Resenha: O Círculo, de Dave Eggers

sábado, fevereiro 14, 2015

Depois de ler um texto falando sobre as mídias sociais e dos exageros em nome da exposição e que sugeria a leitura deste livro, fiquei bastante curiosa e me coçando para ler. Acabei encontrando um livro que consegue nos mostrar um futuro muito próximo e bastante perturbador. Um mundo onde democracias são obrigatórias e onde privacidade é algo que deve ser combatido.





O livro
Mae Holland mal cabe em si! Ela vai começar a trabalhar no Círculo, O Círculo, um emprego que muita gente mataria para ter. Sua grande amiga da faculdade, Annie, conseguiu este emprego maravilhoso e Mae mal vê a hora de começar. A maior empresa de internet do mundo se situa em um campus idílico, maravilhoso e plenamente funcional na Califórnia. O Círculo unificou todas as redes sociais, serviços de email, transações bancárias e compras virtuais em um sistema universal.


Mae fica maravilhada, conforme é levada para conhecer o campus, com as construções, com as tecnologias ali desenvolvidas, com a civilidade, transparência e com a preocupação que O Círculo tem com seus funcionários. Ela fica sabendo, por exemplo, que uma das grandes inovações dele foi o TruYou, a unificação online de todas as identidades, virtuais e reais. Seu CPF, suas redes sociais, seus sistemas de pagamento em um só lugar. Foi o fim de todas as senhas diferentes, todos os sistemas diferentes. Como tudo era biométrico, você não precisaria nunca mais se lembrar de nenhum número.

Mae é logo treinada para trabalhar na EC - Experiência do Cliente - onde ela deve manter metas altas, próximas ao 100% de satisfação com os serviços dO Círculo. Ela também tem que fazer uma conta no Círculo e upar para a nuvem todas as suas fotos, arquivos pessoais, músicas, O campus possui festas diárias, jantares, eventos desenvolvidos pelos funcionários e palestras constantes. Isso pode parecer bem maçante inicialmente, porque é despejado no leitor de uma vez só. As primeiras cem páginas nos mostram a magnitude dO Círculo e por uma boa razão.

Um dia, Mae está trabalhando e é chamada à sala de seu imediato direto. Lá dentro um colega, que ela conhecia de vista, parecia desolado, com lágrimas nos olhos, e que a olhava como se ela fosse um animal em decomposição. Mae fizera algo de errado? Ela pensava que seria logo mandada embora, mas sem saber o que tinha acontecido. O problema foi que o colega chorão tinha feito um evento sobre Portugal e convidado todo mundo dO Círculo que tivesse ido ao país ou que gostasse dele. Mae tinha colocado em sua rede uma viagem para Portugal e quando ele fez uma busca por usuários que tivessem mencionado Portugal, a convidou imediatamente. Mas como Mae não compareceu ao evento - ela não verificou a caralhada de notificações e zings, e sorriso, e carinhas felizes na rede - ele se sentiu pessoalmente atingido.


Eu fiquei absurdamente espantada com tamanha mágoa deste personagem só porque Mae não compareceu ao seu evento sobre Portugal. Mas não precisei ir longe para ver uma reação igual ou bastante semelhante fora do livro. Minha mãe faz crochê, bordado em ponto-cruz e tricô e participa de vários grupos deste tipo no Facebook. E são constantes suas reclamações sobre o comportamento de algumas usuárias. Elas chegam neste grupos dizendo que é aniversário delas e que querem os parabéns. E quando têm poucas curtidas ou poucos comentários, elas se dizem ofendidas, que nunca se sentiram tão humilhadas na vida, que vão sair do grupo...

Se para nós O Círculo parece algo absurdo pelos eventos que acontecem em suas páginas, devemos nos perguntar: será que ele está tão longe assim no futuro? Também é impossível não notar os paralelos com 1984, de George Orwell quando O Círculo estipula suas leis:

Segredos são Mentiras; Compartilhar é Cuidar; Privacidade é Roubo. 

Mae é rapidamente convertida e subvertida pelo O Círculo. Como se não bastasse ter todos os seus arquivos na nuvem, acessível para qualquer, seus dados médicos são também domínio público. Um dos fundadores lhe apresenta esses "dilemas" sobre privacidade e sobre a falta de compartilhamento e participação nos eventos da empresa de forma que pareça absolutamente natural que a gente não tenha mais nenhuma privacidade. É uma lógica irritante e bastante errada, mas que Mae abraça e se joga.

Isso a afasta de todo mundo. De seus pais, seus amigos, ela passa a dormir no campus e carrega uma câmera por boa parte do dia - ela é Transparente, ou seja, sem segredos - e tem milhões de seguidores pelo mundo, assinando seu feed. Ela não compreende como que alguém pode não gostar de estar nO Círculo, como pode não gostar de um zing ou sorriso do outro lado do mundo.

O livro é repleto de cenas insólitas como a do carinha de Portugal. E uma das mais absurdas que o livro relata é quando Mae mobiliza seus seguidores a achar um amigo que cortou toda e qualquer relação com ela. Os seguidores o encontram com bastante facilidade e ele sai em disparada com seu carro pela estrada, querendo ser deixado em paz. Mae ainda lhe diz "Você está entre amigos aqui". E ele... morre. Amigos? Sério mesmo? Teve momentos em que eu queria sacudir Mae pelos ombros para tirá-la daquele torpor ridículo, fazê-la sair da hipnose.

Ficção e realidade
Enquanto eu lia O Círculo, uma das frases me deixou atônita:

"Aqui a Democracia é obrigatória!"


Dita entre sorrisos e muita expectativa, como se fosse uma festa. O Círculo pretendia criar um sistema chamado Demoxie, onde as eleições presidenciais, qualquer tipo de eleição, todas seriam feitas pelo Círculo. Mas peraí... como que uma democracia pode ser obrigatória? Como podemos confiar num sistema desses, em que somos obrigados a abrir nossas vidas, nossas fotos, nossos relacionamentos, nossa vontade de participação política?

Logo que li essa frase, eu a marquei no Kindle e o aparelho me dá a opção de compartilhar nas redes sociais. O que eu fiz, de tão atônita que a cena toda me deixou. Mas depois fiquei parada, o Kindle na mão, pensando se eu era tão diferente de Mae quando ela mandava zings e sorrisos para seus seguidores ao curtir alguma coisa. Um dos personagens diz que O Círculo não pode se fechar, pois estaríamos fadados ao terrorismo da vida controlada por um poder opressor. Isso me fez lembrar 1984 imediatamente. A diferença é que o Partido nos convertia à força. NO Círculo, nós entramos de boa vontade.


Pontos positivos
Crítica às mídias sociais
Protagonista feminina
O Círculo
Pontos negativos
Partes maçantes
Capítulos arrastados



Título: O Círculo
Título original: The Circle
Autor: Dave Eggers
Editora: Companhia das Letras
Ano de lançamento: 2014
Páginas: 528
Onde comprar: Amazon


Avaliação do MS?
Em parte, o livro é uma distopia opressora como 1984. Por outro lado, ele também ironiza a vida high-tech dos fãs do Vale do Silício e dos usuários ininterruptos das redes sociais. A geração Google tem em O Círculo sua expressão máxima, exacerbada e exagerada para mostrar um possível caminho futuro caso as redes comecem a substituir cada passo da vida social das pessoas. Como será um mundo sem segredos, sem privacidade? Pessoas que queiram ficar fora disso serão deixadas em paz ou serão obrigadas a ter contas em uma rede social para serem consideradas cidadãs? Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para que você leia também.


Até mais!



Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





Leia esses também...

1 comentários

  1. Esse é um livro que me deixou zureta da cabeça. Mesmo com suas partes cansativas, que eu pedia pra terminarem logo, ele atiçava minha curiosidade para saber as reflexões de um futuro não muito distante do real e suas consequências.
    É um livro super recomendado. E que curte filosofia relacionada com tecnologia deve ler.

    ResponderExcluir

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.
O mesmo vale para comentários:
- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.
A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.

Viajantes

Curta no Facebook

❤️


"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris