Resenha: Homem-Máquina, de Max Barry

sábado, maio 10, 2014

Topei com este livro sem querer. É aquele caso em que o título chama a atenção, as resenhas falam bem dele, a capa é interessante e quando você vê, já está lendo. Este é o quarto romance de Max Barry, um escritor australiano, e foi bastante elogiado pela crítica e pelos fãs de ficção científica. O interessante é que o autor construiu a narrativa com a ajuda dos leitores de seu blog.



O livro
Um homem desesperado por seu celular. É assim que o livro começa. O personagem principal, cujo nome só conhecemos mais tarde, Charles Neumann, acorda e já estica o braço para pegar seu celular. Mas não o encontra. Desperto e preocupado, ele começa a tatear pela cama, pelo chão, olha embaixo da cama, vai nu para a sala, vasculha o sofá, vai nu para a garagem, volta para o quarto, mas nada do aparelho. É interessante ver a reação de desolação que o acomete simplesmente porque não acha o celular. Dessa forma, ele não tem noção de nada, nem do tempo, nem da hora, nem sua agenda. Nada. Ele se sente um completo analfabeto sem o aparelho.


Charles é engenheiro em uma empresa chamada Futuro Melhor. Sua capacidade de socialização é zero e a capacidade de ter relacionamentos românticos é abaixo de zero. Sua cabeça funciona a base de cálculos, sistemas e engenharia, socialização não é seu forte. O que notamos de cara é que Charles é um tremendo de um egoísta, egocêntrico, chato e tremendamente metódico (me parece alguém familiar). Você não simpatiza com ele, Charles faz questão de manter as pessoas afastadas.

Quando ele chega para trabalhar naquela manhã sua preocupação é tanta com seu celular que mal vê quem está ao seu lado ou se seus assistentes estão no laboratório. E é por causa dele que Charlie sofre um acidente e perde uma de suas pernas. Um acidente terrível. Foi preciso amputar do final da coxa para baixo. Mas você pode pensar que ele ficará deprimido, chateado, certo? De início ele fica mesmo, mas depois de conhecer Lola Shanks, fisioterapeuta que o ajudará com a prótese e depois de voltar ao trabalho, Charlie percebe as vantagens de ter uma parte mecânica em seu corpo.

Logo, utilizando uma perna avançada, dotada de um chip e um sistema quase automático, ele percebe as limitações orgânicas de seu corpo. Tudo o que é orgânico em seu corpo parece antiquado, defeituoso, sem eficiência. Empenha-se em construir uma nova perna, muito melhor que sua prótese atual, com tudo o necessário para ser hiper eficiente. Então, ele decide extirpar a outra perna, já que reparou que a perna mecânica funcionava muito melhor, enquanto a outra, a orgânica, o atrapalhava.


Todo mundo achou que ele estivesse louco, com tendências suicidas. Mas quando ele deixou claro que sua intenção era melhorar seu próprio corpo, a empresa achou a ideia genial e investiu pesado em um segmento novo de produtos para melhorar o corpo humano. E Charlie tinha tudo a seu dispor, com mão de obra e dinheiro. No entanto, o que você logo nota é que Charlie não liga a mínima para as outras pessoas. Sua única preocupação é consigo mesmo, portanto ajudar aos outros não é uma opção. E ele é detestável. Que personagem detestável. E talvez seja isso que segura o livro em vários momentos, sua chatice, egocentrismo. Mesmo amando alguém, ele não pensa nessa pessoa quando suas melhorias estão em jogo.

O livro corre bem em vários momentos, mas por alguma razão o autor decidiu colocar blocos imensos de texto que quebram a narrativa quando ela vem correndo super bem. Achei desnecessário quebrar o ritmo e isso pode incomodar alguns leitores. Também achei o final um tanto fora de propósito, deslocado do enredo em si. Se fosse diferente, poderia ter coroado o final de um bom livro.


Ficção e realidade
É interessante notar a necessidade de se melhorar do personagem. Ele encara tudo pela abordagem sistêmica, não enxergando as diversas camadas sociais que o rodeiam. Vemos como ele se torna obcecado pelas melhorias, sendo que tudo começou com um celular perdido. Quantas pessoas você já viu dando um piti por estarem sem internet ou sem um celular, ou tablet? Estamos vivendo um momento onde os gadgets estão em toda a parte, desejados e vendidos aos montes. O livro mostra uma etapa seguinte. Imagine ter braços fortes, com wifi, GPS e uma inteligência artificial? Hoje a coisa toda pode parecer estapafúrdia, mas as coisas andam mudando depressa. É algo a se pensar.


Pontos positivos
Ficção científica
Personagem detestável
Universo robótico
Pontos negativos

Final poderia ser melhor
Alguns diálogos grandes demais

Título: Homem-Máquina
Título original: Machine Man
Autor: Max Barry
Ano: 2012
Editora: Intrínseca
Páginas: 284
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Gostei muito do livro. Apesar de ser narrado em primeira pessoa, ele não é cansativo ou monótono. Conhecemos alguns fatos da vida pessoal de Charlie e como ele chegou ao homem que se tornou. Ele é chato, detestável, nojento em vários momentos e talvez esse seja o aspecto mais marcante do personagem. Os outros personagens ficaram meio borrados, como se o autor não tivesse se preocupado em trazer mais detalhes sobre eles. E tirando a parte dos grandes blocos desnecessários de texto, o livro não chateia, a narrativa flui super bem. O final não me agradou, mas pode agradar a você.


Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





Leia esses também...

0 comentários

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.
O mesmo vale para comentários:
- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.
A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.

Viajantes

Curta no Facebook

❤️


"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris