O que é ficção especulativa?

segunda-feira, dezembro 10, 2012

Venho percebido nas últimas semanas uma dúvida crescente a respeito de um termo que usei em um post passado aqui no Saga. Quando falei sobre a rixa entre ficção fantástica e ficção científica, disse que muitas obras podem se encaixar na ficção especulativa, por terem enredos que transitem entre um e outro. A coisa é um pouco mais abrangente, por sua vez.




Ficção especulativa é um termo que, essencialmente, abrange a fantasia, o terror e a ficção científica, visto que não é tão fácil assim fazer uma classificação, dependendo a obra. Sou contra classificações rígidas. Isso é isso e acabou é reducionista. Não é assim que a arte e a cultura funcionam. Gosto da permeabilidade entre os gêneros, acho que fica mais divertido assim.

Via Twitter, meu amigo Fábio, ao ler as 10 regras da boa ficção científica, me perguntou como enquadrar The Walking Dead, a famosa série distópica sobre um apocalipse zumbi. Ela é terror? É fantasia? É o que afinal? Eu respondi que se enquadraria em ficção especulativa, que é um termo guarda-chuva. É um terror, mas ao mesmo tempo é uma distopia, um cenário mais do que conhecido da ficção científica. Percebe como as coisas se permeiam? Classificar com rigidez pra que?

Várias obras podem ser classificadas assim, sem nenhuma perda de qualidade e/ou contexto. Porém, a primeira vez que foi usado foi de forma pejorativa. O termo foi utilizado pela primeira vez no final dos anos 60 por Judith Merril e por outros escritores e editores de ficção científica insatisfeitos com os rumos do gênero naquela época. Eles estavam preocupados com a queda na qualidade científica dos novos enredos e o termo ganhou a fama de ser pejorativo.

Ainda hoje, em blogs lá fora, é possível ver o preconceito com obras que não sejam "puramente" ficção científica. Enredos que contenham um viés mais fantasioso, com ares de terror ou com eventos não muito bem explicados são desconsiderados como FC e caem na ficção especulativa que seria o limbo literário. Logicamente, muitas destas obras são também classificadas como ruins. Fico pensando o que Arthur C. Clarke diria se 2001 fosse classificado como ruim e caísse no limbo literário, pois se bem lembro, existem muitos eventos mal explicados na obra. Muitos fãs chatos odeiam o termo, pois juntariam em um só lugar obras clássicas e inestimáveis com outras cuja qualidade é considerada inferior. É uma forma de justificar preconceito literário.

Ficção científica não pode se tornar um reduto de pseudo-intelectuais avessos ao novo, ao diferente e à nova literatura. Se tem uma coisa que me irrita são os fundamentalistas do sci-fi que se agarram à ficção científica hard, achando que esta é a única maneira de se produzir o gênero. Não podemos podar a imaginação de um autor ao dizer que ele deve fazer isto ou aquilo. A beleza da coisa é justamente a mistura, trabalhar com várias vertentes para produzir algo que agrade ao autor e ao público.

Hoje, a ficção especulativa tem ganhado ares mais amenos do que era nos anos 70. De tom pejorativo para se tornar um termo guarda-chuva para abranger a todos. O Brasil é um reduto que ótimas obras com esse ar meio sobrenatural. As obras de André Vianco são um bom exemplo da mistura do terror, da fantasia e da ficção científica, tudo acontecendo em solo pátrio. Os livros da antologia Space Opera, da Editora Draco, também trabalham com um contexto de ficção científica, mas trazendo as maravilhas misteriosas do espaço que estamos ainda descobrindo.

Para fins de classificação apenas, como em uma biblioteca ou livraria, deve-se pegar o gênero para o qual a obra pesa mais. Mas reduzir e execrar algo apenas porque junta num mesmo balaio várias coisas é pecuinha de fã fundamentalista. A magia da coisa está em justamente descobrir, se maravilhar, não interessa se o fato será bem explicado ou não.

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





Leia esses também...

2 comentários

  1. Partindo do que tu falaste, então, exemplos claros de ficção especulativa seriam Lovecraft, Robert E. Howard, Clark Ashton-Smith e outros autores da Weird Tales que misturavam horror, sci-fi e fantasia em suas obras.
    Falando nisso tu já ouviste falar em ficção new weird? Trata-se de um elogiadíssimo movimento na literatura fantástica surgido no início do Século XXI e que resgata essa mistureba de gêneros engendrada por Lovecraft etc para a atualidade. Se te interessares de uma pesquisada em autores new weird como China Mièville, Jeff Vandermeer etc. Vou até fazer meu TCC sobre uma obra de Mièville.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, estes autores poderiam ser autores especulativos.

      Sobre New Weird, já fiz resenha sobre o livro Metanfetaedro, da escritora brasileira Alliah.

      Excluir

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.
O mesmo vale para comentários:
- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.
A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.

Viajantes

Curta no Facebook

❤️


"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris