Resenha: We are the ants, de Shaun David Hutchinson

Não sei bem como cheguei a este livro. Ele estava no meu Kindle já faz tempo, peguei em alguma promoção e nunca li. Só sei que o título apareceu em algum texto que eu li e o fato de ser uma história de abdução e um adolescente ter o destino de todo o planeta nas mãos me atraiu muito. Mas o livro é bem mais do que isso, trazendo importantes discussões como solidão, depressão e bullying. Deixo também alertas de gatilho para tentativa de estupro, suicídio e homofobia, sendo que o autor tratou dos assuntos com muito respeito e gentileza.




O livro
Henry Danton é um adolescente que está no ensino médio. Mas Henry convive com uma dor, a dor da perda. Seu namorado Jesse se suicidou e Henry tenta entender o porque faz mais de um ano. Em casa a situação não é muito melhor. Seu irmão é um babaca punheteiro, a mãe perdeu a vontade de viver depois que o marido foi embora e sua avó está gradualmente cedendo ao Alzheimer. Na escola, Henry é conhecido como Space Boy, sofre bullying pesado dos colegas e até mesmo do peguete dele, Marcus. Como se a vida não estivesse ruim o suficiente, ele é abduzido por aliens.

Resenha: We are the ants, de Shaun David Hutchinson

O apelido de Space Boy o irrita profundamente e a culpa é de seu próprio irmão. As lesmas, como Henry apelidou os aliens, o abduziram várias vezes até que ele entendesse o que eles queriam: o mundo seria destruído no final de janeiro de 2016. Caberia a Henry apertar o botão que poderia salvar a Terra e a humanidade. Mas na boa? Henry não tem lá muito o que salvar e não está com muita vontade de ceder aos aliens.

Quando comecei o livro, que tem uma premissa muito simples, uma simples questão de sim ou não, não esperava as profundas discussões levantadas pelo autor. É um livro de quase 500 páginas, mas você não sente que é um livro longo, pois o autor escreve muito bem. É uma leitura fluída, você não tropeça, você sempre quer mais. Tanto que protelei o quanto pude a leitura para que ele não terminasse. De um livro de abdução alienígena, Shaun transformou We are the ants em um ensaio filosófico a respeito da vida, o universo e tudo mais.

O livro se resume a uma jornada de cura e aceitação. Henry é um rapaz complexo, bem construído e vulnerável, o que o torna uma presa fácil para o bullying dos colegas, especialmente Marcus, o personagem mais odioso do livro, um rapaz popular, pegador, que tortura Henry na frente dos amigos para dar uns pegas nele no vestiário. É um garoto com sérios problemas com drogas e bebidas e com a própria sexualidade, por não conseguir se assumir gay ou até mesmo bissexual. E que também é mau caráter pra KCT. Shaun criou um personagem insuportável, egoísta, hipócrita mesmo. Ele tortura Henry das piores maneiras. E quando digo piores, digo piores mesmo, bullying pesado. E por alguma razão chocante Henry o protege por boa parte do livro.

Henry vê a vida mudar de perspectiva quando ele conhece Diego Vega, aluno novo que se torna seu amigo e depois algo mais. Diego tem um passado misterioso e não comenta muito a respeito, o que deixa Henry ainda mais encantado com ele. Se antes ele estava decidido a não apertar o botão para salvar a Terra, a visão otimista de Diego sobre a vida acaba balançando sua convicção.

Chorei várias vezes com Henry. Quis quebrar Marcus e seus amigos na porrada. Shaun consegue criar personagens com os quais a gente simpatiza muito rápido, com os quais você se preocupa. É uma jornada dolorosa a de Henry, que se culpa pelo divórcio dos pais, se culpa pela morte de Jesse, se culpa por praticamente tudo e se vê indefeso contra o bullying. O que fazer? Como você conseguiria ver algo de positivo na vida vivendo desse jeito? Não há respostas fáceis para o dilema de Henry, mas novamente Shaun nos leva por caminhos tortuosos. Pequenas vitórias fazem a vida de Henry começar a valer à pena. Não é assim com a gente também?

Depressão não é uma guerra que você ganha. É uma batalha que se luta todos os dias. Você nunca para, nunca descansa. É uma luta sangrenta após a outra.

(tradução livre)

O livro me ganhou logo no começo, mas sinto que faltou um epílogo. Sinto que algumas explicações ficaram faltando para o enredo de fundo. Ainda que fosse apenas na cabeça de Henry, faltou uma explicação simples. Acredito que a intenção de Shaun era deixar na cabeça de cada leitor uma explicação pessoal para aquele fim, mas isso nem sempre funciona. É uma observação pessoal, um desejo meu, mas não desabona de maneira nenhuma o livro em si.

Infelizmente o livro não foi traduzido para o português, o que me é incompreensível. É um livro super importante, precisa ser lido e discutido e já virei fã do autor, quero ler seus outros livros. O preço nas lojas brasileiras está praticamente proibitivo para a maioria de nós, até mesmo o ebook. O livro físico é quase o mesmo preço. Então se você lê em inglês, sugiro esperar o preço baixar ou torcer para uma editora brasileira se interessar por ele e traduzir. Engrosso o coro com outros leitores, traduzam por favor!


Ficção e realidade
Se os aliens me abduzissem e me dessem a chance de salvar o planeta, eu salvaria? Me coloquei no lugar de Henry várias vezes, pensando como eu agiria se a chance fosse estendida a mim. Henry tem pontos válidos sobre querer deixar que tudo se exploda. E sinceramente, tem horas que eu gostaria também que tudo acabasse. Tem horas que a vida, de fato, não faz sentido. E eu, no meu lugar privilegiado em muita coisa, me sinto assim às vezes, o que pode dizer alguém que está à margem da sociedade, só tomando porrada?

No fim, eu salvaria o planeta, mas não por causa da raça humana, mas por todos os animais, toda a história e cultura que criamos, e por causa dos gatos, obviamente. Se tem algo que pela qual eu viveria seria pelos gatinhos. A Terra é muito mais do que a raça humana e nossa vida é muito mais do que nossas dores. É preciso ter isso em mente se estivermos de frente para o botão do apocalipse.

Shaun David Hutchinson

Shaun David Hutchinson é autor de outros livros para o público jovem adulto. Nascido na Flórida, trabalha hoje com tecnologia da informação e design, usa o tempo livre para escrever e curtir nerdices como séries e livros de ficção científica e fantasia.

Por fora eu era um diamante e não podia ser quebrado. Por dentro, porém, eu já estava em pedaços.

(tradução livre)

Pontos positivos
Henry e Diego
Personagens bem escritos
Bem escrito
Pontos negativos
Violência
Não tem em português
Final em aberto

Título: We are the ants
Autor: Shaun David Hutchinson
Editora: Simon Pulse
Ano: 2016
Páginas: 464
Onde comprar: Amazon


Avaliação do MS?
Me arrependo de não ter lido esse livro antes, sendo que ele estava há tanto tempo no Kindle. E peço encarecidamente que alguma editora traduza e traga para o Brasil, pois tenho certeza que a galera vai se apaixonar pelo enredo, pela luta de Henry e vai querer acompanhar sua jornada, por mais dolorosa que ela seja. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais! 🐜

Os sonhos nos dão esperança porque existem como possibilidade pura. Ao contrário das memórias, que são fósseis, há muito tempo mortas e profundamente enterradas.

(tradução livre)

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