Resenha: Persépolis, de Marjane Satrapi

domingo, fevereiro 26, 2017

Esse é um daqueles livros que se tornam clássicos imediatos. Um quadrinho que virou filme indicado ao Oscar que nos conta sobre uma incrível jornada de crescimento, amadurecimento, descobertas, tudo isso firmemente entrelaçado com a história do Irã. É uma daquelas obras para você pegar na estante e reler de tempos em tempos, pois sempre terá algo novo para você ver.



O quadrinho
Persépolis é a auto-biografia em quadrinhos de Marjane Satrapi, uma romancista gráfica, ilustradora e escritora infanto-juvenil, nascida no Irã. De traços simples, mas poderosos, Marjane começa contando a conturbada história da região da Pérsia, que daria origem aos países como o Irã e aos países terminados em -stão (Cazaquistão, Afeganistão, etc.). Guerras e tomadas de poder se sucederam ao longo dos séculos, firmemente entrelaçadas com a introdução do Islã na região pelas invasões árabes.


Marjane é de uma família considerada moderna, bastante politizada, com uma visão bastante crítica do governo. Então é natural que ela fosse uma criança engajada e sem papas na língua, alguém que se interessava pela história da família e que achava necessário ir para as ruas protestar contra o governo. Aos 10 anos ela testemunhou a revolução islâmica, teve que se separar dos amigos e começou a usar o véu, mesmos em entender direito porque.

Tendo tido uma educação que favorecia o pensamento crítico, Marjane também era muito crítica com relação às injustiças e ao que via ao seu redor. Ela tinha certeza que era a última profeta e que tinha amizade com Deus. Enquanto que em um primeiro momento sua família e boa parte da população apoiava a queda do xá (governante do Irã e boneco nas mãos dos Estados Unidos) a intensa repressão imposta pelos religiosos era mal vista. A população desafiava a polícia religiosa, dando festas com as janelas tampadas, tomando bebidas alcoólicas, usando maquiagem e roupas que "não condiziam com a moral religiosa".

A principal bronca de Marjane era com a patrulha sobre as roupas das mulheres. Nem um fio de cabelo tinha que estar à mostra, ou já era o suficiente para a mulher ser chamada de "vadia". Andar na rua com um rapaz que não fosse irmão ou pai já era motivo para ser presa e passar por acareação, podendo resultar até mesmo em castigos físicos. Com medo da situação do país, da guerra com o Iraque, seus pais a mandam para estudar no exterior. Ela chega sozinha, já adolescente, na Áustria.


É interessante notar que para os padrões do Irã, Marjane e a família eram liberais. Mas para a Áustria, ela era a conservadora, certinha, careta. Os hábitos ocidentais lhe pareceram muito estranhos, mas depois, para não se sentir isolada dos amigos, ela acabou se enturmando, fumando maconha, usando roupas mais modernas. Entretanto, ainda a viam como uma estrangeira, retrógrada, alguém que ninguém gostaria de namorar, uma pessoa fora dos "padrões". Marjane sente um enorme conflito entre sua identidade iraniana e a vida ocidental.

Mesmo após ter voltado ao Irã, onde buscou se reencontrar e ser a Marjane que sempre quis, ela via os atos de resistência da população. Por baixo do véu, cada uma usava o cabelo da forma que bem entendia. Havia as audaciosas festas privadas, havia questionamentos, especialmente de sua parte, sobre certas imposições e regras que não fazia sentido. Ela sentia falta dos amigos, mas muitos deles foram embora com as famílias para o exterior, outros morreram ou foram mutilados pela guerra.

A edição da Companhia das Letras que eu tenho é a completa, com todos os volumes de Persépolis, branco e preto, mas ricamente ilustrada e carregada de história antiga e recente do Irã. Não é apenas a história de Marjane, mas também a história de um povo que presenciou profundas transformações políticas e sociais e precisou se ajustar a isso. É uma aula sobre o choque de civilizações, de opressão, de dualismo e de vida.

Vida e realidade
Uma das coisas que imediatamente chama a atenção na obra é a opressão sobre as mulheres. Marjane comenta que as crianças tiravam o véu, usavam para brincar, reclamavam que era quente demais, fala sobre a patrulha nas ruas e das mulheres que defendiam seu uso. A ideia era ocultar o corpo da mulher de forma a não provocar e excitar os homens. Aí muita gente pode pensar que no Ocidente isso não acontece, que somos livres e libertas desse tipo de opressão secular.

Marjane Satrapi

Será? Será que as opressões são tão diferentes assim? Muita gente não entende como uma mulher pode abraçar o hijab e usá-los como símbolo de liberdade. Essa mulher também não entende como que o ocidente não enxerga a objetificação feminina extrema, não enxerga a obsessão pela beleza e pela juventude, como que sob um manto de uma tal "liberdade ocidental" ainda recebemos menos do que os homens e ainda precisamos de leis que criminalizem o feminicídio.

Uma coisa é querermos que todas as mulheres sejam livres para fazerem suas próprias escolhas. Outra é que querer que elas sejam livres de acordo com nossos valores. Existem mulheres que usam o véu, as que não usam. As que não saem na rua sem se depilar e as que não ligam para isso. Existem aquelas que fizeram a transição capilar para usar o cabelo natural outras que ainda alisam. É preciso reconhecer as opressões, mas impôr nossa visão de mundo ao outro também é oprimir.

Pontos positivos
Traço simples
A vida de Marjane
Animação indicada ao Oscar
Pontos negativos
Termina abruptamente


Título: Persépolis - Completo
Título original: The Complete Persepolis
Autora: Marjane Satrapi
Tradutor: Paulo Werneck
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 352
Ano de lançamento: 1ª edição foi em 2010
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
É aquele livro essencial para você ter na sua prateleira, no seu livreiro e voltar a ele de vez em quando, folhear e reler algumas das passagens da vida da Marjane. Por mergulhar em sua vida e em seus pensamentos mais íntimos, é quase como se pudéssemos conversar com aquela criança que vai crescendo na frente de nossos olhos, sempre determinada, sempre com palavras na ponta da língua para defender o que acha certo. Selo de Essencial mais do que merecido.

Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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