Resenha: As Crônicas das Sombras, de Frances Hardinge

As Crônicas das Sombras foi uma grata surpresa neste final de 2020. Me peguei admirando a lindíssima capa e abri para ler apenas o primeiro capítulo e acabei lendo dez de uma vez! Em seguida, na noite de Natal, a casa estava tranquila, os gatos dormindo e acabei lendo o livro inteiro porque simplesmente não dá para parar mesmo.





Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide


O livro
Makepeace mora com a mãe em uma vila puritana na Inglaterra, chamada Poplar, hoje um distrito da grande Londres. E mal consegue dormir por conta de pesadelos horríveis que a fazem gritar e acordar a casa inteira. Sua mãe sabe como o povo de Poplar age quando o assunto é misticismo o sobrenatural e precisa que a filha seja forte para lidar com os sonhos ruins. Mas Makepeace é apenas uma criança, não entende o amor bruto da mãe, não entende porque ela a faz passar por coisas horríveis na tentativa de controlar os sonhos, nem como pode abandoná-la em um cemitério a cada conjunto de dias. Por que ela não a ajuda mais?

Resenha: As Crônicas das Sombras, de Frances Hardinge

O clima político na região está azedando rapidamente. É a época da Primeira Guerra Civil Inglesa, no século XVII, onde monarquistas e parlamentaristas estão indo às vias de fato pelas ruas da cidade. Makepeace não entende o que está acontecendo, apenas tenta sobreviver dia após dia com as excentricidades da mãe, desesperada por um pouco de compreensão e aceitação. Em um ato desesperado, ela pensa no pai, mas sua mãe revela pouco ou quase nada. E esse clima político conturbado que Makepeace não entende a jogará em uma louca espiral de revelações.

Os humanos são animais estranhos e adaptáveis; podem se acostumar a qualquer coisa, mesmo ao impossível ou intolerável.

Página 113

Ao perder sua mãe, Makepeace perde seu referencial de vida. A única informação que obteve de seu pai a leva para a mansão de Grizehayes, uma fortaleza controlada por uma antiga e poderosa família. As respostas para seus dilemas não aparecem com a facilidade. Eles a tratam como louca, depois a botam na cozinha para trabalhar como empregada da casa. E Makepeace começa uma incrível jornada de amadurecimento e crescimento.

A autora soube combinar o clima político da época com a vida de uma garota que está crescendo para se tornar uma mulher. Ela tem que lidar com a solidão por morar em uma casa onde praticamente não tem amigos, tem o trabalho duro do dia a dia da cozinha, tem os mistérios sobre seus pesadelos e sobre sua família. E ela precisa lidar com isso sozinha, sem aliados, sem a mãe... Foi bastante solitário em alguns momentos acompanhar a jornada de Makepeace que é, basicamente, uma sobrevivente.

Na mansão ela só tem a amizade de James, um dos bastardos do herdeiro, que morreu muitos anos antes. Junto dele, Makepeace tenta fugir da propriedade várias vezes, mas ambos acabam recapturados. É nesse ambiente estressante que as coisas se complicam para o rei e para a família Fellmote, dona de Grizehayes. A agitação permite que Makepeace, enfim, consiga ir em busca de algumas respostas para suas inquietações e a joga em uma conspiração monarquista, em contrabando de ouro, em visitas a médicos adoentados.

A ambientação é incrível. Você se sente inserida nas ruas sujas e úmidas das cidades por onde Makepeace anda. É a sensação de inquietação que está muito bem construída, a ponto de você se sentir ao lado da personagem olhando por sombre o ombro, tentando ouvir e enxergar por entre as folhas e galhos. Makepeace é corajosa, astuta e mesmo tendo suas limitações, como o fato de ser quase iletrada e absorver a mística da época (como o preconceito com banho), é uma incrível personagem. Você se importa com ela, que protegê-la, ajudá-la, do jeito que for.

Os outros personagens do romance também são bem construídos, mesmo aqueles que aparecem por pouco tempo e eu até gostaria de ver visto mais deles. Eles entram e saem da vida de Makepeace, mas todos acabam deixando uma marca com ela. E tenho que dizer que a autora toma decisões bem audaciosas que eu não esperava no meio do romance e você se vê seguindo um caminho inesperado. Frances quebrou vários estereótipos na composição do enredo e isso foi incrível. Meu único problema foi com o final, que achei um tanto apressado. Eu gostaria de mais algumas linhas sobre o que acontece no final bombástico.

O livro está lindo, em capa dura caprichada e delicada, com um grande trabalho gráfico interno. Pena que três revisoras deixaram passar tantos erros bobos. Principalmente no começo você pega coisas bobas que passaram por pura falta de atenção. Há pontos onde deveria haver vírgulas, letras batidas a mais, palavras inteiras faltando. Isso pode até atrapalhar a compreensão de frases ao longo da leitura. A tradução de Mariana Serpa está ótima, mas os erros na revisão atrapalharam o bom andamento do livro.

Confiança era feito mofo. Ia se acumulando, ao longo do tempo, em locais negligenciados.

Página 151


Ficção e realidade
Foi bem interessante a escolha da autora em usar a Guerra Civil Inglesa para ambientar seu romance, pois é um momento de amadurecimento do reino junto do amadurecimento da personagem. Os partidários do rei Carlos I da Inglaterra e do Parlamento, liderado por Oliver Cromwell, começam a se engalfinhar em 1642 devido ao poder absolutista do rei, que se via como um enviado de Deus e sentia que podia governar do jeito que quisesse. Contestar o rei era sacrilégio, bem como contestar qualquer família nobre, que se viam, por extensão, também abençoados.

Makepeace vive nesse mundo de dicotomias. Após a revolução, o poder do rei se viu reduzido, onde o rei existe e reina, mas não governa, quem governa é o Primeiro-Ministro, através do parlamento. A retirada desse poder dos nobres também é uma retirada de poder sobre a pobre Makepeace, controlada por pessoas poderosas desde a tenra infância.

Frances Hardinge

Frances Hardinge é uma escritora britânica de livros infantis e juvenis. Seu romance de estréia, Fly By Night, ganhou o Prêmio Branford Boase de 2006


Pontos positivos
Makepeace
Fantasmas
Bem escrito e pesquisado
Pontos negativos
Final meio em aberto
Problemas de revisão

Título: As Crônicas das Sombras
Título original em inglês: A Skinful of Shadows
Autora: Frances Hardinge
Tradutora: Mariana Serpa
Editora: DarkSide (selo DarkLove)
Páginas: 448
Ano de lançamento: 2020
Onde comprar: na Amazon ou na loja da DarkSide com um brinde exclusivo!


Avaliação do MS?
Que jornada foi essa ao lado de Makepeace! Corajosa, destemida, mesmo quando achava estar imobilizada pelo medo, astuta. Makepeace é uma grande heroína e uma excelente personagem, alguém que você quer acompanhar e até pular para dentro das páginas para ajudar. E ela passa por umas poucas e boas até conseguir respostas. Se você curte romances históricos com pitadas de sobrenatural, vai curtir As Crônicas das Sombras. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!




Até mais! 🐻


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