3 coisas que você deve saber antes de escrever protagonistas femininas

quinta-feira, novembro 13, 2014




A mulher na literatura, seja como personagem, seja como escritora, ainda sofre com preconceitos, com um mundo dominado por editores e escritores homens, por um público leitor masculino que ainda se recusa a ler livros que foram escritos por mulheres ou que possuam protagonistas femininas. É por isso também que, muitas vezes, as personagens femininas não nos representam sob nenhum aspecto.

A percepção do gênero
Dificilmente me sinto representada em livros escritos por homens. São raras as exceções em que consigo uma ligação com a personagem ou personagens, porque elas costumam estar carregadas de estereótipos de gênero. Uma das primeiras coisas que acaba com uma personagem feminina é a falta de cuidado ao descrevê-la. Em geral, o autor homem descreve sua personagem de forma provocativa e sedutora. O corpo dela é destrinchado em partes sensuais para o leitor, num relato da fantasia do autor que a imaginou daquela forma. Isso mostra que ele não entende coisa alguma do pensamento de uma mulher para com seu corpo.

Em geral, eles também não entendem o funcionamento do corpo feminino. Menstruação parece ser um tabu para os autores. As mulheres nos livros deles não menstruam, não peidam, não arrotam, não têm cólica, não têm orgasmos (e quando têm são, muitas vezes irreais), têm filhos em processos que são lindos e utópicos, nunca passam pelo puerpério, não têm diarreia, e por aí vai. Se gostam de sexo, são ninfomaníacas, se não gostam, são monásticas. Quando elas apresentam alguma coisa, essa coisa é apresentada como uma "desculpa" para evitar alguma ação, sexo com o protagonista, muitas vezes, mas não é demonstrada como algo natural do corpo dela. Ou seja, são mulheres irreais.


Mulheres, dificilmente, são amigas de outras mulheres na literatura, como se nascêssemos para competir umas com as outras, em eternas picuinhas e intriguinhas para arruinar a festa do casamento da outra, roubar o namorado da outra, se vingar por alguma razão. Por favor, parem. Mulheres podem muito bem sim ser amigas e muito unidas, pois essa cultura de competição entre as mulheres é um traço cultural desastroso e que não serve para nada além de causar desafeto e muita tristeza. É horrível ter uma amizade que compete com você sobre tudo. É possível ter amizades verdadeiras, não caia nessa lenda urbana.

Diferenças são só diferenças
Um dos grandes problemas dos autores ao criar suas personagens femininas é se utilizar de conceitos, preconceitos e estereótipos negativos sobre as mulheres. O conceito de que "mulher é o sexo frágil" é uma das maiores mentiras utilizadas para criar personagens, pois isso implica que, muitas vezes, ela precisa de um personagem masculino para realizar qualquer coisa. Diferenças entre um sexo e outro, entre um gênero e outro não podem ser gradientes de valor na hora de compor uma personagem. É possível utilizar diferenças, principalmente, para enaltecer desigualdades e criar cenários verossímeis, mas eles não podem pesar sobre uma personagem feminina de maneira a impedir seu bom andamento na trama.

Se uma mulher malhar e pegar peso na academia, ela pode ser tão forte quanto um homem, então a justificativa de que os homens são mais fortes fisicamente cai por terra. É preciso pensar, especialmente em cenários futuros, que os estereótipos negativos e as barreiras que impedem a igualdade entre homens e mulheres já caíram, então não convém utilizar-se dos mesmos atributos para personagens.

Se analisarmos muitas obras de ficção científica, como Fundação, de Isaac Asimov, vemos bem como as mulheres tinham papéis secundários na trama. O primeiro livro de Fundação, se não me engano, tem uma ou outra criada, o resto são todos os homens. Aconteceu alguma guerra gênica que eliminou quase todo o cromossomo X, ou autor não se preocupou com o papel da mulher no seu cenário?

Os estereótipos sexistas
Protagonistas femininas ainda carregam boa parte da emoção nos enredos. Elas são "irracionais e emotivas", são mais "sensíveis". E aquelas que são mais frias, racionais e determinadas são, normalmente, equiparadas a homens ou masculinizadas. Os estereótipos masculinos como o garanhão, o salvador da galáxia, não costumam incomodar tanto, são meros detalhes inerentes aos personagens.


Mas os femininos são prejudiciais, pois ficamos relegadas a posições secundárias, como se não fosse possível ser sensível, mas racional, como se as pessoas fossem unilaterais em todos os aspectos. Isso é preconceito de gênero e cai, pesadamente, sobre as mulheres porque ele quase não sofre alterações de um livro para o outro.

Quem quiser preservar a moral arcaica e embolorada de uma sociedade machista pode fazer isso, mas esse autor não está prestando atenção ao mundo que o cerca, nem nas pessoas que o rodeiam. Mulheres hoje compõem grande parte do público leitor no mundo (cerca de 80% dos leitores de ficção são mulheres) e ainda somos mal e porcamente representadas na literatura. Será que convém permanecer neste sistema?

Estereótipos que pareçam até benignos para alguns são um sintoma de sociedade machista e patriarcal, como mulheres em casa cuidando dos filhos e da casa e que sai de madrugada para salvar a cidade de bandidos. O exercício é simples: se sua protagonista, ao trocar o sexo, continua foda, você fez um bom trabalho. Se os estereótipos jogados sobre ela ficaram ridículos em um homem, você fez merda.

Segundo a Enciclopédia de Ficção Científica:

Quando mulheres aparecem na ficção, em geral, elas são definidas por seu relacionamento com o personagem masculino, como objetos de desejo ou para serem temidas, resgatadas ou destruídas. Em tempos em que a sexualidade está mais explícita, elas aparecem para validar a masculinidade do protagonista, que é definitivamente heterossexual.

Longe de mim querer mandar na escrita de alguém, mas ver a perspectiva do outro na hora de escrever, especialmente em se tratando de personagens femininas, é necessário. Quando já se é bem representado na literatura, no cinema, na TV, reparar no outro é um trabalho difícil, mas que precisa ser superado.

Até mais!

Leia também:
Mulher e literatura
25 things to know about sexism & misogyny in writting & publishing
Are Book Publishers To Blame For Gender Discrimination?
A woman's place



Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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4 comentários

  1. Eu amo ficção científica e ao mesmo tempo não sou grande consumidora de livros e filmes do gênero, justamente porque acho bizarro que se construa todo um universo incrível com 437 mil homens e 1 mulher. É uma proporção muito sem noção. Ninguém fala pra onde elas foram, onde elas estão, se elas existem. E mesmo quando tem uma mulher foda, bem construída, que pensa por si e não serve de alavanca de afirmação masculina, ainda assim é uma personagem meio solitária no meio de um monte de homens. Parece que está preenchendo uma cota obrigatória.
    Achei massa suas observações e diria que só faltou uns exemplos. hahaha Não que eu queira causar intriga, mas acho interessante pra se pensar, mesmo assim. Porque até filmes que as pessoas indicam como tendo mulheres incríveis, eu consigo identificar facilmente essas características que você apontou tão bem. ^^

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  2. É,minha co-protagonista ficou boa como homem também(mas se quiser me dizer você mesma:é uma historia de sci-fi,ela é fria por causa de um trauma na infancia.Por mais que goste do protagonista,evite ajuda-lo diretamente por que teme pelo seu filho,a quem ama mais do que tudo.No entanto,ela foi a direta responsavel por ensinar ao protagonista tudo o que ele sabe,como lutar e se defender.Sua melhor amiga é uma dançarina chamada Kathy.

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    1. Dependendo da forma, isso de ela ser fria por causa de um trauma de infância pode soar como un esteriótipo também. É muito comum escreverem uma protagonista que é forte pq sofreu algum tipo de violência, isso acaba quase que justificando a violência. No caso de violência sexual por exemplo, não é como se o tempo passasse e a pessoa absorveu aquele trauma e se tornou maia forte. É uma brutalidade que as vezes vai deixar cicatrizes incuráveis no personagem, ai seria legal descrevê-lo como alguém que,apesar do trauma é forte, e não que é forte por conta do trauma.

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James W. Harris