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O Determinismo nosso de cada dia

A ideia deste post surgiu ao ler o post Lêdo Ivo: calor, literatura cosmética e o problema do Brasil no blog da Emanuelle Najar, o Limão em Limonada. O poeta e escritor Lêdo Ivo, em entrevista ao Dossiê Geral da Globonews, por escrito no portal G1, alega que as pessoas ficam mais criativas no frio e isso favorece o processo criativo e a profundidade das obras.

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De acordo ainda com o autor, o problema do Brasil seria o calor e a exuberância de sua paisagem que impediriam grandes obras literárias.

O calor excessivo não ajuda a reflexão. Os escritores europeus produzem, em geral, nos meses de frio. Baudelaire anseia pelo frio para escrever seus poemas! Aqui no Brasil, o calor atrapalha muito”.

Excesso de beleza seria então o problema do nosso país. É preciso tomar muito cuidado com este discurso que em Geografia chama-se Determinismo, pois o mesmo princípio baseou o cerne de ideologias de regimes totalitários e racistas como o Nazismo.

Se voltarmos um pouco nos conceitos fundadores da ciência geográfica - disciplina pouco valorizada na escola - veremos que existem dois conceitos que moldaram seus alicerces: o Determinismo e o Possibilismo.

O Determinismo é originário da escolã alemã (final do século XVII, início do XVIII) e seu principal representante é Friederich Ratzel. O cerne deste pensamento diz que o ambiente terrestre molda as sociedades; que clima, topografia, temperatura seriam determinantes (daí o nome) para a evolução e desenvolvimento das civilizações. Ellen Semple e Ellsworth Huntington chegaram a associar que sociedades pacíficas se originam de terrenos acidentados e íngremes, pois dificilmente seriam invadidas e conquistadas, enquanto sociedades beligerantes eram associadas a locais planos e de fácil acesso. Huntington é também o elaborador da ideia do "paradoxo tropical", que diz que países tropicais têm governos ineficientes pouco funcionais, instáveis, enquanto países frios são economicamente mais desenvolvidos e ricos.


Este pensamento determinista na Alemanha da época serviu para justificar sua política expansionista pois nem país ela era. A Alemanha, que junto com a Itália, foi o último país a se tornar um Estado-nação, era um retalho de bispados, ducados e principados no meio de uma Europa já formada e com colônias em outros continentes. Não tendo mais para onde se expandir no continente, o Determinismo foi o conceito original que levou ao nacionalismo, aos desejos de conquista e lançou a Alemanha como personagem principal em duas guerras e de onde o regime nazista apoiou sua ideologia.

Por sua vez, o Possibilismo afirma o contrário. Vindo da escola francesa, seu principal expoente é Vidal de La Blache (século XIX), ferrenho crítico de Ratzel. O conceito defende que as sociedades não estão condicionadas ao ambiente e sim que ela tem condições de mudá-lo, que tendo a possibilidade, ela o mudará. Porém, assim como ocorreu com o conceito alemão, o Possibilismo também foi usado pelo estado francês para justificar suas ações. Se a sociedade tem condição de alterar seu ambiente e de evoluir, isso habilitaria uma sociedade - no caso a França - a levar o desenvolvimento, seu modo de vida, àquelas sociedades pouco evoluídas.

É fácil perceber como um conceito científico sai das academias para justificar ações dos Estados. Nos dois casos, políticas expansionistas, colonialismo e guerra aconteceram pois ambos achavam estar certos. Quer dizer então que aqueles que endossam um princípio científico ou um conceito correm o risco de ser um nazista? Não. O que quero dizer é como é preciso ter cuidado com os discursos. Os países tropicais foram acusados de atrasados, trabalham pouco, instáveis - o subdesenvolvido e Terceiro Mundo que a gente tanto ouviu na escola - o que justificou por exemplo a doutrina do Destino Manifesto dos Estados Unidos, onde por ordem divina, os norte-americanos têm a missão de levar democracia, desenvolvimento e o american way of life a todos os atrasados. Olha o Possibilismo de novo aí. A América Latina já foi chamada de Quintal da América (não esqueça, você também é americano(a) pois existem 3 delas).

Se o frio realmente favorecesse a cultura avançada, à inteligência, a produção literária e artística e trouxesse felicidade e riqueza, a Rússia seria o país mais rico e desenvolvido do mundo e sabemos que não é bem assim.

Os estereótipos não estão errados, eles estão incompletos. Portanto cuidado com textos e discursos que fazem um mau julgamento de situações, eventos, pessoas e lugares. Bom senso e conhecimento são fundamentais. E sair do achismo, do senso comum que parece ser uma verdade absoluta são necessários para se ter uma opinião a ser defendida.

O vídeo abaixo acho que fala por si só. Preste atenção na fala da escritora nigeriana e perceba como ela aponta os estereótipos e os conceitos pré-formados que muitas sociedades têm.



A crítica é ao discurso do escritor, e não ao Limão em Limonada da Manu Najjar.
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