Colony e os povos conquistados

segunda-feira, abril 04, 2016

Colony é uma série de TV do canal USA. Estreou nos Estados Unidos em 14 de janeiro de 2016. A premissa é simples: o mundo foi invadido. Várias colônias foram criadas em grandes cidades, mas um imenso muro separa os vários bairros, estados inteiros também. Telefone, internet, transporte público, todas essas comodidades foram suspensas. Somente os telefones públicos nas ruas e linhas de telefonia fixa funcionam e as pessoas andam a pé ou de bicicleta, a menos que sejam do governo. Colony está fazendo a audiência norte-americana pensar sobre como é viver segregada atrás de um muro, dominada por uma força infinitamente superior.






O enredo gira em torno da família Bowman, que vive em uma Los Angeles colonizada. O casal Katie e Will, vivido por Sarah Wayne Callies (The Walking Dead) e Josh Holloway (Lost), tem três filhos, mas o menino do meio se perdeu da família com A Chegada, o dia em que a invasão começou, onde as defesas da cidade, e provavelmente do mundo todo, foram destruídas. Com a família incompleta, o casal sonha com o dia de poder atravessar o muro para poder resgatá-lo. Eles têm esperança de encontrá-lo vivo.

Will decide partir em uma perigosa infiltração em um caminhão que segue para o outro lado da cidade, dentro dos muros. Mas ao ser preso na tentativa frustrada, o governador da colônia lhe dá uma oportunidade de emprego. Will, que trabalha como mecânico, foi do Exército e agente do FBI. Sua função era caçar fugitivos da justiça. Ele deve trabalhar para o Departamento de Segurança Interna em busca de um terrorista e seus associados, chamado Gerônimo. A recompensa será trazer seu filho de volta.

Mas Katie trabalha justamente para o movimento de resistência que quer derrubar o muro e expulsar os visitantes, que não sabemos quem ou como são. Presumimos que são alienígenas, mas pouco ou nada se sabe sobre eles. Katie sente que deve fazer alguma coisa enquanto o filho não retorna. Temos então um cenário de conflito de interesses muito intenso, onde o casal tem o mesmo desejo, mas trabalham de maneiras diferentes.

Ao olhar para a imagem do muro, que manda drones para cada conflito ou tiroteio que acontece, que os envia todas as noites no toque de recolher, é impossível não pensar no muro que separa territórios palestinos de Israel. Impossível deixar de lembrar da invasão ao Iraque, da alienação da população, privada de direitos e sendo obrigada a obedecer uma força superior. Os produtores contam que várias inspirações estão presentes na série:

  • a invasão nazista em Paris, na Segunda Guerra Mundial
  • a Zona Verde de Bagdá, durante a Guerra do Iraque
  • as bandeiras expostas sobre prédios públicos, como os nazistas faziam
  • tropas de blindados protegendo prédios públicos em Cabul e Bagdá

A colônia tem um governador que mais parece um fantoche do que um líder, um departamento de segurança interna usado para defender os interesses dos visitantes e uma força militar opressiva e doutrinada chamada de Red Hats (e que morre mais do que os camisas vermelhas de Star Trek). Ninguém sabe com certeza, nem mesmo o governador, Alan Snyder, qual é a extensão da colonização. Ele sabe de algumas colônias na costa oeste do país, mas é só. No entanto, temos uma cena de uma Fábrica, um local usado para ameaçar os cidadãos das colônias que desafiam as autoridades, situada na Lua.

Katie e Will

Terroristas são julgados em praça pública e enforcados. Lembra do enforcamento do Saddam Hussein? Então, bem parecido. E terroristas são mortos e capturados, presos em correntes e expostos à população, como uma forma de lembrar quem é que manda. Cenários estes muito próximos da memória da população atual, mais jovem e consumidora de ficção científica distópica do que aquela que viveu na Paris dos anos 30-40. E, certamente, bem viva na mente das pessoas que vivem do outro lado do muro, como os palestinos.

Além de termos todas implicações de uma invasão, que sequer sabemos se foi por alienígenas, o que pareceria uma simples jornada do herói na figura de Will muda completamente quando sabemos que Katie trabalha para a resistência. O bloco de Los Angeles, onde as ações acontecem, está dividida pelo muro do resto da cidade e a área verde de Santa Mônica é onde residem os figurões do governo e gente rica colaboradora dos visitantes. Os cenários prováveis de escassez de alimentos e remédios existem. Uma personagem paralela, irmã de Katie, tem um filho diabético e insulina não é algo que se ache nas farmácias.

A cidade tem pôsteres que glorificam a ocupação ao lado de fotos de pessoas desaparecidas. Os figurões do governo estão autorizados a andar de carro e a usar os trens do metrô para se locomover, enquanto diz para a população que tudo que eles estão fazendo é para garantir a paz no bloco de Los Angeles. Possivelmente uma forma de parafrasear a invasão do Iraque, que pretendia destruir o país para introduzir paz e democracia.

Também temos estereótipos de gênero derrubados em vários personagens. A própria Katie é uma mulher que não apenas é mãe, esposa, dona de um bar e que quer o filho de volta, mas ela treme, tem medo, luta pelo o que acredita e ainda porta armas sob uma cidade ocupada e com mil olhos. Embarcamos em sua jornada mais do que na jornada de Will. Quantas pessoas teriam coragem de agir em situações tão adversas? A história nos mostra todos os dias o que a colonização forçada e violenta faz com os povos.

Um blindado dos Red Hats patrulha as ruas, mas o povo anda de bike

A série tem alguns momentos arrastados, mas o sucesso já levou à confirmação de uma segunda temporada. A primeira acabou uns dias atrás. Acredito que ela traga o entretenimento para aqueles que só querem isso, porém traz também uma reflexão importante do ponto de vista dos povos conquistados e subjugados. Essa visão costuma faltar se ela não está no eixo Estados Unidos-Europa.

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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James W. Harris