Resenha: Confissões do Crematório, de Caitlin Doughty

segunda-feira, setembro 05, 2016

Você pretende morrer um dia? Pensa sobre isso com alguma frequência? Tem algo preparado, paga jazigo, já falou para a família ou amigos o que você prefere que seja feito com seu corpo? Essa e muitas considerações são feitas por Caitlin neste incrível livro, como sua experiência em um crematório, sua relação com a morte e as críticas à indústria da morte nos Estados Unidos.



Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide

O livro

Olhar diretamente nos olhos da mortalidade não é fácil. Para evitar isso, nós escolhemos continuar vendados, no escuro em relação às realidades da morte. No entanto, a ignorância não é uma bênção - é só um tipo mais profundo de pavor.

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Confissões do Crematório

Caitlin é fascinada pela morte. Tanto que mandou vários currículos e se inscreveu em vários processos seletivos para trabalhar em crematórios, cemitérios e departamentos de legista. É muito mais que uma curiosidade mórbida, Caitlin se sente atraída por isso desde muito cedo. Na faculdade, ela mergulhou na história medieval e passou a estudar todos os aspectos da mortalidade, o luto, os rituais, a decomposição. Tudo a respeito da morte lhe atraía.

O livro começa com uma recém contratada Caitlin com um barbeador rosa na mão. Ela precisava barbear seu primeiro cadáver, que seria apresentado à família para ela pudesse se despedir antes da cremação. Seu chefe lhe deu creme de barbear, disse para cortar no sentido que os pêlos crescem e pronto, um morto recém barbeado prestes a ir para o forno.

Confesso que esperava outra coisa do livro. Achei que seriam relatos de 'causos' com corpos e famílias e como a autora lidava com eles, mas o livro é muito mais que isso. Caitlin nos mostra como a indústria da morte se alimenta nos Estados Unidos, como que a tradição de embalsamar corpos começou e como nós, meros mortais, tentando ocultar a morte e maquiá-la para parecer algo que ela não é, nos sentimos impotentes quando ela chega. A autora faz críticas contundentes à forma como hoje lidamos com a morte e como isso precisa mudar.

Nos Estados Unidos os corpos são embalsamados, mesmo que sejam cremados depois. É uma indústria de milhões de dólares que começou na Guerra Civil que quase separou o país, no século XIX. Para que as famílias tivessem os entes queridos de volta, eles eram transportados de trem, mas o fedor de centenas de cadáveres com o calor e a umidade do sul do país fizeram com que muitos condutores não quisessem mais corpos em suas composições. Foi assim que a veia empreendedora de algumas pessoas surgiu. Eles garantiam que podiam preservar o corpo com um novo processo, o embalsamamento, e assim o cadáver chegaria fresquinho no destino.

Hoje nós nos mantemos distante da morte. Velar corpos em casa é cada vez menos comum. As pessoas chamam logo uma agência funerária se alguém morre em casa. Caixões muitas vezes são lacrados. Caitlin nos conta que com a construção de hospitais e sua popularização, morrer em casa ficou cada vez menos comum. É a chamada medicalização da morte, onde antes os líderes religiosos conduziam a família pelo luto e hoje são os médicos, nem todos eles sendo delicados nesse momento.

Algumas passagens são um tanto, digamos, nojentas. Como quando ela explica que gordura humana quente vazou do forno ou como eles preparam o cadáver no embalsamamento. Qual é o cheiro de um cadáver em decomposição? Ela conta, não se preocupe. Algumas passagens são tristes, especialmente ao lidar com crianças e bebês natimortos.

O livro em si é um show a parte. A DarkSide não cansa de fazer livro lindo. Minha edição chegou com uma sacola e uma caixinha de fósforo que imita o livro. Com a brochura pintada de vermelho e belos detalhes anatômicos do corpo humano nas contracapas, ele é uma obra de arte das palavras.

Podemos nos esforçar para jogar a morte para escanteio, guardando cadáveres atrás de portas de aço inoxidável e enfiando os doentes e moribundos em quartos de hospital. Escondemos a morte com tanta habilidade que quase daria para acreditar que somos a primeira geração de imortais. Mas não somos. Vamos todos morrer e sabemos disso.

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Ficção e realidade
Enquanto lia o livro percebi que nunca estive em um velório. O máximo de contato que tive com cadáveres humanos foi ver a perna de uma moça morta num acidente de carro perto da minha casa, aos 13 anos. Eu achava muito estranha a curiosidade das pessoas em correr para o lugar onde um acidente com mortes tinha ocorrido. Quatro jovens voltando da praia perderam a vida naquele dia, estirados na calçada esperando o carro do IML e as pessoas acharam legal ir lá para ver.

A autora, Caitlin Doughty
A autora, Caitlin Doughty.

Sim, vamos morrer um dia, é inevitável. E muitas vezes a morte vem repentina, sem termos nenhum preparo. Essa é uma das críticas que a autora faz no livro. Se um parente já procura serviços funerários para um parente que está definhando, isso pega mal. É feio. Como se você estivesse apressando a coisa toda. Se a morte, se falar sobre nossa própria morte, não fosse um grande tabu, nada disso seria considerado deselegante. Aliás, já deixo aqui meu desejo de ser cremada.


Pontos positivos
Escrito por mulher
Crítica à indústria da morte
Bem detalhado
Pontos negativos
Acaba logo
Pode ser meio nojento



Título: Confissões do Crematório: Lições para toda a vida
Título original: Smoke Get in your Eyes and other lessons from the crematory
Autora: Caitlin Doughty
Editora: DarkSide
Páginas: 260
Ano de lançamento: 2016
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Esse livro me fez questionar muitas convenções sociais que temos ao redor da morte e a forma como encaramos um processo natural do corpo como um grande tabu, aquele que não deve ser nomeado. Temos que encarar o fato de que a morte baterá na nossa porta e pode ser hoje, pode ser daqui 60 anos. Caitlin ganhou lugar cativo na minha estante e é um livro obrigatório para você ler.

Até mais!

Já que você chegou aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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3 comentários

  1. Já fui a alguns velórios, sempre considerei uma coisa bizarra por milhares de motivos. Você não tem ideia dos absurdos que já ouvi de um corpo que nem esfriou direito.

    Mas sobre o livro, também não fazia ideia de que era assim, me interessou ainda mais pela reflexão, que ainda é mesmo um tabu. Além da edição que realmente tá linda.

    To adorando seu "darkside".

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    Respostas
    1. Miga, lembrei de você na hora quando esse livro chegou. =D Acho que você vai curtir muito.

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  2. Realmente o lado negativo é que o livro acaba logo, eu fiquei muito triste, pois a leitura realmente me cativou. Eu imaginava que o livro seria mais relatos também. Certamente todos deveriam ler, pensar e falar sobre a morte é preciso, afinal, essa é a nossa única certeza na vida, que um dia ela acaba. O que mais surpreendeu foi a naturalidade, a sinceridade com que a autora trata desse tema. Para mim essa leitura foi uma experiência libertadora!

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