Resenha: Estrelas Além do Tempo, de Margot Lee Shetterly

terça-feira, janeiro 17, 2017

Quando descobri a respeito do livro, eu ainda não sabia sobre o filme. Foi quando um pôster com as maravilhosas Janelle Monaé, Taraji P. Henson e Octavia Spencer surgiu que me vi diante de algo primoroso: a história das mulheres negras computadoras da NASA, que ajudaram a colocar astronautas na Lua. Uma história longa, por muito tempo esquecida pelas próprias agências espaciais, que nos mostra que sim, mulheres sempre estiveram lá. Suas histórias é que ficaram no esquecimento. Mas não mais.

Este é um livro do Desafio Literário 2017!



O livro
Margot Lee Shetterly é filha de cientistas. Ela cresceu indo aos piqueniques anuais da NASA, vivia rodeada de pessoas que faziam ciência no dia a dia. Para ela, a ciência sempre teve um rosto feminino e negro, como o dela. Infelizmente, para o resto do mundo, não era assim. O mundo não conhecia os nomes das mulheres negras da West Aerea Computers da NACA, que se tornou a NASA, uma área segregada do complexo militar-industrial em Langley, Virgínia. No auge da segregação racial e com a escassez de mão-de-obra, anúncios começaram a pipocar de que se precisava de mulheres para a área de cálculos e computação do governo.


Dorothy Vaughan foi uma das pioneiras. As cinco primeiras mulheres chegaram na NACA nos anos 30, mas Dorothy, professora de matemática que lutava para sustentar a família, enviou sua candidatura ao cargo, nos anos 40, após a aprovação da Ordem Executiva 8802, que acabava com a segregação nas contratações e entrevistas de emprego. Era o começo do fim da política de "separados mas iguais", que na real mesmo nunca igualou nada, apenas contribuiu para a segregação, periferização e violência contra os negros no país todo. Por incrível que pareça, muita gente comparava a dessegregação com "comunismo" e que isso ia contra "aos valores das famílias americanas". É absurdo, mas devemos lembrar que isso não foi a tanto tempo assim.

Em 1958, cerca de 1/3 dos cientistas soviéticos eram mulheres, enquanto que nos Estados Unidos mulheres e negros ainda não eram adequadamente incorporados à sociedade. Muitas mulheres tiveram que entrar com processos na justiça apenas para serem admitidas nas universidades. E com o lançamento do Sputnik, que deixou todo o mundo boquiaberto com feito notável de engenharia, muitos jornais de comunidades negras e periódicos universitários nos Estados Unidos se perguntavam se excluir parte de sua população de ter acesso à educação e ciência não era o motivo de o país perder a corrida espacial.

O trabalho de Dorothy Vaughan, Mary Jackson e, especialmente, de Katherine Johnson, junto dos movimentos por direitos civis e pelo fim da segregação, começaram a dar à ciência uma face feminina e negra. A NASA ainda tinha um rosto predominantemente masculino e branco, questionado por líderes de movimentos e jornalistas que, animados com a ida de John Glenn para órbita da Terra, criou um frenesi ao redor da agência que não existia antes.

Dorothy, que foi chefe do setor da West Area Computers, tornou-se programadora e começou a treinar outras mulheres a usar o FORTRAN quando os computadores não-humanos começaram a chegar. Mary Jackson nunca deixou seu lado de educadora e divulgadora científica, mesmo trabalhando com túneis de vento, fazendo contato com escolas e universidades, onde palestrava sobre a carreira de cientista da NASA e mostrava que os negros e as mulheres tinham o direito a seguir carreiras, assim como os homens e como os brancos. Katherine Johnson virou uma celebridade e seu rosto estampava reportagens em jornais de comunidades negras, que não apenas a enalteciam, como também se questionavam onde estavam os outros cientistas negros?

A segregação, infelizmente, era praticada com força na Virgínia, mesmo que o governo federal viesse agindo para exterminá-la. Um dia, Mary Jackson estava trabalhando com outras mulheres matemáticas, mas era a única negra do grupo. Quando perguntou onde ficava o banheiro, as colegas riram dela. Não havia banheiro para "gente de cor" naquele prédio.

Comparada às mulheres brancas, ela chegou ao laboratório com a mesma formação, se não mais. Ela se vestia todos os dias como se fosse encontrar o presidente. Treinava suas meninas Bandeirantes para acreditarem que podiam ser o que quisessem e fazia o possível para prevenir que estereótipos negativos de sua raça pudessem moldar as visões pessoais que os negros tinham de si mesmos. Era difícil demais crescer além dos lembretes silenciosos de placas em portas de banheiros e em mesas da cafeteria. Mas ser confrontada com o preconceito tão diretamente, bem ali, no templo da excelência intelectual e do pensamento racional, por algo tão mundano, tão ridículo, tão universal quanto ir ao banheiro... No momento em que as mulheres brancas riram, Mary foi desprovida de seu cargo de matemática profissional para um ser humano de segunda classe, lembrada de que era uma negra, cujo mijo não era bom o bastante para a privada dos brancos.

Eu li o livro em inglês, depois descobri que ela já estava disponível em português e li de novo! Por isso as duas capas lá em cima. A tradução ficou ótima e a edição do ebook ficou melhor até do que o ebook original, com notas acessíveis e uma extensa bibliografia no final. Uma coisa que senti falta foram fotos. Em Rise of The Rocket Girls, temos fotos das incríveis mulheres do JPL e de foguetes. Senti falta disso. Uma coisa ótima da narrativa de Margot é como ela interconectou os eventos da NASA com a luta pela queda da segregação, algo vergonhoso que era apontado como uma das grandes manchas na história dos Estados Unidos já naquela época.

Logo no começo há um aviso sobre certas palavras usadas como preto, de cor, índios, garotas, para tentar retratar da maneira mais fiel aquele momento histórico, por isso não se assuste.

Ficção e realidade
Margot vendeu os direitos do filme quando o livro ainda era um rascunho. As três atrizes ficaram surpresas enquanto liam o roteiro, pois elas mesmas nunca ouviram aqueles nomes, aquela história e a importância de seu trabalho na corrida espacial. Nunca tiveram aulas que falasse desse trabalho tão importante de computação manual que levou os seres humanos ao espaço. A gente não ouve esses nomes, nem vê seus rostos nos filmes que recontam os feitos do período. Eram mulheres e negras, de repente sua competência, trabalho e inteligência ficavam em segundo plano, consideradas inferiores pela cor da pele e pelo gênero.

Hoje as atrizes estão ajudando pessoas que não têm dinheiro a irem aos cinemas para assistirem ao filme. Grupos escolares estão juntando dinheiro para levar turmas inteiras para ver o longa, em alguns casos sendo a primeira experiência desses jovens em um cinema. E fazem isso porque sabem que representatividade importa. E já sabemos bem disso, com histórias como as de Whoopi Goldberg, Lupita Nyong'o e Leslie Jones que ao verem atrizes negras em papel de destaque e protagonistas de suas vidas se inspiraram nelas.

Esse é um daqueles filmes que entrarão para a história, pois seus efeitos ainda serão sentidos nas próximas gerações. Ainda temos uma sociedade racista, misógina e homofóbica, mas são obras como este livro, este longa, que nos dão a outra face, a face da oportunidade.

Quem melhor conhecia a democracia norte-americana que os negros? Eles conheciam cada virtude, vício e limitação, sua voz e contorno, por sua profunda e persistente ausência em suas vidas. A falha em assegurar as bênçãos da democracia era a falha que mais definia sua existência no país. Todo domingo, eles tomavam o rumo de seus santuários e, fervorosamente, pediam a Deus que mandasse um sinal de que a democracia chegaria até eles.

Pontos positivos
Ciência aeroespacial
A vida das mulheres computadoras
Corrida espacial
Pontos negativos
Final abrupto
Não tem fotos


Título: Estrelas Além do Tempo
Título original: Hidden Figures
Autora: Margot Lee Shetterly
Tradução: Balão Editorial
Editora: Harper Collins Brasil
Páginas: 352
Ano de lançamento: 2017
Onde comprar: em português e inglês


Avaliação do MS?
O que mais posso dizer além de pedir que você compre o livro e acompanhe a vida dessas incríveis mulheres? O que mais posso pedir além de esperar 2 de fevereiro para ver o longa, que é quando ele estreia no Brasil? Não podemos mais ignorar essas mulheres. Seus feitos definiram todo um capítulo da história humana. Toda a ciência aeroespacial dos séculos XX e XXI contaram com elas. O reconhecimento demorou, mas chegou. Vamos celebrá-las!

Até mais!

Já que você chegou aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





Leia esses também...

4 comentários

  1. Miga, eu tô tentando ler, mas sabe quando você precisa estar no humor? Estou no início do livro, lendo devagar, mas só os detalhes iniciais da segregação estão me dando nos nervos de uma forma absolutamente louca. Eu só tento imaginar o que essas mulheres passaram e pira a cabeça ver o nível do apagamento delas na história, seja naquele período pela cor da pele quanto pelo machismo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Faz uma forcinha, vale à pena. Tem partes absurdas mesmo sobre segregação, mas o livro é uma aula de história e de ciências.

      Excluir
  2. Meu Deus! Eu vi esse filme e ele me tocou profundamente. A luta dessas mulheres para serem reconhecidas tem q ser muito difundida, com o filme, com o livros, com os debates na escola. A luta diária delas nos mostra o quanto vivemos numa sociedade preconceituosa, ainda nos tempos atuais, pq muitas cenas nos traziam para a nossa atual realidade. Parabéns pela RESENHA! Agora esse já está na minha lista de leitura.

    ResponderExcluir
  3. Ameeeei muito essa resenha! Eu não sabia que era livro e já estou interessada. Com certeza lerei ainda esse ano. Já vi mil filmes sobre Apartheid, é um assunto que me interessa muito. Eu vi o filme esse fim de semana e adorei. Me senti muito tocada pela história dessas mulheres. Que continuam fazendo vários filmes sobre essas figures escondidas da sociedade, quero conhecer todas!

    Beijos!

    ResponderExcluir

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.
O mesmo vale para comentários:
- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.
A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.

Curta no Facebook

Viajantes