Resenha: O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares, de Ransom Riggs

sexta-feira, março 24, 2017

Eu não sabia nada da história desse livro quando comecei a ler. Sabia da adaptação para o cinema e só. O título me intrigou bastante e as fotos que compõem o livro, e dão toda uma riqueza extra à narrativa, tornam a obra muito gosta de ler, angustiante e impossível de parar.



O livro
Jacob é um adolescente muito ligado ao avô, Abraham Portman, e suas histórias. Seu avô era fascinante. Algumas vezes são fantasiosas demais para o gosto de Jacob, mas enquanto criança, ele devorava as narrativas fantásticas do avô e passava os olhos por fotos sinistras de crianças sobre-humanas. Criado em um orfanato, Abraham tinha histórias de guerra, visitas a terras distantes além do oceano, sabia tudo o que havia para se saber sobre armas e falava três idiomas.


As histórias sobre o orfanato que ele teria vivido no País de Gales eram ainda mais peculiares. Abraham o descrevia como um lugar encantado, que mantinha as crianças protegidas dos monstros que ele descrevia com grande nível de detalhes. Um paraíso para crianças, onde não se adoecia, ou morria, tinha comida, camas quentes e cuidado. Mas Jacob foi crescendo. Assumindo um certo ar cético, começou a encarar as histórias do avô com menos entusiasmo. As fotos que ele lhe mostrava pareciam montagens e por fim o avô desistiu de contar histórias.

Meu avô foi o único membro da família que escapou da Polônia antes do começo da Segunda Guerra. Ele tinha doze anos quando seus pais o entregaram nos braços de estranhos e enviaram o filho caçula em tum trem para a Inglaterra sem nada além de uma mala e a roupa do corpo. Era uma passagem só de ida. Ele nunca mais veria a mãe, nem os irmãos mais velhos, nem os primos, nem as tias e os tios. Todos eles estariam mortos antes de seu décimo sexto aniversário, assassinados por monstros dos quais ele escapara por tão pouco.

Página 13

Foi então que um evento traumático mudou sua vida. Vovô Abraham estava ficando senil, portanto Jacob era o encarregado de ficar de olho nele e em uma tarde encontra a casa vazia. No bosque atrás da casa, ele encontra o avô ensopado de sangue, membros retorcidos, os olhos vidrados. Quando conseguiu fixar os olhos no neto começou a balbuciar. Mandou Jacob ir para a ilha, ali não era mais seguro. Com a insistência do avô, Jacob prometeu que faria isso. Deu-lhe instruções estranhas e morreu em seus braços.

Jacob ficou durante meses entrando e saindo de consultórios de psiquiatras até que decidiu: ele iria até a ilha onde ficava o orfanato do avô. Com o apoio do psiquiatra, seu pai decide lhe acompanhar. Uma aventura pode fazer bem a todos. A ilha parecia parada no tempo. Poucas coisas lembravam modernidade. Jacob encontrou o orfanato, mas ele estava em ruínas. Ninguém morava lá desde a guerra, quando ele foi bombardeado. Mas então, em uma tarde de exploração, Jacob vê crianças. E tão rápido quanto apareceram, elas sumiram.

A partir daí, Jacob entra em contato com a Sra. Peregrine, uma de minhas personagens preferidas, e com todas as crianças do tal orfanato que não existe mais. O ar sinistro e meio gótico do livro, é potencializado pelas fotos bizarras de crianças e adolescentes fazendo coisas impossíveis. Há monstros, poderes e características peculiares. Mas acredito que o livro fala nas entrelinhas algo muito mais importante: o poder das diferenças e como ser diferente é perigoso em uma sociedade intolerante.

O próprio avô de Jacob viu o que aconteceu na Segunda Guerra com a perseguição aos judeus e das crianças peculiares. A guerra, aliás, é um ponto de virada para Abraham e sua ruptura com o orfanato. Há também menção ao bullying, abuso e a rejeição que crianças peculiares podiam sofrer apenas por serem quem são. Com certeza, esses são os pontos altos do livro.

Eva Green é a Srta. Peregrine nos cinemas

A edição da Leya está linda, com um projeto gráfico muito bonito, capa dura com uma sobrecapa por cima. As fotos parecem compôr um álbum antigo e empoeirado, o que contribui para o clima sombrio e vintage que o livro evoca. A escrita de Ransom Riggs flui bem, flui rápido e quando você menos espera, acabou de ler tudo. Por ser o primeiro livro de uma trilogia, ele negligencia algumas informações, deixando pontas soltas aqui e ali que, acredito, estarão explicadas nos volumes seguintes.

Ficção e realidade
Gosto de ver histórias que consigam divertir e ainda fazer críticas válidas a problemas sociais, como é o caso do bullying e da discriminação apontados por Ransom Riggs neste livro. Isso só nos mostra que ódio é algo que se aprende, não nascemos odiando e discriminando as pessoas. Envelopadas em obras de fantasia como essa, é possível transportar a discussão para outros mundos e outras pessoas. Na ficção, é mais fácil identificar e assimilar tais mensagens.


Além disso, vemos crianças e adolescentes sendo as heroínas e salvadoras de seus mundos. É assustador, pode ser perigoso, mas elas devem usar suas peculiaridades para o bem do coletivo, para o bem de todos. Monstros estão à espreita, claro, mas juntas elas são mais fortes.

Pontos positivos
Crianças peculiares
Bullying e opressão discutidos
Universo bem construído
Pontos negativos

Pontas soltas

Título: O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares
Título original: Miss Peregrine's Home for Peculiar Children
Série: O Lar da Srta. Peregrine
1. O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares
2. Cidade Dos Etéreos
3. Biblioteca de Almas
Autor: Ransom Riggs
Tradutora: Marcia Blasques
Editora: Leya
Páginas: 336
Ano de lançamento: 2016 (5ª edição)
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Espero poder ler os livros seguintes, porque fiquei muito curiosa com o conturbado final deste livro. Personagens irritantemente bem construídos, uma narrativa criativa, que flui bem, com crianças sendo heroínas de seus mundos, ensinando tolerância e amizade. Mensagens mais que necessárias, mais que positivas para os tempos que estamos enfrentando. Portanto, quatro aliens para as peculiares crianças da Srta. Peregrine e uma recomendação para você ler.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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4 comentários

  1. Li os três, suas pontas soltas serão amarradas. Leitura deliciosa, divertida e forte, uma das melhores coisas que li ano passado.

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  2. SPOILERS SPOILERS SPOILERS SPOILERS SPOILERS SPOILERS SPOILERS SPOILERS SPOILERS


    O comportamento de Jacob fazendo tudo pra ser demitido (e não ser porque é filho dos donos) foi uma parte muito irritante da estória. Uma parte sombria que me incomodou foi o fato das crianças fazerem maldades na vila. Dando a entender que às vezes pessoas saem feridas e, como o tempo reinicia, aproveitam pra se divertir sem sentir culpa.

    Li o livro logo antes de ver o filme. E, apesar das falhas, tenho que admitir que Tim Burton tornou a personalidade de Jacob muito mais palatável.

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  3. Não gostei do livro. Achei uma boa ideia desperdiçada, concordo que tem muitas pontas soltas, mas acho que elas superam os pontos positivos. Não lerei as continuações.

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  4. Vim dar o bizu na sua resenha já que acabei de ler o terceiro ontem mesmo HAHA
    Então, eu acho o Jacob tão chatonildo e as cenas românticas tão melequentas e forçadas, além de algumas questões da história que acabam sendo forçadinhas também, mas vou aguardar suas próximas resenhas ^^
    Mesmo assim, as fotos são incríveis e a analogia com preconceito e o ser diferente é fantástica. Você ter de viver isolado em fendas do tempo porque não se encaixa numa sociedade é uma comparação bem violenta, né. E gosto da construção das personagens também, ele realmente escreve bem e a ideia de encaixar uma história mágica nas fotos que ele já tinha é incrível.

    Tenho bastante sensações mistas sobre essa trilogia xD

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