Eu já estava lendo esse livro em inglês quando descobri que a Morro Branco vai lançar a versão em português em dezembro! Baseados nos eventos da Primavera Árabe, especialmente nas manifestações que sacudiram o Egito em 2011, o livro aborda viagens espaciais, conflitos políticos, desigualdade social e revolução. Mas também uma história sobre memória coletiva, identidade cultural e o direito de uma geração decidir seu próprio futuro.
O livro
A Safina é uma imensa nave-geracional, que funciona como uma grande cidade (até mesmo um pequeno país), viajando pelo espaço há 200 anos, rumo ao planeta habitável chamado Hurriya, onde a humanidade espera recomeçar sua civilização. A viagem em si levará 400 anos, então eles estão na metade do caminho. Para garantir o sucesso da missão, os responsáveis pela expedição decidiram preservar milhares de pessoas em sono criogênico. São os chamados ancestrais: indivíduos que viveram na Terra, especialistas em suas respectivas áreas, e que deverão despertar quando a nave finalmente alcançar seu destino.
Às vezes, parecia que apenas os pássaros eram livres na nave-cidade Safina.
(tradução livre)
Depois que o império de inteligências artificiais conhecido como o Império da Rede colonizou a maior parte da Europa, da Ásia e da América do Sul, um grande desastre assolou o planeta. Os ancestrais estão dormindo, mas seus parentes imediatos embarcaram na Safina, onde viveram e morreram ao longo dos anos. Pouco tempo depois do começo da viagem, a tripulação se rebelou e optou por abandonar o Império da Rede e tudo o que ele significava. A inteligência artificial que controlava a Safina foi removida, mas não totalmente destruída, e não o será enquanto os ancestrais permanecerem a bordo. Um Pacto foi firmado, os alojamentos foram reorganizados de acordo com o idioma, e a vida seguiu seu curso.
Os eventos do livro se passam no século XXVII, pouco antes do ducentésimo aniversário do Dia do Lançamento, quando a nave partiu da Terra. Tal como uma cidade, a Safina é dividida em bairros com etnias distintas e seus idiomas. A família central no livro é a família Ezz. Iskander Ezz é um tradutor, um tipo de burocrata que faz a mediação entre a tripulação e a Administração da nave. Ele deseja mudanças e tem um plano de longo prazo para implementar reformas que beneficiem as pessoas comuns. Mas sua irmã mais nova, Damietta, é uma revolucionária impetuosa, pronta para liderar a revolta por toda a Safina.
Enquanto vamos conhecendo o imenso cenário da Safina e seus habitantes, nos aprofundamos em suas relações sociais e políticas. A família Ezz é uma típica família grande, barulhenta, que se intromete nos assuntos dos parentes, que gosta de reunir a família para o almoço e de arranjar casamentos para seus membros mais jovens, como Ezz e Damietta. Eles são os principais, mas não são os únicos personagens que conhecemos. Tem também o primo Lebanon, que trabalha cuidando dos ancestrais em criogenia, tem os líderes revolucionários e personagens menores, todos muito bem descritos, alguns de forma bem irritante.
O que fica bem nítido é que muita gente na nave começa a se questionar por que devem sacrificar suas vidas em benefício de indivíduos que jamais conheceram. Um costume da tripulação é visitar os ancestrais no Dia do Lançamento, mas alguns não seguem a tradição. Por que precisam obedecer a uma administração que parece servir aos interesses de um império desaparecido? E por que determinadas famílias desfrutam de privilégios enquanto outras precisam trabalhar incessantemente? A Terra ficou pra trás, ninguém que vive na nave jamais a conheceu. Por que se agarravam a ela?
É possível sentir a rebelião borbulhando no comportamento das pessoas, nos questionamentos, nas conversas entre os turnos de trabalho, no pátio das mesquitas. Tudo é muito sussurrado e escondido para a administração não ouvir. Mas as coisas explodem de vez quando um apagão por toda a Safina abala a delicada ordem social. Apagões já tinham ocorrido, mas coisas pontuais em alguns setores, não pela nave toda. Imagine uma imensa nave espacial parada no vazio do espaço, sem sistema de reciclagem, sem energia para movimentar o ar, e aí você começa a ter uma ideia do desespero que isso dá nas pessoas.
Você pode destruir uma organização, prender ou matar seus membros, mas uma ideia é algo muito mais persitente.
(tradução livre)
Rotulada como uma história árabefuturista, o livro levanta muitas discussões pertinentes. Por exemplo, até que ponto uma geração deve sacrificar sua existência para cumprir as promessas feitas por seus antepassados? Os habitantes da Safina herdaram uma missão, mas nunca tiveram a oportunidade de escolher se desejavam participar dela. Isso é justo? Os ancestrais representam, assim, não apenas pessoas que precisam ser protegidas, mas também o peso de um passado que continua determinando o presente. Nem todo mundo a bordo concorda em destinar tanta energia e recursos para manter um monte de gente dormindo.
Enquanto eu adorei toda a construção de mundo em si, seus personagens, suas lutas, a criação de um idioma híbrido, o nupol, que mistura influências de diversas línguas, incluindo árabe, português, inglês e russo, fiquei bem frustrada com o final. Deu pra perceber, conforme a leitura foi avançando, que nada se resolveria ao final desse livro, mas eu esperava ALGUMA resolução para algum conflito já iniciado. O autor resolveu deixar tudo para o próximo livro. Então, não espere respostas com essa leitura, guarde as questões para o próximo!
A narrativa também acompanha muitos personagens e o uso do nupol pode tornar certos capítulos bem difíceis. Em vários momentos, tive que voltar a ler um parágrafo ou diálogo só pra poder captar a ideia geral. Vai ser um incrível trabalho de tradução para o português.
Obra e realidade
Em uma entrevista, El Sayed explicou que a Praça Tahrir, no Cairo, durante as manifestações de 2011, foi uma inspiração importante para escrever o romance. A Praça Tahrir funcionou para a sua geração como um momento mítico de ruptura e união. Essa energia coletiva no livro é transposta para uma nave-cidade geracional, em que a tripulação decide se revoltar contra a autoridade e as estruturas de poder que os oprimem. Assim como os manifestantes na Praça Tahrir desafiaram um regime enraizado que parecia imutável, o enredo aqui retrata como uma resistência cresce gradualmente por meio de blecautes, frustrações cotidianas, pequenas quebras de obediência e conspirações até culminar em uma revolta aberta.The Republic of Memory não é apenas uma história sobre uma nave viajando para outro planeta. É sobre pessoas que começam a perceber que preservar o futuro da humanidade não deveria significar abrir mão do direito de construir seu próprio futuro.

Mahmud El Sayed é um jornalista, tradutor e escritor de ficção científica e fantasia, conhecido por explorar temas inspirados nas culturas árabe e islâmica. Nascido e criado em Londres, é filho de pai egípcio e atualmente vive no leste da capital britânica.
PONTOS POSITIVOS
Iskander e Taki
Bem escrito
Uma nave-geracional
PONTOS NEGATIVOS
Não tem em português (ainda!)
Final em aberto
Preço!
Iskander e Taki
Bem escrito
Uma nave-geracional
PONTOS NEGATIVOS
Não tem em português (ainda!)
Final em aberto
Preço!
Avaliação do MS?
Fiquei com medo de acabar com uma baita ressaca literária depois de mergulhar pelos corredores da Safina. O final me frustrou, admito, mas toda a jornada até ele valeu muito à pena. Mal posso esperar pelo lançamento em português. Quatro aliens para ele e uma forte recomendação que você leia também!
Até mais! 🪐

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