Vivemos uma distopia?

Uma reclamação de longa data a respeito da ficção científica é sua suposta incapacidade de criar enredos positivos, onde a humanidade soube superar seus problemas. Já ouvi mais de uma vez que FC é pessimista. E eu entendo a reclamação, porém também vejo que as pessoas estão julgando todo o gênero da ficção científica com base em algumas produções e livros famosos. Distopia é um dos subgêneros dentro da FC, um dos mais trabalhados e conhecidos e daí veio sua fama de pessimista.

A ficção científica tem a capacidade de mudar a forma como as pessoas pensam a respeito de uma série de pertinentes questões de nossos tempos e isso a torna um dos aspectos mais importantes da nossa cultura. E usamos as distopias para fazer comparações com nossa realidade justamente para poder discuti-la. Mas vivemos em uma? Se vivemos, quem vive?



Vivemos uma distopia?
Arte de TeslaMen, no DevianART

Em janeiro de 2017, a Penguin Random House, editora que publica o livro 1984, de George Orwell, anunciou um aumento de 9.500% nas vendas do livro desde que Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos. Outros títulos como O Conto da Aia foram catapultados para os primeiros lugares de vendas, em especial com a série de TV, assim como Admirável Mundo Novo, A Parábola do Semeador, Jogos Vorazes, entre outros títulos distópicos que (re)começaram a cair na boca do povo. Não é só o apelo pelo clássico ou pelas produções para jovens adultos, mas sim a de procurar uma forma de lidar com os novos rumos que o mundo tem tomado.

Em tempos de desesperança muitos de nós se voltam para as artes. Não é só pela chance de escapar deste mundo e entrar em outros, é também para nos fazer questionar nossa realidade. As distopias pegam um determinado problema e o extrapolam ao máximo, quase que de maneira inverossímil, para nos fazer vê-los pelo o que são. Quando os 24 jovens dos distritos de Panem vão para a arena aquilo é na verdade uma forma de controle social muito eficaz, valendo-se da indústria do espetáculo, a mesma indústria que leva milhões de expectadores para a frente da televisão para assistir à nova edição do BBB. Lidar com os problemas apresentados pelos enredos distópicos nos mostra a como lidar com os problemas de agora.

Nós olhamos para a ficção para ver como as pessoas estão lidando com problemas muito graves.

Chris Robichaud

Algumas pessoas dizem que as distopias estão nos deixando com medo do futuro e da tecnologia. No geral as pessoas gostam da tecnologia, o problema é o uso que será feito dela. A energia nuclear na medicina é benéfica e salva vidas, mas a energia nuclear convertida para a guerra é devastadora. Tudo depende da forma como ela é utilizada e por isso as pessoas acabam receosas do futuro. Já vimos o que o mau uso de certas tecnologias fez ao mundo e às pessoas, é natural ter medo daquilo que não podemos controlar.

"Isso é muito Black Mirror", "Estamos vivendo o mundo dO Conto da Aia", "É o mundo da pós-verdade", são algumas das frases que estão rodando nas redes sociais nos últimos tempos, todas elas, direta ou indiretamente, citando enredos distópicos. Eles escancaram nossos medos. E não é só o medo do mau uso da tecnologia, mas o medo de perder nossa independência. O que estes enredos costumam ter em comum são governos que oprimem e matam aqueles que dele discordam. E quando vemos governos como o atual aqui no Brasil, ou do Trump ou de qualquer outro país onde a extrema-direita está ganhando poder, o medo aumenta.


Distopia pra quem?
A questão é que a utopia de uns é a distopia de outros. Nós não vivemos uma distopia plena porque não temos 100% de opressão sobre o povo, com apenas o governo mantendo seus privilégios. Quando falamos que o mundo hoje é parecido com o mundo de O Conto da Aia, ele vale apenas para 50% da população: as mulheres. Um homem dificilmente ficaria indignado com os direitos reprodutivos e civis das mulheres sendo retirados, pois ele não é atingido. Na verdade ele nem será tocado por uma mudança como essa; quando o privilégio dele pode ser tocado ou mexido, aí sim alguém ficaria indignado.

Nós vivemos distopias próprias. Os negros têm a sua, a comunidade LGBTQ+ tem a sua, as mulheres têm a sua, as pessoas com deficiência têm a sua, todas subordinadas a um modelo de mundo que não foi construído para nos contemplar. A utopia da madame do Leblon, é a distopia de sua diarista que fica três horas no transporte público. A utopia do grande empresário da moda se vale do trabalho escravo de costureiras que ganham centavos por peça produzida, numa rotina que pode chegar a 18 horas por dia.

Nós só viveríamos uma distopia completa se aqueles que estão no topo da pirâmide começassem a ser oprimidos, se todos estivessem num mesmo patamar de opressão. Qualquer pessoa que comece a perder seus direitos, em algum momento, se tornaria crítica do governo, se ergueria em insurreição. Mas se você está feliz no seu cantinho, sua vida não foi mudada pela tomada de poder de um governo reaça, pra que você vai se incomodar em lutar por uma causa que não é sua? Pimenta nos olhos dos outros...

Leia também: Crianças no porão

Agora sim temos um mundo que nós reconhecemos: aquele onde as pessoas que estão nas elites ou que pensam que são parte da elite não se incomodam com as passeatas que lutam pela educação pública, pela ciência e pela pesquisa. Esse mundo é distópico para quem está embaixo da chuva e no frio na rua, lutando para que as universidades continuem com autonomia e com verbas para pesquisa ou para que os trabalhadores continuem com seus direitos básicos. Quem está lá do outro lado dando a canetada, não se incomoda, pois para ele é o mundo ideal. Uma utopia.

Consumimos as distopias porque sabemos que o mundo está seguindo o caminho errado. O que foi duramente conquistado pode ser retirado com a próxima canetada. As distopias nos tornam críticos ao momento presente que vivemos e nos faz ver como o mundo pode ficar ou o quão pior ele pode ser se seguirmos um determinado caminho. Consumimos as distopias para aprender com nossos erros e para avaliarmos um cenário que pode ou não vir a acontecer. Porém não devemos perder de vista que a distopia sempre foi a realidade para vários grupos que nunca tiveram voz e/ou que vivem sendo silenciados.

Eduardo Galeano dizia que a utopia está sempre no horizonte e que por mais que você caminhe, nunca a alcançará. Ela fica no horizonte por um motivo: para que possamos almejá-la, para que sempre tenhamos um lugar para buscar o melhor, mesmo que nunca o alcancemos plenamente. Com as distopias é a mesma coisa; precisamos ficar vigilantes, sempre de olho, para não cairmos em uma ou para tirar aqueles que nela vivem.

Até mais.

Leia mais:
The Remarkable Rise of the Feminist Dystopia - The Atlantic
Why Dystopia Persist – The Problem Is In Your Mindset - Living Sensical


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1 Comentário

  1. Gostei muito do texto.
    Bastante reflexivo!
    De fato, estarmos vigilantes. Até porque tenho certeza absoluta que antes de qualquer ditadura sanguinária, muitos falaram:
    "ah, mas vocês estão exagerando"
    "ah, eles se fingem de radical apenas para ter apoio"
    "ah, é só até tirar o outro, depois a gente tira eles".

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