Por que você deve ler Jogos Vorazes?

Jogos Vorazes é uma das minhas trilogias favoritas na vida. Sei que muita gente torce o nariz por ser uma distopia adolescente e, francamente, não sei porque. Existem tantos temas importantes sendo trabalhados aqui que fico feliz por ver os adolescentes lendo sobre política e problemas sociais na literatura. Por isso, não podia deixar de escrever algumas linhas sobre a obra e porque eu acho que todo mundo deveria ler, especialmente a galera mais calejada de FC.





Tentei condensar os motivos para que todo mundo leia Jogos Vorazes baseado na minha experiência com eles. Li a trilogia duas vezes, vi e revi os filmes também várias vezes, consegui pescar o melhor e o pior da obra para poder falar um pouco disso. A obra é dividida em Jogos Vorazes, Em Chamas e A Esperança e os filmes estão seguindo mais ou menos o que ocorre nos livros, apesar de deixarem vários eventos de fora. Cada um tem um tom diferente e o final é não apenas surpreendente como também bastante triste.


Estes não são livros infantis ou de romance
Uma das coisas que mais me irritam quando falam de Jogos Vorazes é que estes livros são de menininhas, que falam de um triângulo amoroso, onde Katniss não se decide sobre Peeta e Gale. A verdade é muito mais profunda do que isso. Cada personagem dos distritos é um sobrevivente de um país que não deu certo, os Estados Unidos. Espoliado de recursos, uma revolta popular criou a Panem que vemos na obra, onde um governo repressor controla seus distritos com mãos de ferro e oferecem pão e circo em troca da obediência. O próprio presidente Snow diz que os Jogos Vorazes oferecem a esperança exata para manter o povo manso, enquanto torcem para um jovem saía vivo da arena, mas não é suficiente para que se revoltem contra o governo. A violência é necessária neste mundo que manda 24 jovens para uma arena mortal, mas não é o foco da obra. O foco é sobrevivência.

A realidade é que ninguém escapa dos Jogos uma vez que o vencem. Katniss tem essa visão no começo de Em Chamas. Ela acha que por ter vencido, salvado Peeta e voltado para casa tudo voltaria a ser como antes. Mas nada nunca mais será como antes. Como mentores, eles terão que ver jovens do Distrito 12 sendo escolhidos todos os anos, para o resto da vida, para treiná-los rumo ao massacre. Os Jogos mudam uma pessoa para sempre, basta ver Haymitch, o mentor do Distrito 12 que se tornou um alcoólatra, afundado nas dolorosas lembranças que resultaram de sua participação. Ou seja, amor e infantilização passam longe destes livros.


Protagonista feminina
Uma das principais e melhores coisas da trilogia é ter uma personagem feminina que foge dos estereótipos já conhecidos e manjados na literatura. Ela não precisa de um homem para ser salva, ela é corajosa, se põe no lugar da irmã na hora da colheita, pois sabe que Prim não tem condições de lutar na arena. Katniss precisou sustentar a família após a morte do pai e da depressão que atingiu sua mãe. Nos livros, a luta pela sobrevivência dela e da família são muito mais evidentes do que aparece no filme. São várias as vezes em que Katniss comenta sobre as costelas aparentes por causa da fome. E se ela não invadisse as florestas para caçar, a família padeceria.

Esta é a principal diferença para com Crepúsculo, que não sei porque cargas d'água foi imediatamente sinonimizado com Jogos Vorazes, quando na verdade a diferença é gritante. Mesmo que Stephanie Meyer tenha inventado uma disputa de poder pelo controle dos clãs de vampiros aos 45 do segundo tempo, não muda o fato que Bella precisa da presença de Edward para tudo, até para viver e se mostra uma personagem fraca e pretensiosa. Katniss não precisa de ninguém e, mesmo sabendo dos sentimentos de Gale e Peeta, ela reitera que isso é algo para o qual ela não tempo, afinal ela precisa proteger a família e toma decisões bem difíceis em todos os livros.


Leitura é fácil
A leitura é amigável e o primeiro livro começa rápido, sem muita enrolação depois da colheita dos tributos. Você logo está na Arena. Mas em alguns momentos a leitura pode se arrastar. Achei a escrita de Suzanne Collins bem falha em vários momentos, podendo ser mais intensa, mais bem conduzida e estranhei a demora que leva para o segundo livro, Em Chamas, começar quando comparado com o primeiro. Mas este início meio parado é uma fase necessária para compreender o que mudou na vida de Katniss quando ela volta para casa no final do primeiro livro. Vi muita gente comentando que largou a leitura nesta fase porque não aguentou a paradeira (especialmente fãs mais velhos de ficção científica, que foram os que mais torceram o nariz para os livros e para os filmes). Mas vá por mim, depois a coisa engrena.

A vida de Katniss sofre uma transformação necessária para os eventos que se seguem. Ela agora é uma celebridade, junto de Peeta, o casal que preferia morrer junto na arena a ficarem um sem o outro, quando na verdade aquele foi um ato de pura rebeldia e uma luta contra o status quo. É fácil perceber que status é algo que envaidece os moradores da capital, que tanto anseiam pelos jogos como os romanos ansiavam pelas lutas do Coliseu e faziam altas apostas em seus gladiadores favoritos. Mas é claro, não são eles que vão para a arena.


As reviravoltas
Os três livros sofrem grandes revezes que não ficaram muito intensos nas adaptações para as telonas. Especialmente no terceiro livro, A Esperança, o nome do livro parece não condizer com os eventos que ocorrem nele. Chega uma hora em que você acha que nada mais dará certo para ninguém. São obras densas de simbolismos como sobrevivência, família, amizade, luta contra o poder opressor de um governo que não vê problema em executar 23 adolescentes em um programa televisivo. Temos a jornada do herói, neste caso heróis, já que vemos muitos outros sobreviventes com problemas depois de passarem pela arena.

Muita gente pode achar que Jogos Vorazes é coisa apenas de adolescentes, mas tirando cenas de sexo, que não existem, as obras são muito maduras e violentas. Não fica devendo em nada para livros tidos como de "adultos" neste quesito. Temos sim personagens adolescentes, mas que trabalham, que caçam para sobreviver, que precisam pegar em armas para se libertarem da opressão. Muitos jovens se identificam com esta visão, pois vivem em ambientes semelhantes, precisando trabalhar, estudar e buscar seu lugar no mundo.


É um mundo distópico
Esta é uma distopia que mostra o que houve depois da reconstrução, depois da guerra, depois dos eventos que colapsaram os Estados Unidos como conhecemos. Não sabemos quantos anos nos separam destes eventos, mas é um futuro não tão longe assim. Em geral, as distopias são mostradas durante o evento em si, mas aqui eles encontraram um jeito de se reconstruir, mesmo que com base na violência e na execução de adolescentes para podar os sentimentos da população e mostrar-lhe seu lugar. Temos um poder opressor que se sente confortável com a situação e que não estava preparado para a rebeldia com as amoras de Katniss no final do primeiro livro.

A partir daí, temos um governo que enrudesce o tratamento com a população, vendo que pode perder seu controle. Mas nem tudo funciona como o previsto para ambos os lados. Neste sentido, foi uma sacada genial da autora em mostrar que nem todos ali estão certos. Temos uma disputa de poder entre pessoas que não são idealizadas, são pessoas mais reais, com seus defeitos, com seus problemas, onde nem tudo dá certo. Tal como a vida real.

Por esses motivos, acho que já fica claro que é necessário ler os livros da trilogia para entender que, o que aparece nos filmes, é muito menos do que temos nas páginas. Quem ficar apenas nas telonas, realmente, está perdendo metade da trama e da densidade que eles têm. Por isso, leia. A trilogia vale muito à pena.

Até mais!

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