Resenha: Trilogia Newsflesh, de Mira Grant

quinta-feira, abril 14, 2016

Mira Grant é o pseudônimo da escritora Seanan McGuire, conhecida por seus livros de fantasia. Quando ela quis se aventurar na ficção científica, optou por adotar outro nome. A trilogia Newsflesh nos fala de duas grandes vitórias da medicina no futuro próximo: a cura do câncer e a cura da gripe. O que ninguém previa é que uma nova epidemia surgiria da combinação destas duas curas baseadas em vírus geneticamente modificados: a dos zumbis.





Feed
Poucas décadas no futuro, Shaun e Georgia Mason são de famílias diferentes e ficaram órfãos na época do Levante, quando os mortos começaram a andar ao invés de morrer de verdade. Adotados pelo casal Mason e criados como irmãos, os dois se tornaram blogueiros, sempre atrás da melhor notícia. Eles vivem em um mundo de vigília constante. Existem zonas mortas onde buscam notícias e tudo é devidamente esterilizado e controlado. TU-DO, é irritante até.

E por que os mortos andam? Dois vírus geneticamente modificados foram desenvolvidos, em pesquisas diferentes, mas com o mesmo propósito. Em 2014, uma adolescente chamada Amberlee foi curada de leucemia por um deles e em outro laboratório, o Dr. Kellis criou um novo tipo de rinovírus para curar a gripe. O problema é que estes dois vírus combinados no meio ambiente formam o Kellis-Amberlee, um vírus que traz os mortos de volta à vida, agressivos e sedentos de carne humana como todos conhecemos.

Desta forma, o mundo acabou se adaptando. Ao invés de cair como vemos em The Walking Dead, aqui em Feed a sociedade não foi dizimada. Ela conseguiu se adaptar, criou testes rápidos e portáteis de sangue e criou toda uma mídia nova com a queda da mídia tradicional de telejornais. Quando os mortos começaram a andar novamente, os portais de notícia não faziam a cobertura corretamente, atribuindo tudo a hoax e boatos. Foi a partir dos blogs que a verdade chegou ao público e, assim, blogueiros são a vanguarda da notícia.

A vida dos dois irmãos muda quando eles são selecionados para acompanhar a campanha presidencial do senador Peter Ryman. Eles estão autorizados a acompanhar o candidato, fazer textos honestos e filmagens sem cortes. O cara parece ser bem gente boa. O problema é que a campanha dele parece estar sendo sabotada. Mais zumbis do que o normal estão aparecendo e até um atentado é cometido contra a família dele.

Feed tem uma premissa ótima. Sempre me incomodou a incompetência das pessoas em The Walking Dead, onde os mortos levam horas ou vários minutos para se levantar e conseguem destruir a sociedade inteira. Em Feed, a conversão é muito rápida e ainda assim o mundo não ruiu. Eles se adaptaram do jeito que puderam e chega a ser irritante tamanha proteção e neura com limpeza e esterilização que eles têm, o que é compreensível.


O livro tem mais de 600 páginas, mas dava para tirar umas 200 de pura encheção de linguiça. Mira é detalhista, isso é ótimo, pois criou um mundo super convincente, só que foi demais. Quando eu sabia que viria uma longa descrição sobre o ambiente estéril de um hotel e as verificações de segurança eu pulava os parágrafos, porque era sempre mais do mesmo. Georgia Mason, cujo apelido é George, é uma personagem fantástica. Inteligente, forte, tem faro para a notícia, sabe como escrever textos que cativam e é o freio do irmão, Shaun. É através dela que seguimos na narrativa e mesmo sendo em primeira pessoa, temos muitos detalhes ao longo das páginas.

Pontos positivos
Ficção científica
Zumbis
CDC
Pontos negativos
Detalhes
Muitos personagens
Muito longo


Título: Feed
Trilogia Newsflesh
1. Feed
2. Deadline
3. Blackout
Autor: Mira Grant
Editora: Orbit Books
Ano: 2010
Páginas: 608
Onde comprar: Amazon

Deadline
Um ano depois do final dramático de Feed, Shaun Mason é um sujeito sem propósito. Shaun continua com o site, mandando seus melhores blogueiros para caçar notícias, mas ele mesmo vive em meio aos escombros de sua vida passada, escutando e conversando com a voz que vive dentro de sua cabeça. Até que uma cientista do CDC (Centro de Controle de Doenças) forja sua própria morte e o procura buscando ajuda. Ela tem evidências de que algo vem sendo mantido em segredo do público com relação ao Kellis-Amberlee.

A cientista, Dra. Kelly, que Shaun e Georgia conhecerem no ano anterior, no CDC, trouxe dados e estatísticas alarmantes sobre a morte de pessoas que possuem a chamada "reserva de vírus" no corpo. Algumas pessoas, quando expostas ao Kellis-Amberlee muito cedo, de alguma maneira, consegue manter o vírus controlado em algumas partes do corpo. Georgia, por exemplo, tinha uma condição na retina que a obrigava a usar óculos escuros o tempo todo, porque seus globos oculares estavam cheios de vírus ativo, mas que não a transformava em zumbi, nem infectava ninguém.

Shaun percebe que esta pode ser a forma de investigar o que houve com Georgia e o que essa mega conspiração global pretende. O livro é ultra hiper mega super detalhado como o primeiro, o que enche o saco na maior parte do tempo. Temos algumas reviravoltas interessantes e muitos dados técnicos que não foram jogados a esmo, eles fazem sentido e são bem explicados. Os zumbis continuam uma grande ameaça, mas o governo também se ergue como uma delas.

O que pega neste livro é que a autora pareceu não se decidir se fazia algo para surpreender o leitor com mega plot twists ou se fazia algo para que acompanhássemos a jornada dos irmãos, desde Feed, especialmente o final deus ex machina que, te deixa surpresa, mas depois você pensa: pra que?? Temos correria, infecções, levantes e investigação jornalística em meio a tantas surpresas, que no final a gente fica meio cansado de tudo aquilo.

Este final prende você para o próximo livro, mas o que mais decepciona em Deadline é a mente de Shaun. Seus colegas se acostumaram com a faladeira dele com sua voz imaginária e acho que até bem demais. "Ahh, legal, ele está conversando com sua voz imaginária, que coisa", e ninguém se preocupou com isso? Sério? Sem contar a repetição com que isso acontece. Depois de um tempo as conversas mentais dele cansam muito o leitor, porque são sempre as mesmas.

Pontos positivos
Ficção científica
Zumbis
CDC
Pontos negativos
O inimigo é muito óbvio
Detalhes, detalhes, detalhes
Muito longo


Título: Deadline
Trilogia Newsflesh
1. Feed
2. Deadline
3. Blackout
Autor: Mira Grant
Editora: Orbit Books
Ano: 2011
Páginas: 581
Onde comprar: Amazon

Blackout
Uma mega conspiração global envolvendo agências governamentais cresce diante de Shaun e sua equipe. Uma epidemia começou no sul do país após um furacão e o que é pior: de alguma maneira, o Kellis-Amberlee vem sendo transmitido por mosquitos e toda a região entra em uma quarentena. Shaun tem certeza que o governo e o CDC estão por trás disso.

Enquanto isso, Georgia está nos porões do CDC. Ela se sente um rato de laboratório com todos os testes feitos exaustivamente. Ela não tem mais sua condição de retina com reserva do vírus e tenta entender o que está acontecendo. É então que um técnico do turno da noite tenta ajudá-la ao contar os podres da conspiração governamental e que tentará tirá-la da instituição, pois o público conhece sua voz e seu site, eles acreditarão nela e em Shaun.


As duas narrativas se chocam aqui, com capítulos alternados, o que é bem legal. Mas Shaun, novamente, cai na mesma repetição sem graça do segundo livro, as mesmas conversas irritantes com a vozinha na sua cabeça, a mesma repetição de ações e vai e vem pelo país na van de notícias. Georgia é uma personagem sensacional, mas seu irmão é um teimoso espertão que atira antes de perguntar e nada disso muda em três livros.

Mas o maior problema da trilogia é que a mega conspiração, o grande problema que aflige o mundo e que gerou esse caos todo é completamente revelado no livro dois. Mira fisgou o leitor para o livro três com o final revelador e bombástico do segundo livro. Foi só por isso que eu quis ler Blackout. Nem mesmo a conspiração aqui convence, sobre as diversas cepas de vírus e o CDC tentando achar a cepa perfeita, etc. e tal. Os detalhes técnicos foram jogados aqui e ali, em meio às longas cenas de explicações repetidas e batidas dos dois livros anteriores.

A autora abusou do absurdo na trilogia. As revelações bombásticas sobre os irmãos não me convenceram. Eu fiquei pasma porque aquilo simplesmente não cola. Nem a conspiração. Nem como Georgia está viva. Nem como a revelação foi feita ao público. Feed funcionou espetacularmente bem e a autora poderia ter feito apenas dois livros e encolhido a trilogia para apenas duas obras. Pronto, ela ficava sucinta, direta, envolvente, um thriller médico e político, com zumbis. Não foi o que aconteceu aqui e temos um longo caminho para percorrer em Blackout, onde os personagens são extremamente parecidos, tirando Georgia e o fim... bem, é sem graça.

Pontos positivos
Georgia
Zumbis
Universo rico e bem descrito
Pontos negativos
O inimigo é muito óbvio
Shaun e os outros personagens
Muito longo


Título: Blackout
Trilogia Newsflesh
1. Feed
2. Deadline
3. Blackout
Autor: Mira Grant
Editora: Orbit Books
Ano: 2012
Páginas: 560
Onde comprar: Amazon


Ficção e realidade
Eu amo enredos que lidem com zumbis. Adoro a forma de abordar vários problemas humanos se utilizando dessa alegoria. Durante a trilogia, Mira conseguiu tocar em vários assuntos pertinentes, como o racismo e me fez lembrar a questão dos refugiados na Europa.

O racismo não morre simplesmente porque os mortos começaram a andar e há algumas pessoas que observam atentamente essas comunidades desalojadas em busca de sinais que mostrem que elas estão se voltando contra elas.

Deadline

Os enredos de zumbis também são uma ótima maneia de investigar a violência humana. The Walking Dead nos mostra como que pessoas comuns acabam se tornando assassinos tiranos e transformam as pessoas que antes acreditavam não ter forças para fazer o que era necessário. A sobrevivência humana nos torna engenhosos, como a trilogia Newsflesh nos mostra, que conseguiu se manter, apesar de tudo. O alerta da trilogia é que a natureza sempre se volta contra nós. Nós eliminamos o câncer e a gripe, não tem problema, podemos dar algo ainda pior para vocês.


Avaliação do MS?
Um enredo tão legal como esse merecia uma execução melhor. Georgia é uma personagem incrível, sua história não merecia uma trilogia que acaba descambando depois do primeiro livro. Seu irmão não consegue segurar a onda de liderar o site e as notícias que veiculam. O mega universo super detalhado criado por Mira Grant, no fim, pareceu embaralhado demais e sem propósito diante das mega surpresas que ela nos entrega e que não se sustentam. Três aliens apenas.



Já que você chegou até aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Ouvi falar de Feed na época da explosão de Jogos Vorazes em um post sobre "livros para ler após assistir Hunger Games". Me interessei, mas na época era impossível consegui-lo no Brasil. Para minha surpresa e decepção, descubro agora que na verdade se trata de uma trilogia. Já não tenho muito apreço por histórias de zumbi, porque são pouco inventivas e os dramas humanos se repetem, e saber que um livro que trata do assunto se estende em demasia em três obras me deixa com menos vontade de lê-lo. Estou muito ressabiado com trilogias e Mega Sagas, essa obrigação que as editoras impõe e que os autores se obrigam a fazer para prolongar o hype e os lucros provindo de obras, mas eu me tenho deparado com séries rasas, prolongadas ao infinito sem ter um conteúdo consistente, que invariavelmente decai no final do segundo pra finalmente decepcionar na terceira parte. Até considero ler mega sagas ou trilogias, mas boa parte da saga já tem de estar disponível e com acesso a análises.
    Talvez eu lesse Feed se soubesse que fosse somente um livro único, mesmo se tratando de história de zumbi, mas com essa extensão prolongada e com um personagem sabichão, terei que dispensar.

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