Star Trek - 50 Anos 🖖

quinta-feira, setembro 08, 2016

Em 8 de setembro de 1966 ia ao ar na televisão norte-americana uma nova série, chamada Star Trek. Com apenas três temporadas, duas tentativas de cancelamento - sendo que uma foi bem sucedida - as aventuras da nave Enterprise e as séries e filmes que vieram em seguida mudaram a televisão e criaram a cultura pop como conhecemos hoje. A influência é grande demais para ser medida. Celulares, tablets, buracos negros, igualdade racial e de gênero... a jornada continua até hoje.

Tripulação da série clássica.



Comecei a ver Star Trek aos 8 anos, quando a reprise da série clássica passava na TV Record. Hoje a série me parece bem datada, mas na cabeça de uma criança aquilo era uma maravilha. O formato da nave foi o que mais me chamou a atenção, era diferente de qualquer coisa que eu já tivesse visto. E uma criança de 8 anos não viu muita coisa na vida, então o impacto foi muito grande.

Pulamos para os Sábados de Sci-Fi do canal USA (hoje o canal Universal). Todo sábado era sagrado, pois eu podia passar o dia inteiro na frente da televisão vendo Star Trek na sequência, além de outras séries, como Sliders. Foi assim que comecei a ver Deep Space Nine, Voyager e Enterprise. Mas alegria de pobre dura pouco e os sábado de Sci-Fi foram para o limbo um ou dois anos depois.

Ainda assim, todas as lições de companheirismo, igualdade, diplomacia, mulheres em posição de destaque foram um ponto de virada para mim. Significava que eu não era estranha ou esquisita, que eu podia gostar de ciência, de tecnologia e séries com naves espaciais, pois havia um lugar onde eu me identificava com tudo isso. Ninguém fazia piada de Janeway e Torres falando sobre motor de dobra e de escassez de dilítio. Naomi Wildman, uma criança nascida na Voyager, propôs um plano de resgate de Sete de Nove para a capitã Janeway e ninguém achou aquilo um absurdo. Eu estava em casa.

Star Trek A Nova Geração
Tripulação da Nova Geração.

Gene Roddenberry vendeu a ideia de Star Trek em 1964 para a NBC como um drama clássico da aventura, espantosamente chamado de "Wagon Train to the Stars". Ainda bem que mudou... Gene queria contar histórias sofisticadas e futuristas, usando analogias para falar de problemas atuais, mostrando como elas poderiam ser resolvidas por um viés humanista e otimista. Inspirada em O Planeta Proibido, Além da Imaginação e no Professor Bernard Quatermass, Star Trek foi a primeira série de ficção científica dos Estados Unidos a ter um elenco regular, direcionado a adultos, contando histórias complexas e com mensagens que desafiavam a moral e a inteligência da audiência. Com efeitos especiais de qualidade para a época, Star Trek obrigou todas as produções seguintes a subirem o nível de seus episódios, tornando a ficção científica algo que podia ser levada a sério pela audiência.

Star Trek é a humanidade na sua melhor forma. Emergindo de uma sociedade pós-apocalíptica, que sofreu os horrores da Terceira Guerra Mundial, o contato com uma raça alienígena, os Vulcanos, mudou a forma como a raça humana agia e construía sua civilização. Abandonando a ganância, o lucro e o poder, essa nova sociedade percebeu que podia empreender esforços para acabar com a miséria, a fome, as doenças. Todas as formas de discriminação caíram e as pessoas tinham as mesmas oportunidades, independente de sua cor, gênero ou orientação sexual. As séries e filmes nos mostram que mentes brilhantes podem trabalhar juntas para resolver qualquer problema e podiam explorar a galáxia, não para lucro, mas para ganhar conhecimento.

Mas a Federação não é perfeita, porque nós não somos perfeitos. Ela erra, também fez julgamentos errados e tomou atitudes questionáveis, como a remoção forçada de uma população inteira de um planeta, em Star Trek Insurrection. Ao descongelar e reviver pessoas do século XX, entre elas um rico empresário, preocupado com seu dinheiro e riqueza, o capitão Picard diz que a humanidade saiu da infância e buscava formas de melhorar a si mesma e aos outros.

Star Trek Voyager
Tripulação da Voyager.

Nada poderia ser tão oposto ao mundo que vivemos do que Star Trek. Hoje temos um mundo polarizado, violento, mergulhado no desespero existencial e individualista. Um mundo onde gays, mulheres, negros e pessoas trans* morrem apenas pelo fato de serem quem são, onde o lucro desenfreado faz empresários reclamarem das leis trabalhistas, onde guerras ainda eclodem por causa de livros religiosos e linhas em mapas.

O contexto em que Star Trek surgiu explica muito de sua mensagem e formato. A era John F. Kennedy, a corrida espacial e aquela sensação de que tudo era possível, misturados com a ameaça da bomba atômica e as tensões com a União Soviética, a desigualdade de gêneros e a emergência do movimento feminista, o descontentamento com a Guerra do Vietnã e os conflitos resultantes da luta por mais direitos civis. A sociedade questionava uma série de moralismos presentes em décadas anteriores. Em um momento tão conturbado para a história, surgiu na televisão, como forma de entretenimento, uma mensagem de paz e de florescimento de uma raça humana unida por um bem comum.

O fato é que nunca na história de qualquer meio de entretenimento já houve uma história, uma ideia, uma situação, um grupo de personagens, ou um tema que se aproximou da magnitude ou do impacto de Star Trek.

Stephen Edward Poe

Frases e expressões como "audaciosamente indo...", "vida longa e próspera", "fascinante", estão no imaginário popular mesmo que muita gente não saiba de onde elas vieram. A série de 1987, A Nova Geração, nos apresentou o Google Glass, hologramas e tablets, décadas antes do primeiro iPad e que, curiosamente, eram chamados de PADDs. Um dos criadores do Google Earth disse que a capacidade de mapeamento do tricorder foi inspirador para o desenvolvimento da ferramenta.

É curioso pensar que a série alcançou o estrondoso sucesso somente depois de seu cancelamento. Fãs começaram as primeiras convenções para manter o espírito otimista da série vivo e organizaram campanhas como a de 1976, onde cartas de fãs empolgados pediam que a NASA nomeasse seu novo ônibus espacial de Enterprise. Nos anos 80 viria uma nova série, uma nova tripulação, uma nova Enterprise e episódios de tom mais liberal, sem a agressividade da série clássica, com mais diplomacia e com uma Federação em expansão. Se hoje estamos acostumados a reboot de séries e filmes, isso não era comum em 1987 e o estúdio estava bem cauteloso com a nova produção.

Tripulação de Deep Space Nine
Tripulação de Deep Space Nine

O sucesso dessa Nova Geração foi tão grande - 20 milhões de expectadores por semana - que cinco anos depois surgia Deep Space Nine, um formato completamente diferente daquele que estávamos acostumados, vindo em seguida com Voyager e Enterprise, cada uma delas carregando novos conflitos, envelopados na moral da Federação e da Frota Estelar, tratando dos velhos problemas que temos ainda hoje. Este formato de séries derivadas era uma novidade que foi tão bem vinda que hoje temos CSI e Lei e Ordem mantendo a tradição. Star Trek transformou séries de televisão em algo vendável e muito lucrativo e fez da cultura nerd e geek algo mainstream.

Muita gente torce o nariz para Star Trek porque acha que é irreal. Que é um futuro que não convence. Acostumados a histórias pós-apocalípticas, com futuros distópicos e sombrios, essa visão utópica da sociedade não está lá para nos convencer e sim nos inspirar. Se os universos distópicos nos mostram o pior da raça humana, aqui temos visões plurais e otimistas, com seres humanos e aliens unidos pelo bem comum, mas que também erram, que também podem encontrar inimigos que ameaçam a estabilidade do sistema. Ela nos inspira a buscar o melhor de nós mesmos e das pessoas e fazer isso requer uma dose de confiança que muitos não estão dispostos a dar.

Se hoje eu sou fã de ficção científica, se criei um blog, escrevo FC e distribuo esse conteúdo foi devido a todos os sábados que passei na frente da televisão, absorvendo os princípios de igualdade e diversidade, de acreditar em um futuro melhor. A influência na formação do meu caráter e individualidade são grandes o suficiente para um amigo me apelidar de "capitã", tanto que adotei o apelido e as pessoas me chamam assim nas redes sociais.

Acreditar em um futuro melhor e promissor não é ser irreal e tolo. Muitas vezes é esse pensamento, às vezes tão distante da realidade, que nos motiva a buscar coisas boas, a adotar posturas positivas, a encarar a vida por uma perspectiva otimista, que nos desafie a audaciosamente ir onde nunca estivemos. Que nos engaje a fazer o que gostamos, que nos torne pessoas melhores, que possamos ver no outro não um inimigo, ou um competidor, mas um amigo, um colega, alguém com quem contar. E acho que precisamos desse tipo de mensagem mais do que nunca.

Tripulação de Enterprise
Tripulação de Enterprise

Chefe O'Brien, uma para subir. Vida longa e próspera!🖖

Star Trek em alguns números:
  • 40 games
  • 70 milhões de livros impressos
  • ganhou 31 prêmios Emmy e 140 indicações
  • seis séries de TV com a sétima começando em 2017, totalizando 726 episódios
  • os primeiros 11 filmes acumularam mais de 2 bilhões de dólares em bilheteria

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Star Trek: A Phenomenon and Social Statement on the 1960s
How Star Trek: The Next Generation Changed Pop Culture Forever
Star Trek’s 50-year mission: to shine a light on the best of humankind
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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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6 comentários

  1. É tanto amor compartilhado que veio uma lágrima, aqui. Que cada vez mais gente possa ler declarações de amor assim, conheça esse universo maravilhoso de Roddenberry e torça menos o nariz pra uma visão utópica de futuro. Vida longa e próspera, capitã!

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  2. Sybilla, pegue o símbolo astronômico (ou astrológico) do planeta Urano. Pegue a Enterprise vista de cima. Voilà!

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  3. Completando meu comentário (pra quem não entendeu a analogia). Urano rege Aquário, tido como o signo do futuro, das viagens espaciais, e também o nome da era em que estamos entrando, já deixando pra trás a Era de Peixes.

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  4. AMO star trek desde quase sempre quando via reprises na tv e um menininho ruivo apresentava os episódios, nossa, nem me lembro de quando isso era, se 80 ou 90....eu via e revia e revia e não me cansava de assistir. A essência de ST está em nos mostrar que tudo é possível, deve a convivência pacífica com diferentes de nós, bem como o uso da tecnologia para o bem comum. Mas o que me deixa com lágrimas nos olhos é justamente a "simplicidade" para falar das relações humanas, principalmente amizade. Não dá para falar, só sentir. Amor. Muito amor.

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  5. Ah, que saudades dos sábados de sci-fi do USA... Era da 1 da tarde até o fim da noite, pq quase sempre vinha um filme de FC pra encerrar bem o dia. Meu pai ficava preocupado com isso, pq normalmente eu nem me trocava nesse dia! kkkkkkkkkkkkkk Pra mim, punk rebelde que eu era, fã de Che e Rage against the machine, não tinha nada melhor que a Major Kira em DS9. De longe a minha personagem favorita de todo o universo de ST (mas seguida de perto pelo LaForge!). Ainda bem que a Netflix vai recolocar todas as temporadas de volta no final do ano!

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  6. sou fã de star trek. tudo começou quando eu assistia à nova geração nas tardes de sábado na manchete. depois fui atrás dos filmes e da série da tripulação clássica. preciso ver DS9 e as demais. belo texto.

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