo técnica, mas direta e fácil de ler e acompanhar, o livro é uma leitura essencial para quem quiser entender, ou pelo menos tentar entender, como tais crimes tão brutais ocorrem. Vale cada palavra e o selo essencial.

Até mais!

Já que você chegou aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





Leia esses também...

0 comentários

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.
O mesmo vale para comentários:
- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.
A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.

Curta no Facebook

Viajantes