Resenha: A noite em que ela desapareceu, de Lisa Jewell

Este é um daqueles títulos e sinopses que me fisgam logo de cara. Uma jovem desaparece misteriosamente depois de ir a um jantar romântico com o namorado. Sem nenhuma pista por meses, o caso esfria e a mãe da jovem fica sem respostas. Até que uma escritora se muda para o bairro e faz uma descoberta que pode ser vital para a investigação.

O livro
Em uma noite agradável de verão no interior da Inglaterra, Tallulah e Zach decidem ir para um pub pela primeira vez desde o nascimento de seu filho, Noah. O casal foi surpreendido pela gravidez com apenas 19 anos, mas o bebê tem pais dedicados e esforçados. A mãe de Tallulah, Kim, fica feliz de ver a filha encontrando um rumo na vida, pois está estudando, enquanto Zach trabalha pra cuidar da família. Assim, essa noite romântica e de descanso da rotina pode ser o que o casal precisa. No pub, porém, o casal encontra uma amiga de faculdade de Tallulah, Scarlett, e os planos do casal mudam. Ela os convida para uma festa em sua mansão, chamada de Dark Place, mas Tallulah e Zach desaparecem sem deixar rastros. E assim, um ano inteiro se passa sem notícias.

Resenha: A noite em que ela desapareceu, de Lisa Jewell

Vê uma garota à beira do esquecimento, talvez procurando por algo em que se agarrar, e Tallulah sabe de alguma forma que essa coisa é ela.

Os eventos de junho de 2017 e os dias, semanas e meses que se seguem, são narrados do ponto de vista de Kim e sua angústia pela falta de pistas. Também a encontramos em 2018, após a chegada de Sophie a Surrey Hills com seu namorado, Shaun, o novo diretor de uma escola local. Sophie é autora de romances policiais, então é naturalmente curiosa, mas tem consciência de que nunca investigou um mistério por conta própria. Em vez disso, deixou isso para os personagens que criou (que, segundo ela, são populares nos países escandinavos e no Vietnã). Devo dizer que a entrada dessa personagem não me agradou muito. Preferia muito mais que Kim investigasse os eventos que se sucedem.

O livro começa com a noite em que Tallulah desaparece, e Jewell nos leva para frente e para trás no tempo enquanto Kim tenta convencer a polícia de que dois jovens de 19 anos não fugiram por vontade própria. A investigação esfria quando Sophie chega e, literalmente, desenterra uma nova pista. Lisa poderia ter feito Kim achar essa pista. Não me entenda mal, não tenho nada contra personagens escritores, mas os dilemas de Sophie chegam a ser no pior estilo "classe média sofre", enquanto Kim luta pra cuidar de um neto sozinha.

Também conhecemos Tallulah nos meses que antecedem seu desaparecimento. Ela começou a estudar em uma faculdade local e conhece a carismática Scarlett, em cuja casa ela e Zach foram vistos pela última vez. Scarlett é só uma riquinha mimada que quer atenção e consegue com Tallulah e quanto mais eu lia o livro, mais desgosto eu tinha por essa personagem. Ela vai ganhando uns contornos odiosos que se tornam insuportáveis quanto mais a leitura prossegue. Ela não é só mimada, ela chega a ser imoral e isso é algo que só aparece quando chegamos ao final da leitura.

Kim está sofrendo e lutando para cuidar de seu neto de dois anos, quando pensava que seus melhores anos já haviam ficado para trás. A chegada de Sophie e a descoberta da nova pista conseguem inflar essa mãe de ânimo. Por isso que eu preferia que ela fosse a protagonista e não a chata da Sophie. Kim tem os motivos, tem a energia, tem a obstinação que Sophie não tem. Sophie só está curiosa e sente que isso pode ajudar a inspirá-la a escrever mais e melhor, já que ela está com um romance parado no computador.

Jewell faz um ótimo trabalho ao nos colocar dentro da cabeça de Tallulah. De certa forma, parece que estamos ali apenas para conhecer o passado dela, mas sua relutância em reatar o relacionamento com Zach, seus sentimentos em relação ao filho e a consciência de que está mudando parecem muito reais. Ela é uma pessoa que pensa profundamente em muitos aspectos, e eu me identifiquei muito com a sua tendência a pensar demais sobre… bem, tudo. Há muitas revelações sobre o relacionamento dela com o namorado que nós nem imaginávamos no começo.

Aí, a gente chega ao final... A autora não perde tempo nos mostrando o que vem depois daqueles eventos, nem há qualquer linha pra explicar certos comportamentos dos envolvidos. Me peguei pensando: li tudo isso pra nada?? Ficamos tão envolvidas com a vida de Tallulah, seu medo, seus desejos, que quando chegamos ao final, não temos uma visão do que houve com todas elas.

A tradução foi de Stefano Volp e está muito boa. Não encontrei grandes problemas de revisão ou de diagramação.

Obra e realidade
Uma coisa que a obra discute muito bem é sobre a solidão de uma mãe. Seja na figura de Tallulah, mãe adolescente, que precisou abdicar de sonhos e desejos por causa de um bebê, seja na figura de Kim, que praticamente fez o mesmo quando a filha desapareceu. O livro discute bem essas situações, mostra os momentos solitários quando Tallulah queria companhia e atenção e só recebe solidão de volta, mesmo tendo a figura do namorado Zach ao seu lado. Talvez fosse esse o motivo pra ela se envolver com a colega Scarlett, que conseguiu ser algo diferente em sua rotina.

Lisa Jewell

Lisa Jewell é uma escritora inglesa dos gêneros chick-lit e thriller.

PONTOS POSITIVOS
Tallulah
Kim
Mistério
PONTOS NEGATIVOS
Scarlett
Sophie
Final sem graça e apressado


Título: A noite em que ela desapareceu
Título original em inglês: The Night She Disappeared
Autora: Lisa Jewell
Tradutor: Stefano Volp
Editora: Intrínseca
Páginas: 416
Ano de lançamento: 2024
Onde comprar: na Amazon!

Avaliação do MS?
Foi uma leitura OK. Acredito que vai agradar à maioria das leitoras, mas pra mim não foi uma leitura morna. O mistério ao redor da vida e desaparecimento de Tallulah são interessantes, mas o final deixa a desejar. Três aliens para o livro.


Até mais!

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