Resenha: Placas Tectônicas, de Margaux Motin

sexta-feira, abril 28, 2017

Placas Tectônicas é um dos quadrinhos mais legais que já li. Não só é lindamente desenhado e colorido, como tem passagens divertidas e emocionantes na vida de uma mulher que acumula diversas funções: mãe, mulher, dona de casa, profissional. Claro que a jornada de cada uma de nós é diferente, mas rola momentos de intensa identificação pelas páginas.




A HQ
Este é um quadrinho autobiográfico de Margaux. Nestas páginas, a francesa conta como é ter passado dos 30 anos, ter se divorciado e ter uma filha pequena. Terminar as etapas da vida nem sempre é fácil e ela passa por momentos de rebeldia, de introspecção, de diversão com as amigas e intensas dúvidas sobre como criar a filha. São vários os relacionamentos que ela analisa como o que tem com a filha, com os pais, namorado, clientes. Sem moralismos, mas carregada de dúvidas sobre como seguir em frente.

Capa Placas Tectônicas

Lindamente ilustrado e colorido, o traço de Margaux dá suavidade e delicadeza aos quadros. Isso atrai logo de cara para o livro e quem não curte em preto e branco pode se jogar nele. Margaux é aquela mulher múltipla que as revistas femininas tanto exaltam, mas que vive cansada, sozinha, cheia de neuras e ainda sofre preconceito por ser mãe e solteira. Há momentos em que ela derrapa na criação da filha, muito inteligente e perspicaz aliás, sente uma culpa extrema e acha que não será uma boa mãe. Há momentos em que ela quer largar tudo para cima e mudar de cidade, há momentos em que ela só quer beber e dormir.

É interessante notar como ela analisa sua vida de antes, quando era casada e depois, já divorciada e livre para buscar ser quem sempre quis ser. É possível trazer isso para nossa realidade, de quantas mulheres largam de seus gostos e sonhos porque precisam assumir o papel de esposa, de mãe. E a mulher por trás destes papéis, onde fica? Acho que é a principal análise dos quadrinhos de Margaux: aquela mulher importa, mesmo perdida em tantos afazeres e tantos papéis que a sociedade impõe.

Nem tudo rola uma identificação, mas as frustrações, os medos, os anseios, estão lá sempre. Como quando ela se compara na frente do espelho ou de quando conversa com as próprias neuras que infernizam sua vida. Margaux está em busca de ser ela mesma e que as pessoas a aceitem assim, sem ter que mudar para mais ninguém como fez antes. Não é o que todas queremos?


Além de lindamente colorido, o traço dela me encantou e a mistura de ilustração com fotos de lugares reais. São situações muito reais as descritas pelas páginas, como estar doente e jogada na cama, o resgate de sonhos da juventude, de gostos esquecidos. Os quadrinhos são também coloridos e não há quadros separando uma ação da outra, deixando tudo bem fluído. A edição da Nemo está linda, bem diagramada, mas alguns trechos foram deixados no idioma original e trechos de músicas não têm a indicação de qual é e quem é o intérprete. Aí o jeito é buscar no Google mesmo.

Obra e realidade
Vi algumas resenhas pululando por aí, dizendo que este é um quadrinho para mulheres. Assim como não existe literatura feminina, não existe quadrinho para mulheres. Existe LITERATURA, existem QUADRINHOS. Se você separar as obras dessa forma vai perder ótimas histórias por puro machismo mesmo. Já vi várias escritoras, ilustradoras, contando sobre episódios ridículos de preconceito só porque suas obras são ótimas, mas por ser de uma mulher muitos rapazes não liam! Sério, caras, que masculinidade frágil é essa que vai evaporar no caso de você ler um quadrinho feito por mulher?

Quando decidi que começaria a ler mais mulheres, alguns textos por aí falavam que isso era "limitar a leitura". Olha, na boa? Limitar a leitura é você deixar um quadrinho de mulher na prateleira porque tem medo do que podem pensar de você. Ou que por ser de mulher você não vai se divertir, nem vai achar nada de interessante pelas páginas. ISSO, my dear, é se limitar.

Pontos positivos
Divertido
Protagonista feminina
Lindamente ilustrado e colorido
Pontos negativos
Não tem número nas páginas
Não dá pra se identificar com tudo


Título: Placas Tectônicas
Título original: Las Tectonique des plaques
Autora: Margaux Motin
Tradutor: Fernando Scheibe
Editora: Nemo
Páginas: 256
Ano de lançamento: 2016
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Um livro muito gosto de se ler e de voltar de vez em quando. Você vai rir, vai suspirar, às vezes até se irritar com Margaux e sua vida corrida, buscando se equilibrar na corda bamba emocional. Mas quem nunca, não é mesmo? Bela edição da Nemo, vale você investir. Cinco aliens para Placas Tectônicas.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Pois é, um dia eu ouvi falar sobre a dupla jornada (às vezes, tripla).
    Assimilei na hora, pois estava lá: na minha casa; na minha cidade; no campo em que eu nasci, então, nem se fala.
    E, como acontece quando me deparo com algo que me parece incoerente, passei a indagar a mim mesmo: por que isso acontece? Não dá ar mudar?
    Sobre literatura "de mulheres", eu penso, hoje: todos nós temos que contar nossas histórias, a partir do nosso ponto de vista.
    São muitas histórias bonitas, diversas.
    Vale a pena sim!

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