Resenha: As Bruxas da Noite, de Ritanna Armeni

Mais de 800 mil mulheres serviram nas Forças Armadas Soviéticas durante a Grande Guerra Patriótica, ou como conhecemos por aqui, a Segunda Guerra Mundial. O avanço de Hitler e a quebra do pacto de não-agressão desestabilizaram as forças soviéticas. Notando que estavam perdendo território, Marina Roskova, heroína e símbolo nacional, convenceu Stalin a criar um destacamento aéreo exclusivamente feminino em 1941. Surgiam assim as Bruxas da Noite, ou as Nachthexen.



O livro
Quando Ritanna ouviu falar das Bruxas da Noite, ficou espantada. Logo ficou ansiosa para conversar com uma daquelas bruxas originais, mas descobriu que a maioria já tinha morrido. Tentou contato com uma ou outra, até que a colocaram em contato com Irina Rakobolskaya, física, professora universitária, pesquisadora de raios cósmicos, heroína de guerra e pilota de avião, vice-comandante do regimento aéreo 588.

Resenha: As bruxas da noite, de Ritanna Armeni

Em entrevistas em seu apartamento no campus da universidade, a idosa Irina, com 96 anos, relata a Ritanna e Eleonora Mancini suas memórias daqueles dias. Apaixonadas pela pátria, as mulheres também treinavam tiro, voo, salto de paraquedas, tal como os homens. A Pátria Socialista garantia, ao menos no papel, a igualdade entre homens e mulheres, mas na prática ainda não acontecia.

Em junho de 1941, Irina é uma jovem estudante de física. Naquele dia, porém, ficaram sabendo que a Alemanha Nazista tinha quebrado o pacto de não-agressão, invadindo as fronteiras soviéticas e bombardeando com a Luftwaffe. O choque é geral, pois Stalin tinha garantido que Hitler era leal ao pacto. Irina acredita que as mulheres também podem fazer a diferença no conflito, que podem lutar pela pátria tanto quanto os homens. E quando a convocação geral chega para voluntários, Irina e suas amigas se animam.

Stalin, porém, está reticente de ter mulheres na linha de frente da guerra. Mulheres jovens, que podem ser mães e esposas? Tal como muitos oficiais, ele achava que era melhor ter as mulheres em casa, trabalhando na indústria, mantendo a vida comum, mantendo a produção constante. Quem o convence é Marina Roskova, grande heroína da União Soviética, mulher que era para os soviéticos e é para os russos o que Amelia Earhart é para os norte-americanos. Marina o convence a criar destacamentos puramente femininos e nessa reunião teria cunhado a lendária frase "uma mulher é capaz de tudo".

Essas mulheres estavam em busca da igualdade e da entrega absoluta à pátria e estavam dispostas a morrer para consegui-la. Mas não foi fácil. Não havia uniformes femininos, calcinhas, sutiãs ou absorventes paras milhares de mulheres que serviram na linha de frente. Em A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana agrupou os relatos de atiradoras de elite, desarmadoras de bombas, enfermeiras, cirurgiãs, partisans e como elas precisavam roubar camisetas dos varais dos colegas homens para ter um mínimo de higiene.

Para piorar, a Força Aérea deu às mulheres os Polikarpov, aviões de madeira, pequenos, primitivos se considerar o que estava voando naqueles dias. Mas também era uma aeronave muito rápida, furtiva, excelente para ataques surpresa, fácil de manusear e muito ligeira. Animadas para irem aos céus e defender a pátria, elas não esperavam os olhares de escárnio, às vezes de ódio, dos colegas homens. Mas uma coisa se estabeleceu naqueles grupamentos: uma amizade e companheirismo para a vida toda.

Quando a guerra acabou, aquelas jovens eram agora heroínas de guerras, mulheres adultas, que tinham visto o horror da guerra e o que seus próprios soldados, colegas de armas, podiam fazer. Ao voltarem para casa, como se acostumar aos sapatos altos, às aulas na universidade, às noites silenciosas dos apartamentos. Como voltar à vida comum?

Foi uma leitura muito emotiva, muito pessoal, já que são as lembranças de uma dessas bruxas originais, de alguém que voou baixo, no silêncio da noite, jogando bombas em destacamentos, comboios e veículos nazistas. São os relatos de mulheres que viram a morte, viram os corpos das colegas destroçados, as carcaças queimadas de seus aviões. Aqueles que dizem que mulheres não servem para a vida militar, lembrem-se disso: essas mulheres foram voluntárias.

Enquanto eu corria o risco de morrer, era adequada à Força Aérea e à vida militar. Depois, com a paz, já não precisavam mais de mim.

Página 233

Uma pena que o livro seja muito curto, porém ele cumpre seu papel de nos dar as emoções, os medos e os desejos dessas mulheres que apenas queriam servir ao seu país. Acredito que a idade de Irina na época também encurtou as entrevistas, o que deixou o livro sucinto. A tradução foi de Karina Jannini e está ótima. Praticamente não encontrei problemas com tradução ou revisão no livro. Uma pena não ter fotos nem de Irina, nem de Marina ou dos destacamentos aéreos.


Ficção e realidade
A ida destas mulheres para o conflito só foi tolerada porque o esforço de guerra falava mais alto, mas assim que elas deitaram os uniformes, a velha misoginia voltou com força. Discursos oficiais diziam que elas tinham que "voltar aos seus devidos lugares". Se elas quisessem servir à pátria, que fossem como esposas e mães. Conseguir emprego se tornou difícil para essas mulheres, que também tiveram que lidar com o descaso do governo e com o quase que completo apagamento histórico.

Ritanna Armeni

Ritanna Armeni é uma jornalista, apresentadora de TV e escritora italiana.


Pontos positivos
As bruxas
Impressões pessoais
Bem escrito
Pontos negativos

Acaba logo!

Título: As Bruxas da Noite: A História não Contada do Regimento Aéreo Feminino Russo Durante a Segunda Guerra Mundial
Título original em italiano: Una donna può tutto: 1941: volano le Streghe della notte
Autora: Ritanna Armeni
Tradutora: Karina Jannini
Editora: Seoman
Ano: 2019
Páginas: 248
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Foi difícil conter as lágrimas em alguns momentos da leitura. Irina não deixou seus sentimentos de fora da narrativa e Ritanna também achou importante nos passar essas emoções. É preciso ir além dos números de um conflito para poder compreendê-lo por completo. Cinco aliens para as Bruxas da Noite e sua luta heróica e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais! 🛩

Os homens combatiam por dever e, por isso, obedeciam cegamente às ordens. Nós não queríamos ser iguais, queríamos ser melhores, queríamos fazer mais e melhor. Por isso, todo dia, aumentávamos o número de saídas. As nossas meninas choravam quando eram dispensadas de algum voo.

Página 169

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1 Comentário

  1. Estou tão fascinada pela história dessas mulheres e verdadeiras heroínas, que estou escrevendo uma aventura de RPG baseada nas Bruxas da Noite. E o livro me deu uma imensa vontade de possuí-lo! Excelente resenha, Sybylla. Como sempre.
    Beijos!

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