Resenha: Orleans, de Sherri L. Smith

quinta-feira, outubro 01, 2015

Orleans é uma obra que trata de mudanças climáticas e racismo de uma ótima maneira. A autora conseguiu criticar a estrutura racista da sociedade norte-americana e de quebra as mudanças climáticas ao transformar todo o sul dos Estados Unidos em uma área excluída do restante do país, isolada por um muro, esquecida do resto da sociedade. O muro no livro é uma alegoria, uma forma de mostrar de maneira concreta o preconceito com a região.



O livro
Uma série de furacões devastou a costa do Golfo do México, no sul dos Estados Unidos. Começou com o Katrina, em 2005. Por quinze anos, o delta do rio Mississipi é atingido por uma sucessão deles, um mais forte que o outro na Escala de Saffir-Simpson, sendo necessário criar um nível a mais para o furacão Jesus, em 2019, que deixou cerca de 10 mil sobreviventes e muito entulho. E claro, depois de tudo isso veio a Febre.


Primeiro, vieram os furacões
Depois a Febre
E o Muro

Os furacões destruíram boa parte da infraestrutura, do comércio, saneamento, tudo. As necessidades básicas não puderam ser atendidas. Praias se formam, mas não de areia, de concreto e entulho. Quando a Febre caiu sobre a região, o governo mandou médicos e equipes de pesquisadores para tentar avaliar a doença e busca uma cura. Uma das primeiras descobertas é que a Febre atingia alguns grupos sanguíneos com mais força, outros eram mais resistentes. Isso criou uma guerra por sangue e disputas de tribos que se dividiam pelo tipo sanguíneo.

O Muro foi erguido quando o governo percebeu que não teria condições de reconstruir o sul do país e nem tinha condições de curar as pessoas. Assim, um ato de separação foi assinado, um muro erguido e os estados de fora viraram as costas para Louisiana, Alabama, Flórida, Georgia e Texas. Nova Orleans se tornou apenas Orleans. Anos de isolamento criaram todo o tipo de mitos sobre o lugar. Até mesmo de que não haveria mais gente viva. Mas havia. Tudo foi adaptado, até o idioma.

Fen de la Guerre é uma O-positiva. Ela vive numa tribo no Delta, sendo a principal apoiadora da líder, grávida de 8 meses. Ela tenta costurar uma aliança com outra tribo e assim acabar com a colheita de sangue ao redor. No entanto, na noite da reunião, eles são atacados por outra tribo e Fen é obrigada a fazer o parto de uma bebêzinha que, por ser O-positiva, tem apenas uma semana antes da Febre se instalar nela. Fen precisa tirá-la de Orleans e mandá-la para fora do Muro.

Enquanto isso, Daniel é um cientista que estuda a Febre nos estados de fora. Ele está perto de descobrir uma cura, mas precisa entrar na zona de exclusão e conseguir acesso aos arquivos dos cientistas que foram para o sul a fim de tentar curar a Febre. Ele consegue se contrabandear para dentro do Muro e seu destino cruza com o de Fen, que o usa para se libertar de uma fazenda de sangue.

Eu já tinha visto fotos do que o Katrina tinha causado em Nova Orleans, mas fui procurar de novo enquanto lia o livro para tentar me ambientar ao mundo de Fen. E as imagens são bem chocantes. Num dos cemitérios mais tradicionais da cidade, os caixões começaram a boiar com a inundação. Carros de polícia e de resgate completamente cobertos e milhares de pessoas em estádios, sem água, comida ou acomodações adequadas. São fotos de corpos pelas ruas, boiando, gente ilhada no telhado com os filhos, cachorros, gatos, pedindo água e comida. Idosos ilhados em suas casas. Diques quebrados, ruas e avenidas intransitáveis, casas e prédios no chão.

Astrodome em Houston, Texas, depois do Katrina. Quinze mil pessoas. 

Muitas acusações de racismo foram feitas contra a polícia, o governo e as forças de emergência, já que a grande população do sul dos EUA é composta por negros. O grande lance de Orleans é mostrar o que essa política de exclusão social faria com todo o sul dos Estados Unidos devido aos desastres naturais. Refugiados ambientais aumentam pelo mundo, mas em Orleans as pessoas ficaram segregadas atrás de um muro. Foi uma grande discussão sobre racismo.


Ficção e realidade
Sherri escreveu sobre as experiências que sua mãe viveu em Nova Orleans, quando foi resgatada pelos Bombeiros antes das águas inundarem a casa. Ela também tratou do racismo como curiosidade científica e como uma desculpa para se isolar os estados do sul do resto do país. Ela descreve um cenário arrasado, 50 anos depois do furacão Jesus, onde a lama e as águas cobriram bairros inteiros. É preciso andar pelos telhados, com todo o cuidado para eles não cederem. Algo que muita gente se questionou na época: se o Katrina tivesse atingido Nova York, as autoridades teriam levado cinco dias para levar água ao Superdome, em Nova Orleans?

Nova Orleans, o dia seguinte ao Katrina

Fen é uma personagem crível. E acredito que baseada em pessoas que realmente lutaram para sobreviver no meio da inundação e que sofreram com a segregação por causa da cor de sua pele. Ela passa por diversas situações terríveis de abuso, de fome, de abandono. Sherri se usou de alegorias para mostrar o que as mulheres negras muitas vezes passam ao longo da vida, a solidão e a forma como são usadas. Sherri escreveu um cenário onde muitas mulheres se identificariam, o que deixa a obra um belo soco no estômago e um enredo distópico incrível.


Pontos positivos
Protagonista feminina
Amizade e companheirismo
Distopia
Pontos negativos
Partes mal escritas
TW: estupro


Título: Orleans
Autor: Sherri L. Smith
Editora: Putnam Juvenile
Ano: 2013
Páginas: 336
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Este não é um livro fácil de ler por toda a dor encontrada nele. O Katrina foi o evento real que impulsionou Sherri a escrever Orleans e é fácil perceber que há muito da autora ali, além de várias maneiras de discutir, por exemplo, gravidez na adolescência, racismo, mudanças climáticas. É uma pena que este livro não tenha chegado ao Brasil traduzido, mas se você lê em inglês, invista em Orleans. O inglês pode ser um pouco embolado, num primeiro momento, porque a linguagem da zona de exclusão mudou ao longo dos 50 anos de isolamento. Quatro aliens para o livro e uma recomendação para você também ler.


Até mais!

No dia 29 de agosto de 2005, o Katrina atingiu Nova Orleans com força e em seguida todos os estados do sul. Os diques de Nova Orleans, cidade que fica abaixo do nível do mar, se romperam e a água inundou 85% da cidade. As cenas são dignas de qualquer filme apocalíptico, mas são retratos da realidade e de tudo o que aconteceu naquele dia e nos dias seguintes.



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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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