Resenha: When Women Ruled the World, de Kara Cooney

Se você ama o Egito Antigo como eu, então vai amar esse livro! A egiptóloga Kara Cooney viaja no tempo ao longo da história egípcia para resgatar a biografia de seis grandes mulheres que governaram o Egito em períodos de intensa turbulência, contrariando a milenar tradição de ter reis homens. Alguns destes nomes são bem conhecidos do público, em especial o nome de Cleópatra, mas a autora mergulha no tempo e no espaço para trazer outros nomes igualmente poderosos.

O livro
O Antigo Egito foi um dos maiores e mais longevos impérios do mundo. Sua cultura, sua religião e estrutura política atraem estudiosos e curiosos do mundo todo, eu inclusa. Existe até um termo, a egitomania, que caracteriza uma onda de fascínio cultural pelo Antigo Egito, marcada pela campanha de Napoleão Bonaparte e pela exploração arqueológica. Alguns nomes, como Cleópatra, Tutancâmon ou Ramsés, o Grande, são bastante conhecidos. Mas o que muita gente não sabe é que algumas mulheres assumiram o trono do Egito em momentos de instabilidade política e guiaram seu povo. Para conhecer melhor essas mulheres incríveis, Kara Cooney escreveu um livro obrigatório, reunindo o que a arqueologia tem hoje de mais recente sobre elas.

Resenha: When Women Ruled the World, de Kara Cooney

Precisamos parar de encarar as emoções femininas como algo fraco e enganoso, quando ela é o caminho mais seguro a seguir em tempos de crise.

(tradução livre)

As seis rainhas biografadas são, em ordem cronológica: Merneith, Neferusobek, Hatshepsut, Nefertiti, Twosret e Cleópatra. Dadas as lacunas nos registros históricos sobre algumas dessas rainhas, na medida do possível, Cooney descreve como cada uma delas chegou ao poder e como foi o seu governo. A ideia central do livro é a de que essas mulheres representavam um último recurso para a sociedade patriarcal e autoritária egípcia, sendo chamadas a liderar para salvar ou preservar a unidade do reino em tempos difíceis ou na ausência de um herdeiro do sexo masculino. Embora essa análise possa ser válida para alguns dos exemplos citados (como Tawosret, a última de sua linhagem em um mundo complexo e em transformação), outras rainhas pareciam ambiciosas e determinadas a assumir o poder, independentemente da existência de alternativas masculinas (como Hatshepsut e Cleópatra).

As mulheres tinham liberdades no Antigo Egito que aquelas vindas de outros reinos e impérios não tinham. A mulher egípcia podia pedir o divórcio, podia circular livremente, sem companhia ou autorização masculina, tinha direito a herança, mas, no que se refere ao poder supremo, o de ser faraó, a sociedade privilegiava o sexo masculino. Mas a figura feminina ainda prevalecia devido à própria mitologia. A figura de Ísis justificava a presença da mulher no topo do poder como catalisadora do poder real. Então, naquelas vezes em que o poder real do rei estava abalado ou até mesmo ausente, algumas rainhas assumiram a coroa e administraram o reino. Elas estavam lá em momentos instáveis, de crise, na ausência de um herdeiro ou na minoridade de um deles.

Merneith foi regente durante a Primeira Dinastia e, com base em alguns registros em tumbas e monumentos do período, acredita-se que ela tenha governado por direito próprio. Sabe-se pouco sobre Merneith, mas ela governou por volta de 2950 a.C. e permaneceu no poder até que seu filho, o futuro faraó Den, tivesse idade suficiente para assumir o governo. Seu reinado foi marcado por muito derramamento de sangue, numa época em que a morte do faraó levava a um banho de sangue, pois uma comitiva de parentes e servos seria morta para que o rei os levasse consigo para a vida após a morte. Merneith foi filha, esposa e mãe de faraós e continuou a apoiar o filho depois que ele assumiu o poder e provavelmente viveu até a casa dos 50 anos.

Neferusobek (ou Sobekneferu, ou ainda Esquemíofris) foi a primeira mulher conhecida a reinar como rei, como faraó. Esta é a primeira vez que se tem prova confirmada de uma mulher governando com o título de rei. Em dinastias anteriores, houve mulheres que se acredita terem governado, como Merneith, mas não há provas 100% confirmadas de que tenham governado por direito próprio. No caso de Neferusobek, temos evidências sobre sua vida e sua pessoa, sobre como ela chegou ao poder e como governou. Ela foi a última monarca de sua linhagem e reinou após a morte de Amenemhat IV, que pode ter sido seu irmão, embora isso não seja confirmado, o qual faleceu sem deixar um herdeiro homem para assumir o trono. Seu reinado foi bastante breve, de 1806 a 1802 a.C., durando pouco menos de quatro anos. Seu governo foi curto e marcado por adversidades. Ela teve de lidar não apenas com o desafio de projetar uma imagem de poder e afirmar-se como a governante legítima, apesar de ser mulher, mas também com a ameaça da fome e tempos difíceis decorrentes da falta das cheias do Nilo. Ela parece ter sido uma mulher inteligente, forte e determinada.

Raramente uma mulher é parabenizada por querer mais, por almejar voos mais altos. As mulheres sabem exatamente como sua ambição é percebida pelo público e, por isso, precisam disfarçar suas investidas em busca de poder sob um manto caloroso e acolhedor de aparente falta de agressividade e de uma linguagem que não pareça ameaçadora, complementado por sorrisos deslumbrantes, cabelos coloridos e um olhar calmo e sereno, quase maternal, sem erguer demais a cabeça, mas também sem abaixá-la em excesso.

Hatshepsut é um dos nomes mais conhecidos dessa lista e ela quebrou paradigmas. Ela foi a única mulher a governar como rei em tempos de prosperidade. Governou por quase 20 anos (c. 1479–1458 a.C.) e trouxe grande riqueza e oportunidades de trabalho para o Egito. Foi uma construtora prolífica e dedicou seu reinado a erguer, restaurar e modernizar templos e monumentos dedicados aos deuses. Também restabeleceu rotas comerciais, incluindo expedições à terra de Punt. Inteligente e determinada, ela sabia exatamente o que dizer ou fazer para conquistar e manter o poder. Este capítulo oferece um breve panorama de sua vida e de suas realizações, além de explicar por que a maioria das pessoas pouco sabe a seu respeito. Filha e esposa de faraós, ela se tornou regente com a justificativa da minoridade do então faraó, Tutmés III. Mas depois ela assumiu o trono como faraó, até ser afastada do trono por um adulto Tutmés III que depois apagou (ou tentou apagar) seu reinado.

O capítulo sobre Nefertiti era um dos que eu mais estava ansiosa para ler, porque já li bastante sobre o período de Amarna, em que o faraó Aquenáton, da Décima Oitava Dinastia, seu marido, adotou o deus Aton, o disco solar, como o único deus a ser adorado, e abandonou a tradicional religião egípcia. O período trouxe tanta instabilidade que, quando ele morreu, os egípcios logo voltaram ao que eram. Aqui a autora concorda com egiptólogos como Nicholas Reeves, que defende que Nefertiti reinou após a morte do marido como Neferneferuaten Nefertiti, mas acredita-se que ela tenha sido elevada ao posto de corregente por Aquenáton antes da morte dele. Perto do fim do reinado de Aquenáton, o nome de Nefertiti desaparece dos registros históricos e é substituído por um corregente chamado Neferneferuaten, que assumiu o papel de rei (uma mulher no trono). Acredita-se que essa figura fosse a própria Nefertiti (embora alguns sugiram que poderia ser sua filha Meritaten). Caso Nefertiti tenha governado após a morte de seu marido, supõe-se que ela estivesse tentando conter os danos e restaurar a religião original.

Twosret (ou Tausret) viveu em uma época de grande instabilidade política e foi a última governante conhecida e o último rei da Décima Nona Dinastia. Após a morte do marido, Seti II, Twosret tornou-se regente do herdeiro dele, Siptah. É provável que Siptah fosse seu enteado, visto que não há registro de filhos nascidos da união entre Twosret e Seti II. Quando Siptah morreu, cerca de cinco anos após o início de seu reinado, Twosret assumiu oficialmente o trono como rei. Ela governou por um período estimado entre 7 e 9 anos, incorporando os anos do reinado de Siptah aos seus próprios, e não se sabe exatamente quando ela morreu. Seu reinado terminou em uma guerra civil. No entanto, não se sabe se ela foi deposta por seu sucessor, Setnakhte, que viria a fundar a Vigésima Dinastia, se foi assassinada ou se morreu de causas naturais. Praticamente apagada da história, talvez existam mais informações por aí, apenas esperando para serem descobertas.

Cleópatra VII Filopátor deve ser o nome mais conhecido entre essas faraós. Última governante ativa da Dinastia Ptolomaica, ela governou por cerca de 21 anos (de 51 a.C. até 10 ou 12 de agosto de 30 a.C.) e impediu que seu reino fosse engolido pela máquina romana por esse período. O que se sabe dela hoje deriva da propaganda do império, que nos passou uma imagem de uma mulher volúvel, interesseira, capaz de testar venenos em seus servos, insaciável na busca por prazeres, que corrompeu a mente de dois distintos servidores de Roma. Mas ao olharmos para a cultura árabe, Cleópatra é vista como uma patriota, uma mulher acadêmica, que defendeu seu povo da dominação estrangeira. Ela, sem dúvida, era inteligente, fascinante, que tinha plena consciência de seu poder e que eliminou inimigos sem nenhum constrangimento.

O livro tem uma narrativa amigável e densa, recheada de informações e comparações que a autora faz com o mundo atual. É aí que notamos que muita coisa não mudou nos últimos seis mil anos. No miolo, há um conjunto de imagens coloridas de estátuas, relevos e murais que ilustram as faraós e seus nomes. A revisão deixou alguns errinhos passarem, mas a leitura foi deliciosa. Ao final ainda temos notas de rodapé, fontes e um índice remissivo.

Se o novo rei fosse jovem e vulnerável, tal como o jovem deus Hórus o fora por ocasião da morte de seu pai, Osíris, nas mitologias do Egito, caberia à sua mãe intervir como protetora. Foi isso que Ísis fez ao levar Hórus para o exílio nos pântanos, curando com sua magia os muitos ferimentos causados por serpentes e escorpiões e permitindo que ele se fortalecesse o suficiente para, um dia, derrotar o assassino de seu pai e assumir seu lugar de direito no trono. As rainhas-regentes egípcias personificavam as ações protetoras de Ísis, pois, repetidas vezes, a mãe se erguia para defender o direito do filho ao trono e preservar esse sistema de equilíbrio delicado.

Obra e realidade
Kara Cooney faz um paralelo ao longo da narrativa, comparando algumas vezes a atuação dessas rainhas (e o provável preconceito que enfrentaram por serem mulheres no poder) com o que as atuais mulheres no poder também precisam enfrentar. Achei em alguns momentos que ela extrapolou demais, pois aquele era um outro tempo, um outro povo, uma outra maneira de se performar poder e feminilidade. Mas é difícil não perceber que as mulheres são a minoria quando se tratam de líderes de uma nação ou reino, inclusive nos dias de hoje.

A egiptóloga britânica Joann Fletcher acredita que existiram nada menos que 12 mulheres faraós no Antigo Egito, não apenas as seis apresentadas aqui ou as cinco que a maioria dos historiadores acreditam ter existido.

Kara Cooney

Kathlyn M. Cooney é uma egiptóloga e arqueóloga norte-americana. Ela é professora de Arte e Arquitetura Egípcia na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Ela também escreveu o livro The Woman Who Would Be King: Hatshepsut’s Rise to Power in Ancient Egypt.

PONTOS POSITIVOS
História do Egito
Bem escrito
Fontes e notas de rodapé
PONTOS NEGATIVOS
Poucas imagens
Preço
Não tem em português!

Título: When Women Ruled the World: Six Queens of Egypt
Autora: Kara Cooney
Editora: National Geographic Society
Páginas: 400
Ano de lançamento: 2020
Onde comprar: na Amazon!

Avaliação do MS?
Este livro é mais uma obra incrível que, infelizmente, não tem em português. Com muitas fontes e uma escrita agradável, o livro é um deleite para aquelas curiosas de plantão ou que querem saber mais sobre a história dessas mulheres incríveis. É daqueles livros preciosos da estante para se consultar de tempos em tempos. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais! 𓁐

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