Resenha: Eva, de Anna Carey

sábado, junho 07, 2014

Eva é mais um livro YA (young adult) a chegar ao Brasil. E também é mais uma distopia. E também é mais uma distopia YA com uma personagem central que precisa sobreviver em mundo hostil e, de quebra, se apaixona. Mais uma fórmula repetida à exaustão, mais personagens mais do mesmo em uma obra mais do mesmo. Se estiver operando máquinas pesadas, nunca leia esse livro.



O livro
E mais uma vez temos uma obra falando sobre um vírus mortal que aniquilou quase toda a raça humana. Surgiu então um novo país, sob as ruínas do anterior, chamado Nova América, governada por um rei que determinou a total segregação entre homens e mulheres. As meninas vão para uma escola, para aprenderem uma profissão, enquanto os meninos são mandados para um campo de trabalhos forçados. Isso eu já achei errado e até meio bizarro para uma distopia, onde você tem que reerguer a humanidade. Para que segregar?


Mas enfim. Numa dessas escolas para meninas temos Eva, a aluna mais aplicada, mais inteligente, oradora da turma, aquela que muitas odeiam por sempre ser a melhor em tudo. Ela e suas amigas estão prestes a mudar de prédio, indo para uma nova etapa de seu aprendizado, onde devem aprender um ofício, para daí partirem para a cidade onde serão úteis para a reconstrução da civilização. Mas Eva, então, percebe que uma das colegas, a arredia e metida Arden, está se preparando para fugir. Justo na véspera de saírem da escola e irem aprender uma profissão essa resolve acabar com a festa. Mas Arden manda que Eva abra os olhos. Elas não vão estudar, elas se tornarão parideiras presas à uma cama, dando à luz todos os anos para repovoar o país.

À noite, Eva sai da cama, pula a janela e se esgueira até o prédio próximo. Quando olha pela janela, percebe que Arden tem razão. Ela viu a turma do ano anterior presa a camas, barrigas imensas, chorando e se debatendo. Assustada e temendo esse lugar, ela volta para a escola, onde é pega no corredor. Para sua sorte, uma das professoras a ajuda a fugir. Ela pega uma mochila, alguns poucos pertences e segue pela floresta rumando para um conhecido campo de refugiados, quilômetros dali.

O que Eva aprendeu em tantos anos de estudo só a atrapalham. Na escola, ela aprendeu que todos os homens não prestam, que são ardilosos, que só querem sexo e vão usá-la indiscriminadamente para depois largar. Que amor é uma coisa perigosa e suja, que desvirtuará sua mente. Ela teve aulas sobre como os homens usavam de subterfúgios para iludir as mulheres e como isso era perigoso no passado. Tanto que o primeiro rapaz que Eva conhece, ela logo o acusa de querer ter sexo com ela. O rapaz, Caleb (por quem ela se apaixona e deseja ardentemente e por quem acaba cometendo uma cagada homérica perto do final) cai na risada. Ele, então, resolve ajudar Eva e sua colega Arden - que tinha fugido e se refugiado na floresta - e as leva para um acampamento só de meninos fugidos de campos de trabalhos forçados. E o romance, praticamente, toma conta da narrativa a partir daí.


O que eu não entendo é por que diabos um rei vai segregar meninos e meninas numa sociedade que está devastada por um vírus. Sério, isso não fez sentido para mim. Tratar ambos de maneiras desumanas é dar munição para uma futura revolta e até uma guerra civil que pode tirá-lo do poder. E se ele é homem, todas as mulheres que crescerem neste sistema o verão da mesma maneira que sempre ouviram: vil, mau, ardiloso, praticamente um estuprador em potencial. Achei uma baita contradição, pois a escola ensina que homens não prestam, menos o rei (oi?).

E aqui também critico uma cena deplorável em que Eva quase é estuprada por um dos rapazes mais velhos do acampamento masculino: Caleb pega o ato quando a ouve gritar por ajuda. E ele a culpa, achando que ela estava desejando o cara!! (exclamações infinitas). Este foi aquele momento #facepalm em que eu falei "CA-RA-LHO! Como que essa autora coloca uma merda dessa na narrativa?" Olha que cena ~genial~: o cara pega um colega de acampamento tentando estuprar a moça por quem está apaixonado. Ele tira o cara de cima dela, mete a porrada nele, mas aí ele vira e olha para Eva e tem a capacidade de perguntar se ela estava querendo o ato?? Como ela não consegue responder direito - por que né?, ela quase foi estuprada - ele sai do lugar, puto, e desaparece. Será que ela não precisa de ajuda, um conforto emocional, um copo d'água?? O que essa autora andou bebendo enquanto escrevia a cena?? Ela balbucia um "não sei" porque se sentia culpada pelo o que quase aconteceu.

Lembra que eu comentei sobre a cagada homérica que Eva comete? Por causa de Caleb ela entregou um esconderijo rebelde e levou à morte 3 pessoas. E por que, você pergunta? Tudo para pedir desculpas a ele pelo o quase-estupro que ela sofreu, porque Eva se sente culpada por talvez, quem sabe, pode ser?, ela tivesse algum sentimento por Leif, o rapaz que quase a estuprou. Eva é ingênua, é idiota, é jovem, mas acho que aí já foi demais. Ela não pediu um estupro em nenhum momento, a culpa nunca foi dela. Ahh, não contei também que no meio desse imbróglio ridículo, o Rei todo-poderoso a quer. Por que? Sei lá, mas quer. ~Genial~.

Ficção e realidade
Tirando os eventos sem noção do livro - que é muito ingênuo praticamente o tempo todo, destilando estereótipos, tanto masculinos quanto femininos - temos mais uma distopia, mais uma vez causada por um vírus mortal. Temos também um povo tentando se reorganizar, por mais ridícula que tenha sido essa tentativa. Como este livro é o primeiro de uma trilogia, talvez a autora explique que decisão demente foi essa de segregar a população, mas não consigo ver essa separação em um mundo pós-apocalíptico de verdade, onde precisaríamos ter cooperação.

Pontos positivos
Personagem feminina
Distopia

Pontos negativos
Sobrevivência fica de lado
Namorico
Final óbvio

Título: Eva
Autora: Anna Carey
Editora: Galera Record
Ano: 2013
Páginas: 288
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Olha... se depois de tudo o que eu disse acima sobre esse livro tão bobo você ainda quiser ler, é por sua conta e risco. Ele é curto - ainda bem - então a leitura acaba rápido e flui igualmente rápido. Mas se você tiver coisa melhor para ler, é melhor deixar esse aqui de lado.


Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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