Fake nerd e por que isso é uma merda

terça-feira, abril 08, 2014

O universo nerd cansa, sabe? Mas cansa mesmo, especialmente pelo o fato de ele ser dominado por homens. Nem tanto por homens, mas por bebezões da mamãe que adoram classificar mulheres nerds do jeito que eles acham que é correto. São eles que reclamam da ~friendzone~, que reclamam não encontrar namoradas nerds, mas reclamam de moças fazendo cosplay ou querendo participar do clube. Morrem de medo de "perder" privilégios e assediam e ofendem moças nerds. Isso já deu no saco.





Ser mulher também cansa. Afinal, somos medidas e classificadas desde que o mundo é mundo. Todo mundo já ouviu falar do "mulher pra casar, mulher pra transar", certo? Todo mundo já proferiu, em algum momento da vida - assim como eu também já fiz - que "mulher tem que se dar o respeito". Estes são só alguns exemplos de merda machista que infectam a sociedade e reduzem mulheres a meras coisas, sem conteúdo, que precisam fazer algo para ganhar respeito de outro, quando respeito deveria ser um conceito universal, empregado a todos.

No universo nerd, a coisa só piora. Meninas são acusadas de serem fake nerds ou para conseguirem namorados ou para se exibirem. Moças são hostilizadas em eventos por usarem roupas colantes e sensuais ao fazerem cosplays, sendo que estas personagens já usam roupas sensuais e coladas no desenho original (muitas vezes feito por homens). Nossos gostos são sempre relativizados, como se soubéssemos de menos ou tivéssemos aprendido algum dado sobre uma série ou filme apenas para impressionar o namorado nerd. Mais uma vez, somos vistas como coisas vazias, sem gostos, sem preferências, apenas preenchendo os requisitos para conquistar um macho nerd.

Nerd girl, por Valerie Gomez.

Sério, já deu no saco isso. Que pessoa gostaria de ser julgada e avaliada se sabe muito ou não de assunto para só aí ganhar respeito? Por que sempre exigem carteirinha de milhas de moças nerds? Vocês fazem isso com os colegas machos do grupo? Saí de um grupo de ficção científica no Facebook, pois tinha a nítida impressão de preencher cotas para mulheres ali dentro. Era eu abrir a boca para fazer um comentário, surgia alguém para vir me explicar alguma coisa em tom paternalista, como se eu não entendesse de nada do que dissesse. Já me deram aulas de cartografia no Twitter e outro dia de "preconceito" contra criacionistas. Volta e meia aparecem comentários aqui no blog para tentarem me ensinar alguma coisa que já estou careca de saber.

É muito chato ir à uma loja, pedir um quadrinho, um livro ou um game e ter que ouvir do atendente: "É pra você ou pro seu namorado?". Vi um rapaz que se dizia nerd dar um piti quando eu disse que mulheres são excluídas do cenário mainstream de quadrinhos, já que somos sempre retratadas como peitudas e vazias. E que seria muito bom que este cenário pudesse incluir mulheres e retratá-las de maneira mais realista. A resposta que eu tive? Que nós devíamos produzir um conteúdo diferenciado e deixar o mercado mainstream, afinal ele não vai mudar mesmo por nossa causa. Por que não? Ele, como fã de heroínas peitudas, está bem representado, e por que eu tenho que ficar com menos? Quando a MTV quis ampliar o gosto musical na programação, houve um escândalo por parte dos fãs mais antigos, mas ninguém mandou que abrissem um canal Pagode TV. Todos puderam ser representados em um canal de música, com música para todos.

Tire seu preconceito do meu caminho!

Houve o mesmo escândalo quando o Instagram lançou versão para Android. Quem são essas pessoas que acham que um aplicativo para smartphone perderá a qualidade só por que tem mais usuários? Que medo é esse de perder privilégios que certos grupos têm? Será que eles não enxergam que quando um grupo recebe direitos que eles sempre tiveram, eles não estão perdendo nada e sim agregando? Já disse isso antes e continuo repetindo: PRIVILÉGIO CEGA. E vá dizer para um fã nerd que ele está errado? Ele dá escândalo, da piti, como bebezão da mamãe com medo de repartir para somar e não para subtrair.

A nítida impressão que tenho é que alguns caras nerds preferem que suas namoradas sejam exatamente como a Penny, de The Big Bang Theory: gostosa, peituda e que não saiba nada do mundo nerd para que eles pareçam superiores ou para que pareçam os únicos sabichões do pedaço. Penny é mais uma moça infantilizada por um grupos de homens e hostilizada por seus gostos e por sua personalidade. E o cara que pensa assim é um grande otário. Se a mulher quiser fazer cosplay ou se ela só quer ir à loja e sair com a nova edição de seu quadrinho preferido, ela deve fazer isso sem ser molestada, assediada, agredida e ofendida por gente que não sabe respeitar o próximo. E isso também deve ser estendido para qualquer mulher, em qualquer lugar, em qualquer situação, seja ela nerd ou não.

Fake nerd é uma merda e tem que parar. Simples assim.

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A mulher na cultura nerd

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris