Resenha: A História de Quando Éramos Peixes, de Neil Shubin

sexta-feira, setembro 18, 2015

Este livro é uma deliciosa aula sobre evolução e passado biológico do ser humano e de outras espécies. Neil Shubin, paleontólogo, narra com riqueza de detalhes a jornada que o peixe primitivo levou para se tornar o ser que somos hoje. Sim, você é um peixe modificado, assim como todos os animais terrestres e o autor demonstra isso pela análise de descobertas paleontológicas e com anatomia comparada.





O livro
Por muito tempo na história do planeta Terra - que tem 4.5 bilhões de anos - a vida esteve restrita ao ambiente aquático. Mas há 365 milhões de anos, os peixes invadiram a superfície, revolucionando seus corpos e o modo de interagir no ambiente. Fora da água muitas coisas precisam mudar, tanto para animais como para plantas.


A progressão da vida na Terra, quando observada pelo registro fóssil, apresenta uma consistência espantosa, nas próprias palavras de Shubin. É possível acompanhar os estratos e ver as mudanças nos corpos, acompanhando assim a evolução de espécies inteiras. Shubin foi um dos descobridores do famoso Tiktaalik, um animal que mostrava a transição entre água e terra, sendo intermediário entre o Panderichthys e o Acanthostega. Ao contrário do que poderíamos esperar de um peixe, o Tiktaalik tem a cabeça chata como um crocodilo, mas ainda apresenta características de um animal aquático, apesar de já possuir pescoço. Suas 'nadadeiras' já apresentavam ossos correspondentes aos braços, antebraços e até partes do punho.

Tiktaalik recebeu esse nome devido ao Território Nunavut do Ártico, onde foi descoberto, no Canadá. No idioma inuit, tiktaalik quer dizer "grande peixe de água doce"

É partir da descoberta do Tiktaalik que o autor começa a discorrer sobre a importância de se investigar não apenas os fósseis, mas também comparar genes e ver seu funcionamento em embriões. Existem genes sendo ligados e desligados o tempo todo, em todos os seres vivos, para membros e órgãos possam surgir com a especificidade de cada um. Nossos genes guardam a história evolutiva não apenas do Homo sapiens ou dos mamíferos, mas de todos os animais que evoluíram, viveram e pereceram. Stephen Jay Gould disse uma vez que não somos o ápice da evolução, somos seus sobreviventes.

Ao comparar nossos genes com os de uma mosca, por exemplo, as semelhanças genéticas estão sempre por perto.

A pergunta não mais é como podem ter surgido os corpos, mas por que não surgiram antes? (...) Um corpo é algo muito caro. Os corpos exigem ainda mais energia à medida que ficam maiores e quando incorporam grandes quantidades de colágeno. O colágeno demanda um volume relativamente grande de oxigênio para sua síntese e teria aumentado em muito a necessidade desse importante elemento metabólico de nossos ancestrais.

Quando identificamos essas múltiplas camadas de história em nossos órgãos, entendemos que somos simplesmente um mosaico de pedacinhos encontrado em praticamente tudo que existe no planeta.

É absolutamente espantoso e divertido ver toda a família de animais e ver as similaridades que temos com todos os animais viventes e extintos. Shubin conseguiu reunir um impressionante acervo de dados e fatos, sem tornar o livro maçante. Ele é de fácil compreensão e de manuseio e possui fotos, mapas e imagens que ajudam a ilustrar o que autor está dizendo.

Minha grande crítica é para com a tradução feita nas coxas. Existem partes em que as temperaturas estão todas em Fahrenheit e não em Celsius. Sério, isso não poderia ter ficado assim em um livro de divulgação científica. Algumas imagens também são bem pobres, quase amadoras, algumas muito pequenas. Este é um livro que merecia imagens coloridas tamanha a riqueza de informações que ele traz.


Ficção e realidade
Não é fácil para a maioria das pessoas enxergar todas as similaridades que temos com todos os animais do planeta. É por isso também que tanta gente abomina a Teoria da Evolução e chega a comparar com a religião, simplesmente porque não a entendem. Assim que os animais desenvolveram corpos complexos e, posteriormente, começaram a sair da água em busca da superfície, estes corpos foram evoluindo até chegar aos animais de hoje, incluindo o ser humano. Mas nossa raiz ancestral de peixe continua por perto.

Ao observar os embriões de diversas espécies, inclusive a nossa, é possível perceber que o arranjo corporal básico praticamente não mudou e que a herança do passado remoto ainda persiste em nosso DNA, ativando e desativando genes, sofrendo mutações. Mas o que fica deste livro e é algo que muita gente ainda não percebeu é que não deveríamos nos vangloriar de sermos especiais. Somos pertencentes à um planeta que viu diversas extinções, viu florescer todo o tipo de ser vivo e também os enterrou. Com a raça humana não será diferente.


Pontos positivos
Dados
Narrativa amigável
É divertido
Pontos negativos
Fahrenheit
Imagens de baixa resolução
Acaba rápido


Título: A História de Quando Éramos Peixes
Título original: Your Inner Fish: A Journey into the 3.5-Billion-Year History of the Human Body
Autor: Neil Shubin
Editora: Campus
Ano: 2008
Páginas: 191
Onde comprar: esgotado no fornecedor, mas você encontra em sebos. Comprei o meu online por 6 reais


Avaliação do MS?
Este é um livro de leitura obrigatória para todo aquele que tiver curiosidade de olhar para o passado e ver o quanto ainda guardamos dos nossos ancestrais aquáticos. Além disso, mostra o quanto estamos intimamente ligados a cada ser vivo que viveu e ainda vive através de análises genéticas e de anatomia comparada. Mesmo com os problemas da tradução e revisão, o livro merece um lugar na sua estante.

Até mais!



Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





Leia esses também...

0 comentários

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.
O mesmo vale para comentários:
- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.
A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.

Viajantes

Curta no Facebook

❤️


"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris