Resenha: Pense no Garfo!, de Bee Wilson

sábado, junho 06, 2015

Fiquei completamente fascinada por este livro! Eu o degustei aos poucos, pois ele tem tantas informações e curiosidades, a história de muitos dos elementos que temos em nossa cozinha que, de repente, você se pega observando sua própria cozinha com um outro olhar. Pegue seu fouet, sua tigela, seu descascador e se jogue nessa leitura deliciosa.



O livro

A cozinha pode ser um lugar violento. As pessoas se queimam, se esfolam, se ferem com o gelo e, acima de tudo, se cortam.

A grande maioria dos livros que tratam de culinária se foca nas receitas. Mas e a história por trás do que a gente usa na cozinha? Do fogo à geladeira, do garfo à colher, você sabe de onde veio o costume de usá-las? E por que as facas de mesa são todas quase cegas e sem pontas? Aposto que você não tinha reparado ainda nesse detalhe. Nem eu, pra falar a verdade.

Enquanto lia este livro maravilhoso, eu me pegava olhando as coisas pela cozinha e vasculhando a gaveta de talheres para comprovar o que estava lendo. E contava toda entusiasmada para minha mãe, à mesa, enquanto tomávamos café, que foi a geladeira a responsável pela expansão da rede elétrica doméstica, já que é o único aparelho da casa que precisa ficar ligado 24hs na tomada.


Bee Wilson reparou que quando esquecemos os utensílios de cozinha, perdemos metade da história da comida. É claro que o sabor é essencial, o modo como preparamos, os tipos de alimentos, mas sem os utensílios certos, seu bolo não tem nem como ser preparado, quanto mais assado. O garfo, um dos mais triviais objetos de uma mesa qualquer no ocidente foi, por muitos séculos, ridicularizado na Europa. Por que você ia querer botar dentes de metal na sua boca junto com a comida? Que disparate! Mas graças ao macarrão, na Itália, o uso de garfos se popularizou no Ocidente. Os alimentos que ingerimos revelam a época e o lugar em que vivemos.

O ato de cozinhar mudou os seres humanos profundamente. A simples adoção de uma panela para cozinhar alimentos salvou muitas vidas. Dez mil anos atrás, ninguém chegaria à idade adulta se tivesse perdido os dentes. Como mastigar carne crua, sementes e raízes sem a possibilidade de triturá-los? Quando os povos primitivos adotaram a panela de barro, puderam preparar alimentos com consistência mais maleável, como carne cozida, e bebível, como sopas e mingaus, que podiam ser ingeridos sem muita mastigação. Os primórdios da olaria em diversas comunidades da Antiguidade são considerados como uma revolução industrial, pelo modo como mudou a culinária e a vida das pessoas.

Quando pegamos nossa maior panela e fervemos um pacote de espaguete escorregadio, ou ligamos preguiçosamente a panela elétrica de arroz, ou mexemos uma polenta fervilhante com manteiga e queijo parmesão, estamos em comunhão com aqueles primeiros agricultores que aprenderam a encher a pança com alguma coisa macia e rica em amido, deliberadamente cultivada no campo e cozida numa panela.


É possível perceber pela cozinha das antigas sociedades se elas passavam por períodos de fartura ou não. A cozinha de uma panela só, como um caldeirão, é uma culinária de escassez: combustível, utensílios, ingredientes. É uma cozinha onde nada se desperdiça. Não é à toa que a comida servida em programas de amparo e redução à pobreza costumam vir na forma de sopas. Quando não há uma quantidade suficiente para distribuir para todo mundo, sempre se pode acrescentar mais água à sopa e deixá-la ferver.

A faca é o utensílio mais antigo no arsenal do cozinheiro, um ou dois milhões de anos mais velho que o controle do fogo, dependendo do antropólogo a que dermos crédito. (...) Domine uma faca afiada e você dominará a cozinha inteira. (...) Não se comia com a faca de outra pessoa, tal como hoje ninguém escovaria os dentes com a escova de um estranho.

O livro inteiro vem recheado de informação. Sabia que a Regra de São Bento, no século VI, alertava seus monges a sempre retirar a faca da cinta antes de se deitarem, para que não se cortassem durante a noite? Ahh! E sobre as facas de mesa serem cegas e sem pontas, a explicação vem do Cardeal Richelieu. Diz a lenda que ele ficou tão horrorizado de ver um dos convivas palitando o dente com a ponta de uma das facas da mesa que, no dia seguinte, mandou cegar e tirar as pontas de todas as facas do palácio.


Ficção e realidade
Bee Wilson também tomou o cuidado de mostrar como a cozinha sempre foi considerada um lugar perigoso para as mulheres e crianças. O índice de mortes de acidentes com mulheres na cozinha eram muito altos por causa das inúmeras saias e aventais que compunham seus vestidos e que pegavam fogo. Crianças se machucavam nas lareiras e fogos das cozinhas, brincando com panelas e caçarolas. Existiam até decretos absurdos como a do arcebispo Teodoro, da Saxônia, no século VII:

(...) se uma mulher puser seu filho pequeno junto à lareira, e se o homem puser água no caldeirão, e esta ferver e transbordar, causando ferimentos mortais na criança, a mulher deverá ser punida por sua negligência, mas o homem será eximido de culpa.

Como e por que usamos xícaras em nossas receitas, por que usamos colher de chá, por que os chineses usam somente a dao na culinária, como se mediam receitas sem relógios, por que a geladeira foi uma libertação da sazonalidade do consumo para ricos e pobres, tudo isso você encontra nestas deliciosas páginas. Lamentei quando a leitura acabou.


Pontos positivos
Delicioso
Explicações científicas
História humana
Pontos negativos

Acaba rápido


Título: Pense no Garfo! Uma história da cozinha e de como comemos
Título original: Consider the Fork: A History of How We Cook and Eat
Autor: Bee Wilson
Editora: Zahar
Páginas: 240
Ano de lançamento: 2014
Onde comprar: Amazon


Avaliação do MS?
Nada mais posso acrescentar a este livro além de LEIA! É uma viagem através do tempo pelos utensílios de comida, pela domesticação do fogo, pelo uso da geladeira e pela história dos talheres. Li poucos livros tão gostosos quanto este e sugiro fortemente que você também o leia. E volte aqui para tomar um café depois e me contar o que achou.


Até mais!

Já que você chegou aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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James W. Harris